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GESTALT TERAPIA
O QUE É ISSO?
Texto de Walter Ribeiro Para a Gestalt Terapia, enquanto Fenomenologia Existencial que é, somos seres que se fazem em suas experiências interacionais. Trazemos para o nosso desenvolvimento individual, como carga hereditária, o nosso potencial, a nossa sabedoria desenvolvida e acumulada por nossos ancestrais e pelos ancestrais de nossos ancestrais. Com toda essa riqueza de possibilidades/potencialidades, não nascemos pré-determinados a ser assassinos ou anjos, dominadores ou dominados, algozes ou vítimas, ou qualquer outra coisa. Aliás, a essência de nossa organização organísmica, incluindo a do nosso sistema nervoso, “não permite que sejamos determinados, apesar de sermos seres condicionados por séculos” (Paulo Freire).
Desenvolvemos, em nossas interações com o meio, potencialidades pré-existentes e criamos novas. Este pode ter influência no desencadeamento de processos internos de alterações e de criações que podem levar a adaptações. O meio não pode, entretanto, determinar diretamente nenhuma mudança. O sentimento de identidade de nossa organização de seres que se autoproduzem se vê ameaçado em sua continuidade, essência e forma de ser diante de qualquer tentativa de interferência externa, podendo desencadear processos contrários de defesa e de autopreservação, transformando em guerra o natural conflito com o contexto, conflito natural e necessário porque precisamos do meio para sobreviver e, ao mesmo tempo, precisamos nos proteger desse mesmo meio que, freqüentemente, ameaça-nos de alguma forma. O impasse (guerra) assim criado dificulta ou impede a solução pela integração criativa desses opostos (Heráclito/Gestalt Terapia). Obviamente, a integração só é possível dentro das limitações de cada circunstância e momento histórico daquela interação específica.
Desenvolvemos assim o ser que somos (nos formamos/deformamos) em harmonia com as possibilidades que as interações oferecem. As primeiras interações são as mais importantes, uma vez que, quanto mais tenros, necessitados de suporte externo e desprotegidos, mais sujeitos a adaptações sem integração. Para nos autopreservarmos da melhor maneira possível e ao mesmo tempo desenvolver e proteger a nossa individualidade, começamos a formar/construir o nosso modo de ser e de perceber já na interação intra-uterina (início de nosso aprendizado ontogenético).
Nosso comportamento, portanto e mais uma vez, não é pré-determinado (“pau que nasce torto, permanece torto” é a afirmação de uma teoria/crença oposta à nossa). Insistindo: nos fazemos, construímos as nossas características próprias, tanto em ambientes favoráveis como em ambientes desfavoráveis, o que contribui para nos fazer tão parecidos com algumas pessoas e tão diferentes de outras.
Enfim, somos basicamente (insistimos) o resultado dos ajustes criativos, dos arranjos, das manhas, das co-construções entre as nossas potencialidades milenarmente desenvolvidas (fisiológicas/psicológicas/intelectuais/espirituais) e os recursos e possibilidades ambientais. Tais ajustes criativos sempre buscados, portanto sempre em movimento, sempre em expansão, na tentativa de acompanhar o fluxo vital e a expansão do Universo (totalidade da qual somos parte), buscam atender às nossas necessidades fundamentais de crescimento, sem ameaça à autopreservação e à continuidade.
Repetindo, temos em nós, portanto, desde o início de nossas vidas, uma grande e complexa riqueza de potencialidades/capacidades necessárias e suficientes para o nosso desenvolvimento, para a nossa formação, que se dá da melhor forma dentro dos possíveis surgidos no percurso histórico de cada um.
Quando há uma quantidade suficiente de aceitação, de Fé, de Confiança e de Amor nas interações (Rogers, Alice Miller, Humberto Maturana, Ribeiro), nos desenvolvemos (nós e nossos contextos) da melhor forma possível para nós, para os outros e para o mundo; quando não existem essas condições (como geralmente é o caso), fazemos o melhor que podemos. Temos um sábio interior (filo e ontogeneticamente desenvolvido - já intuído por Fritz Perls) encarregado de cada processo decisório, decisões cujas razões geralmente escapam à nossa razão conceitual.
O Ser Humano possui, pois, todos os instrumentos e potencialidades de que necessita para se desenvolver da forma mais adequada possível (e de propiciar o mesmo aos outros e aos contextos de que é parte) ao momento histórico que atravessa. Para isto, basta (como a uma boa semente) que tenha liberdade (suporte externo para a sua autonomia -Deci) e que viva em ambientes favoráveis, ou seja, que tenham para com ele “consideração positiva incondicional”, de acordo com Carl Rogers (a terra não exige que a semente seja o que não é). As nossas culturas não têm sido essa terra fértil.
O problema tem sido que, na grande maioria das interações em que nos formamos, nossos parceiros não acreditam, e nós mesmos não acreditamos, que andaríamos melhor com as nossas próprias pernas livres e desimpedidas. Não confiam (como nós também não confiamos) em nossa sabedoria interior (em nosso velho sábio, como diria Perls) e, como geralmente nós e esses parceiros somos prisioneiros da descrença nas potencialidades do Ser Humano quando livre e estamos a serviço de sociedades competitivas, conservadoras, prepotentes e inseguras, as interações se tornam coercitivas, controladoras e punitivas. Sair desse círculo vicioso requer muito trabalho, esforço e dedicação e ajuda.
Essa atitude da quase totalidade das sociedades, ao nos tirar a possibilidade de desenvolvermos modos de ser diferentes dos preconizados por elas, através dos seus agentes de controle (pais, padres, professores, terapeutas e tantos outros), nos tira o poder de sujeitos/agentes de nosso próprio desenvolvimento, poder inerente e indispensável para que existamos de acordo com a nossa essência de seres que se autoproduzem da forma mais coerente possível tanto para nós mesmos, como para o contexto em que vivemos e do qual sempre buscamos ter consciência de que fazemos parte, como partes de um todo.
Consideradas essas formas essenciais de “ser” e de “funcionar” do Ser Humano, propomos uma terapia libertadora, ou seja, uma terapia que apenas (apenas?) nos dê suporte para, com autonomia, escolher e seguir os nossos próprios caminhos por mais divergentes que possam parecer - caminhos que se vão fazendo na medida em que a autonomia (a liberdade) se exerce e a autoconfiança aumenta nesse contexto suportivo e nutritivo. Essa difícil proposta já foi apresentada e defendida por alguns terapeutas modernos. Ela é difícil porque confronta a “pedagogia negra” que sempre regeu a ainda rege a nossa “educação”, a nossa “formação”. “Educação” entre aspas porque há séculos tem se dedicado mais ao adestramento do que a uma educação propiciadora de crescimento/desenvolvimento individualizado. Ver Alice Miller, 1983 e Enildo Stein, 2003.
A versão que propomos desse modo de interagirmos “terapeuticamente” está nos capítulos finais do meu livro “Existência >> Essência” – Ed. Summus, 1998. Agora, saindo, atualizada, em inglês como “Human Interactions – Can We Improve it?” - Ed. Gestalt Journal.
Bibliografia básica:
Perls, Frederick S., Hefferline, Ralph e Goodman, Paul – GESTALT TERAPIA – Excitamento e Crescimento na Personalidade Humana – Ed. Summus 1997 Ribeiro, Walter. Existência - Essência. Ed. Summus, 1998. (citado) Freire, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes Necessários à Prática Educativa. Paz e Terra, 2002 Maturana, Humberto R. e Varela, Francisco J. A Árvore do Conhecimento – As bases biológicas do entendimento humano. Editorial Psy, 1995 Heráclito de Éfeso, 450 aC. In Émille Bréhier: Histoire de la Philosophie 1º tema de Heráclito: “o nascimento e a conservação dos seres devem-se a um conflito de contrários que, mutuamente, se opõem e se mantém. Esse fecundo conflito que é, ao mesmo tempo, harmonia...no sentido de ajustamento de forças agindo em sentido oposto... assim se limitam e se unem, harmônicos e discordantes. Todo excesso de elemento contrário, que ultrapasse a medida assinalada é punido...” Barbaras, Renaud. Cap. XX de Naturalizing Phenomenology – issues in contemporary phenomenology and cognitive science – Edited by Jean Petitot, Francisco Varela, Bernard Pachoud, Jean-Michel Roy Sanford: Writing Science, 1999 Rogers, Carl Miller, Alice. O Drama da Criança Bem Dotada – Como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos. Ed.Summus, 1997 Deci, Edward L. Why We Do What We Do – Understanding Self-Motivation. Penguin Books, 1996 (Há tradução no Brasil) Maturana, Humberto R. Emoções e Linguagem na Educação e na Política. Ed. UFMG, 2002 Miller, Alice. For Your Own Good – Hidden cruelty in child-rearing and the roots of violence. Nova York: Farrar.Strauss.Giroux, 1983 Stein, Enildo. Palestra proferida em Mesa Redonda durante o VI Congresso Brasileiro da Abordagem Gestáltica – IX Encontro Nacional de Gestalt Terapia, em Gramado – RS, no dia 02.11.03 Maturana, Humberto R. e Verden-Zöller, Gerda. Amar e Brincar: fundamentos esquecidos do humano. Ed. Palas Athena, 2004 Miller, Alice. The Body Never Lies: The Lingering Effects of Cruel Parenting. New York and London: W.W. Norton & Company, 2005
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