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ALICE MILLER e o seu ETERNO "DRAMA"

(mais atual do que nunca)

 

 

Walter Ribeiro *

 

 

Outubro/2008

 

          

“O Drama da Criança Bem Dotada” (na última edição inglesa que vi: “O Drama de Ser Uma Criança”) – Como os Pais Podem Formar (e Deformar) a Vida Emocional dos Filhos.

 

            A autora focaliza, neste e em seus outros trabalhos, o grau despercebido por nós, adultos, da tragicidade de nossas infâncias, mesmo naqueles lares tidos e havidos como “normais”, onde a manipulação, a coerção e o controle das emoções infantis por meios violentos ou sutis são a tônica. Tônica que nos marca, indelevelmente, e nos influencia e acompanha por toda a vida.

 

            Enfatiza que, a menos que cuidemos do assunto, por exemplo, parando de negar nossos sofrimentos infantis despistados sob o rótulo protetor/enganador de “uma infância paradisíaca” – seremos inevitavelmente reféns insconscientes dessas emoções reprimidas, desenvolvendo a série infindável de sintomas com que geralmente nos apresentamos (sem perceber, é claro).

 

            Os seus achados de clareza e comprovação crescentes mostram contundentemente a correlação das histórias particulares com os problemas (também históricos) da sociedade: de que forma o ódio reprimido nas histórias individuais se expressam como a violência registrada quotidianamente (todo violentado é um violentador, todo abusado é um abusador em potencial). A energia negativa assim reprimida e negada não tem como simplesmente desaparecer como fumaça, satisfazendo nossos mais legítimos e ingênuos sonhos. Ela permanece em algum lugar de nosso Ser, de nosso organismo, e ressurge de muitas formas: ou contra nós mesmos (p.ex., reprimindo-nos ainda mais, desenvolvendo doenças ou adquirindo vícios); ou contra tudo e contra todos (como os ditadores cruéis, os assassinos de massa e os violentadores/estupradores) ou simplesmente através de nossa cotidiana prepotência autocrática que nos levou (e leva) ao nazismo disfarçado ou não, assumido ou hipócrita, que em maior ou menor grau praticamos todos os dias. Atitude existencial perpetuada principalmente por não ser posta em questão porque impedida por nosso comportamento e atitudes de negação endêmica aos quais fomos/somos adestrados/adestradores.

 

            Constata através dos seus achados clínicos, dos seus estudos biográficos e agora das respostas que vem obtendo de todos os cantos da Terra (já foi traduzida para mais de vinte línguas e vendeu mais de um milhão de exemplares só deste livro), que o grande problema de nossas sociedades é a insuficiente quantidade de amor e de “consideração positiva incondicional” com que fomos criados. O amor que recebemos é condicional, é “amor” pelo nosso “bom comportamento”, pela nossa adequação aos princípios pré-estabelecidos e, por isso, não é o amor verdadeiro, a aceitação e o sentimento de que se é bem vindo. Sentimento de que todos os seres vivos e todos nós precisamos para existir e crescer de acordo com nossos mais caros anseios de seres felizes, sociais e éticos.

 

            Escrevi na primeira Apresentação da Edição Brasileira, publicada em 1986:

 

            É com prazer e orgulho que apresento a vocês Alice Miller, através do seu primeiro livro publicado: esse genial e desconcertante livrinho, resultado de agudas observações e amadurecimento durante 20 anos de prática analítica na Europa de hoje.

            A sua utilidade, importância e fascinação não se limitam, entretanto, ao interesse do psicanalista e nem mesmo do terapeuta de qualquer credo: estendem-se, e esse é o seu objetivo e propósito, a todos nós, público em geral, com quem a autora quer compartilhar as suas idéias sobre a verdadeira natureza humana e como fomos (e somos) desviados dela através de um processo educativo alienante e caduco, desde os primeiros momentos de nossas vidas.

 

            Não se trata de problemas de superdotados de inteligência apenas; refere-se a todos nós cuja sensibilidade infantil foi usada consciente ou inconscientemente por nossos educadores para servir a seus próprios propósitos freqüentemente egoístas.

 

            Você foi amado(a) incondicionalmente pelo que realmente era? Ou o foi pelos seus feitos, sua graça, sua beleza, adequação, obediência ou, ainda, por seu precoce treino ao banheiro, por ser muito “boazinha” (“bonzinho”), “não dar nenhum trabalho”, ter aprendido muito cedo os seus “deveres”, por ter cuidado dos irmãozinhos? Em suma, você era o “orgulho” da família?

 

            Se aconteceu isso, você faz parte da grande maioria das pessoas e, então, este livro é para você, para nós que fomos amados se, ou seja, amados sob a condição de que correspondêssemos às expectativas, por vezes insaciáveis, daqueles que cuidaram de nossa “educação”.

 

            Necessitamos de amor como de ar e, para obtê-lo, renunciamos ao nosso próprio processo de desenvolvimento como indivíduos únicos e irrepetíveis, e nos massificamos através das repetição de papéis socialmente desejáveis.

 

            Isso acontece muito cedo: a criança precisa do amor do adulto porque não pode viver sem ele. O pavor ante o menor sinal de desaprovação, que para ela significa ameaça de abandono, é o instrumento de opressão utilizado no processo de adaptação do bebê.

 

            Não é demais ressaltar o óbvio de que mais tarde pagamos caro por isso: p.ex., achando a vida inútil e insípida, para não mencionar neuroses mais severas ou até perturbações piores.

 

            A sensibilidade e inteligência de Alice Miller captaram magnificamente esse processo de alienação em  seus clientes e orientandos, os quais, entretanto, ela preserva e respeita, não deixando a menor pista para a sua identificação. Por isso, utiliza-se neste pequeno grande livro, de pessoas notáveis e conhecidas, para relatar exemplos dos seus achados, o que faz de forma clara e concisa no 3º capítulo, onde compara passagens da obra de Hermann Hesse com passagens do Diário da mãe do grande escritor, exemplificando, dessa forma, como a maioria de nós é prisioneira de nossa infância.

 

            Este livro, que agora está em suas mãos, me ajudou tanto, pessoal e profissionalmente, que dediquei muitas horas do meu escasso tempo de Gestalt Terapia para empreender a aventura, inédita para mim, de traduzir e compartilhar com você essas idéias que, antes do português, já estão sendo lidas em onze línguas, sinal evidente de sua utilidade e importância.

                                                           Brasília, outubro/1986

                                                  Walter Ferreira da Rosa Ribeiro

 

Na edição ora apresentada, ela escreve: 149/150.

 

Para preservar o estilo associativo do Drama Original e manter os seus conteúdos acessíveis ao leitor leigo, tentei não sobrecarregar este livro com referências. Os profissionais interessados, contudo, podem referir-se a tópicos específicos nos livros que escrevi nos anos em que o Drama foi publicado.

 

  1. O tema manipulação em terapia é tratado extensivamente em Tu Não Perceberás, com referências específicas à várias técnicas terapêuticas que considero manipulativas.

 

  1. O tema manipulação e maus tratos na infância é o tema principal de For Your Own Good (não publicado em português), onde também substancio, com exemplos bem conhecidos, minha opinião sobre as raízes dos crimes seriais, assassinatos e adição de drogas.

 

  1. O objetivo da versão revisada do Drama é sobretudo tornar as pessoas conscientes do fato de que é impossível tanto receber quanto prover ajuda terapêutica enquanto a confrontação pessoal e emocional com o próprio passado for evitada (enf.acres.). Como a tendência de escapar da verdade da história única por meios teóricos, religiosos, pseudo-científicos. E (sempre) os conceitos manipulativos continuam a estar muito em moda. Quero ser tão clara quanto possível nesse ponto. Espero que minhas descrições um tanto amplas de certas “terapias” bem como as próprias experiências dos leitores com auto-terapia os tornem mais alertas e mais capazes de reconhecer por si mesmos esses conceitos enganadores, caso sejam expostos a eles no futuro.

 

 

Alice Miller, hoje, tem mais de 10 livros publicados. Entretanto, continua lambendo esta sua primeira e genial “cria predileta” com permanentes atualizações e enriquecimentos, como aconteceu com esta edição da Virago Press, de Londres, em que até o título tornou-se mais abrangente, adequado e harmônico com o texto: The Drama of Being a Child.

 

Parabéns a ela, com nossa admiração e agradecimentos.

  


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

 

 

 

 

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