CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

 

Dezembro/2008

 

 

A COERÊNCIA DOS PRINCÍPIOS DA GESTALT TERAPIA está sendo confirmada diariamente pelos achados e desenvolvimento das ciências, das artes, da Filosofia Contemporânea, bem como de nossa experiência clínica.

(Esta é mais uma tentativa de buscar, onde quer que seja, achados e descobertas que sustentem, dêem coerência e alimentem a harmonia de nosso fazer com os seus fundamentos básicos).

 

Inspirada pelo movimento Fenomenológico, bem como pelas descobertas dos psicólogos da Gestalt, da Psicologia de Kurt Lewin e da Teoria Organísmica de Kurt Goldstein (também influenciados pela Fenomenologia de Edmond Husserl), e, mais tarde, pelo Holismo de Jan Smuts – a Gestalt Terapia propôs uma Filosofia Existencial e uma Prática Clínica baseadas em Princípios radicalmente revolucionários em relação ao pensamento e às psicologias de seu tempo. 

As psicologias do início do século passado faziam parte do contexto científico que acreditava na possibilidade de se ter certezas absolutas e, por isso, as buscavam com empenho e determinação. 

Essa crença científica iniciada por grandes pensadores como Leibniz, Descartes, Newton, Darwin – teve necessidade de utilizar-se do processo de dicotomização do real que, assim fragmentado e dividido em partes cada vez menores, (quanto maior fosse a especialização da ciência e do cientista), maior seriam (e foram) as suas chances de se aproximar mais e mais do tipo de verdade buscada. Essa dicotomização e a conseqüente obsessão de fazer uma perfeita assepsia no objeto de estudos livrando-o de “todas” as variáveis intervenientes indesejáveis levou as ciências da época (assim, cada vez mais divididas e numerosas) a um desenvolvimento espetacular, especialmente no que se refere ao suporte às tecnologias em acelerada evolução. 

O desenvolvimento foi tão significativo que as trouxe ao impasse do qual estão começando a sair. 

O aparente paradoxo é que o primeiro passo das então denominadas “ciências exatas” para tentar sair do impasse em que se encontravam foi substituir a busca da própria exatidão ou da ilusória certeza, pelo Princípio da Incerteza nos seus trabalhos. Inicialmente, apenas a Física deu esse passo decisivo (há cerca de setenta anos). Hoje, quase todos os cientistas de ponta, aceitando a complexidade/multiplicidade do real, abandonaram o sonho do conhecimento absoluto e proclamam que as teorias são apenas “pontos de vista” que nos possibilitam pôr alguma ordem no perturbador caos da complexidade e, assim, conseguir lidar melhor com ele. Dessa forma, aceitando com mais humildade e rigor científico a impossibilidade de domá-lo através de suas concepções. O sonho ingênuo do conhecimento absoluto da Natureza e de tudo que a contém acabou. 

As denominadas ciências humanas não conseguiram aproximar-se tanto da “exatidão” e, por isso, historicamente não ocuparam lugar de destaque no concerto científico. Talvez esteja por aí a razão de ainda hoje algumas (ou alguns) insistirem em almejar esse status de portadoras de alguma certeza como suporte para suas inseguras, fixadas e freqüentemente ambíguas opiniões. 

Entretanto, as outras, as hoje mais denominadas “duras”, é que se tinham retirado do Mundo e dos Seres para conhecê-los. Insisto, esse distanciamento do objeto e negação do todo e de sua complexidade traria benefícios e custos.                 

                   Felizmente para todos, paralela e na contramão do consenso, uma grande dúvida metódica (que talvez sempre tenha existido, mesmo que quase ignorada) começou a tomar vulto há cerca de cem anos, notadamente com o matemático e filósofo Edmond Husserl, que iniciou a sistematização do método fenomenológico. A tentativa de Husserl de re-unir sujeito e objeto de conhecimento, acabando com a dicotomização reinante, foi o grande passo metodológico que ocupou (e ocupa) uma legião de seguidores mais ou menos fiéis. Não importa. Outro caminho abria-se para a Filosofia, para as Ciências e para as Artes. Um caminho tão rigoroso que aceita e, assim, considera e lida melhor com as limitações das possibilidades de conhecimento, bem como daqueles que o perseguem.  Obviamente, Husserl não chegou ao fim do seu sonho. Havia (há) muitos interesses e entulho cultural a transpor. 

É difícil saber em que medida a dificuldade da realização do sonho husserliano de re-unir sujeito/objeto de conhecimento é uma dificuldade intrínseca do próprio projeto ou da nossa dificuldade de aceitarmos a perda da ilusão de poder que a ontologia clássica nos confere: se nos “misturamos” com nosso objeto, perdemos o controle, o poder, a possibilidade de interferência sobre ele. “O adestramento a que fomos submetidos pela nossa “educação” durante os últimos vinte séculos” (Ernildo Stein¹) exige a separação, a dicotomização, do sujeito e do objeto, do adestrador e do adestrado.  

Stein pareceu-me modesto ao estimar em vinte séculos o tempo de adestramento por nós sofrido porque se referiu apenas ao período em que o “Humanismo esforçou-se para melhorar o Ser Humano e fracassou”. Sabemos que o adestramento é muito mais velho. Adestramento sempre fundamentado na crença segundo a qual precisamos ser “endireitados” pela educação ou “salvos” por outras perspectivas.   

A demora e a dificuldade de fundamentar, e principalmente de por em prática essa re-união, aliadas ao inegável êxito prático das hoje chamadas ciências duras, foi (e ainda é) um dos obstáculos quase intransponíveis que a nova postura existencial enfrentou e enfrenta. 

Nunca é demais insistir que o outro obstáculo de envergadura foi (é) a resistência dos cientistas de se colocarem eles próprios como protagonistas do acontecimento. Ainda resistimos ferozmente a nos considerarmos variáveis intervenientes em qualquer processo interativo do qual nos consideramos “os responsáveis” (sonho de invisibilidade?). A coragem de dar este passo, juntamente com a aceitação da complexidade do Universo e de suas partes, e a conseqüente impossibilidade de se ter certezas universais, é o que distingue os cientistas contemporâneos mais eminentes do velho empirismo que ainda resiste em tantos setores, notadamente naqueles setores em que aqueles que detêm o poder se sentem ameaçados.  

Para nós, cultores/defensores e formandos/formadores de uma “mentalidade”, que chamamos “gestáltica” (PHG, Apresentação²), a chegada dos prestigiosos/prestigiados cientistas das ex-ciências exatas é a ajuda que desejávamos, esperávamos e necessitávamos para transpor as poderosas muralhas erigidas, durante tantos séculos, pelos princípios da certeza e do teimoso hábito dos cientistas de se considerarem variáveis neutras ou mesmo invisíveis na relação.      

Parece-me também que a irreversibilidade do tempo (Prigogine) colocou-nos a todos no mesmo barco e que agora, por nossa vontade ou à nossa revelia, teremos que substituir a estagnante e agrilhoadora competividade isoladora pela solidariedade e colaboração unificadoras, se almejarmos sair do atoleiro epistemológico, político, econômico e, principalmente existencial, em que nos metemos. 

Os trabalhos de cientistas como Prigogine (Químico), Morin (iniciou como sociólogo), Maturana (Biólogo), Varela (Biólogo/Epistemólogo), Milton Santos (Geógrafo), para citar apenas aqueles que conhecemos um pouco, encontram-se harmoniosamente com o pensamento de filósofos, educadores e terapeutas como Merleau-Ponty e seguidores, Nietzsche, Félix Guattari, Gilles Deleuze, Jacques Rancière (filósofos), Isabelle Stengers (Filosofia das Ciências), Paulo Freire e Jorge Larossa (Educadores), Carl Rogers e Alice Miller (terapeutas) e tantos outros que estão nos fornecendo achados empíricos e teóricos para fundamentar cada vez mais solidamente os princípios propostos pela nossa obra básica, hoje carinhosamente por nós referida como PHG. Infelizmente, no próprio livro, nosso riquíssimo garimpo, as pepitas preciosas de nossa teoria ainda estão misturadas ao poderoso e aprisionante cascalho cultural. O que é inevitável, já que tanto os seus autores, nossos queridos mestres, estavam, como nós ainda estamos, imersos na água milenarmente poluída de nossas culturas. 

A revolução epistemológica (e conseqüentemente ontológica) das ciências da contemporâneidade (chamada de “Novo Renascimento”, por Francisco J. Varela) vem na direção de nossos mais básicos anseios e princípios. 

Esses anseios e princípios, inspirados pelo movimento filosófico/científico/artístico que os acelerou no início do século XX, foram propostos a partir do gênio intuitivo e inquieto de Fritz Perls, da humanidade e sensibilidade de Laura Perls e do pensador também inquieto e revolucionário Paul Goodman. Dois judeus alemães expatriados por Hitler e um norte-americano anarquista e rejeitado em sua própria terra natal. (Ele seria reconhecido como um dos “maiores pensadores que os Estados Unidos já produziram” apenas depois de sua morte). 

Fritz Perls corajosamente expôs as suas limitações culturais, históricas e caracterológicas, (“os erros fundamentais não são de entendimento e sim caracterológicos”, PHG, II,6) em dois escritos fundamentais “Uma cronologia de vida” , The Gestalt Journal, Vol.XVI, Nº2,1993 ; e “Escarafunchando Fritz - Dentro e Fora da Lata de Lixo”, Ed. Summus, 1979.  

Enquanto carecemos (eu careço) de biografia mais detalhada e “científica” deles, posso apenas inferir que foram pessoas realmente especiais que, por isso mesmo, viveram, perceberam e se ressentiram de uma certa marginalidade nos seus contextos existenciais que para eles faziam diferença: como, p.ex., a arrogante e pretensiosa comunidade científica que os cercava, em Nova York. 

Os propósitos deste trabalho pedem que ressaltemos a questão da inevitável necessidade de empenho pessoal de cada um em desenvolver o seu próprio processo de auto conscientização e clarificação crescentes sobre qual o tipo de Prontidão para Ser/estar aí, qual o jeito de ser, que o está caracterizando aqui-e-agora, e que, por isso, está governando e conduzindo suas percepções bem como seus bloqueios de contato. Só então seria possível, mais na qualidade de sujeito agente do próprio processo do que na condição habitual de um repetidor adestrado, afrouxar um pouco (ou não) o indispensável sistema de defesas (conscientes e não conscientes), e regular “o visto de entrada” dos contatos inicialmente percebidos/sentidos como perturbadores/revolucionários demais para a “auto preservação” ou “conservação” (Gestalt Terapia) ou “sentimento de continuidade” (Maturana e Varela) naquele lugar e momento. O que nos leva a pensar em atitudes mais prudentes e reflexivas, mais permeáveis, a quaisquer situações, idéias e/ou pessoas que possam inicialmente parecer estranhas e inverossímeis (talvez novas demais) e que, por isso, geralmente são rechaçadas sem maiores exames, sem que antes lhes seja concedido, pelo menos, o benefício da dúvida. 

Esse tipo de situações, idéias e/ou pessoas com que inevitavelmente estamos nos deparando a todo momento e que, em nome de algum “deveriaísmo” meramente cultural,  rechaçamos “no automático”, poderiam conter, entretanto, componentes nutritivos essenciais para levarmos uma  vida mais viva (Dostoievski: Memórias do Subsolo). 

O jogo interativo da “auto-preservação e do crescimento” (PHG, cap. II, ), a serviço da própria sobrevivência, lembra-nos a luta de contrários de Heráclito: “...o nascimento e a conservação dos seres devem-se a um conflito de contrários que, mutuamente, se opõem e se mantém. ...Esse conflito fértil que é, ao mesmo tempo, harmonia...no sentido de um ajustamento de forças atuando em direções opostas, como as que mantém esticada (bandée) a corda de um arco: dessa forma, limitando-se e se unindo, em harmonia e discordância, o dia e a noite, o inverno e o verão, a vida e a morte. Todo excesso de um contrário, que ultrapasse a medida, é punido pela morte e a corrupção”; (ênfase acrescentada). (Condensado do primeiro tema de Heráclito, conforme Émile Bréhier: Histoire de la Philosophie, Tome Premier “L’antiquité et le Moyen Age” – Presses Universitaires de France, 1948, pg.56). 

Acredito, pois, que o momento histórico é mais do que propício para esmiuçarmos, o mais que nossa atual prontidão pessoal e coletiva o permitir, os princípios básicos da Gestalt Terapia e mergulharmos (se possível sem muitos escafandros caracterológicos) nos mais recentes estágios do pensamento científico, filosófico e artístico, com o objetivo de transformar os nossos preciosos princípios em fundamentos cada vez mais defensáveis perante quem quer que seja. Do contrário, de mãos dadas com a parte estagnada da Psicologia, iremos, de caneca na mão, pedir um pouco de água da nossa própria fonte para os cultores das “ciências duras”, que, crescentemente e para o bem geral do entendimento humano, estão cuidando com muita competência dessa preciosa fonte de onde sempre temos bebido sem a indispensável preocupação ou consciência de que ela também precisa de cuidados para manter-se e desenvolver-se. Sinto necessidade de insistir que, em sua própria medida, cada um de nós ainda cultua as crenças ontoepistemológicas que estamos tentando substituir.     

 Essa é uma das razões pelas quais a Gestalt Terapia ainda “perambula pelas estradas laterais da psicologia e da psicoterapia contemporâneas”  (Michael Vincent Miller/Isadore Fromm, pg.17, de Perls e outros, 1997). Miller e Fromm mencionam outras razões entre as quais ela própria: “Mas não se pode negar que, quase desde o início, a Gestalt Terapia foi conivente com o enfraquecimento de sua própria voz”. 

A “conivência” que desejo pôr ênfase neste trabalho é a pouca energia que temos empregado em continuar fundamentando os brilhantes princípios da Gestalt Terapia, através da manutenção e da crescente conscientização da relação de nossa interdependência com as outras ciências, com as artes e com a filosofia, cujos achados e desenvolvimento sempre nos dizem respeito.                  

                   Assim, quase isolada, a Gestalt Terapia vem-se desenvolvendo mais ou menos à margem da evolução impressionante do pensamento contemporâneo. 

Nascida, portanto, em uma era em que as ciências não-humanas buscavam certezas absolutas que justificassem o nome de exatas que portavam, era na qual, as ciências humanas também perseguiam o mesmo ideal, foi e ainda é muito difícil para a Gestalt Terapia livrar-se dessa atitude cientifisante e de colocar-se diante do outro e da vida como aquele que “já sabe”; como os onipresentes e onipotentes gurus de nossas culturas.   

 A dicotomia sempre esteve presente na maioria dos escritos de Gestalt Terapia e na quase totalidade dos trabalhos gestálticos, onde sempre se cultivou e ainda se cultiva os “deves” e os “tem que”, tão denunciados por ela própria, mas que, insidiosa e sorrateiramente, continuam infiltrados e incrustados em nossos trabalhos e em nossas vidas. 

O modelo ainda visceralmente instalado em nós e que nos subverte muito mais do que podemos perceber, admitir ou até imaginar, é o ideal de “pureza ingênua” do cientificismo que foi dividindo, dividindo o real em secções cada vez menores até a quase anulação e desqualificação de nossas especificidades singulares de seres únicos e irrepetíveis, embora inalienáveis e interdependentes do todo do qual somos parte. Todo também amplo, complexo e multifacetado, e, por isso, como nós, irredutível a conceituações rígidas e fixadas.  

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¹ Stein, Ernildo, Palestra de encerramento do VI Congresso Brasileiro de Abordagem Gestáltica – IX Encontro Nacional de Gestalt Terapia, Gramado, Rs, Brasil, 2003.
² PHG, GESTALT  TERAPIA,  Frederick Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman, Summus editorial, 1997, pg.32. 

Texto sem data e inédito, já apresentado no site do Cegest em dezembro de 2007 e que agora torno a atualizar, mantendo a sua condição de “texto em movimento”. Wr:  12/2008   


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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