CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

 

Maio/2008

 

 

Prontidão Caracteriológica

 

 

Esse é o nome que me parece mais adequado para a NOÇÃO (conceito?) que vem nos ajudando a compreender a forma através da qual nós: indivíduos, grupos, nações (e talvez até qualquer outra forma de vida), hoje e na história, vimos tentando nos comunicar e vimos nos comunicando com o grau de consciência possível. Ou, ainda mais drasticamente, a forma pela qual vimos delimitando a possibilidade de comunicação principalmente para “novidades”. Ou seja, do modo de funcionar das mais variadas “fronteiras de contato” externas e internas (conceitos relativos, superficiais e perigosos porque podem sugerir separação/dicotomização) e de como essas fronteiras, verdadeiras alfândegas, criativamente filtram, dão significado e destino não só a essas novidades como a qualquer estímulo, fazendo os indispensáveis “ajustes criativos” nas relações consigo mesmo, com os outros e com o mundo, sempre geridas pela auto-preservação e visando uma maior “integração criativa” nos contextos existenciais.

Essa Prontidão Caracteriológica é, pois, o estado disponível aqui-e-agora que determina o tipo e o grau possível de comunicação, de contato, de qualquer organismo e/ou sistema instituído em qualquer nível. Obviamente, atua regulando-se ininterruptamente, influindo e sendo influenciada, afetando e sendo afetada.

Não esqueçamos que o dentro está todo fora e que o fora está todo dentro, como teria dito Merleau-Ponty. Trata-se da denúncia da Gestalt Terapia de que os conceitos de intra e de inter são superficiais. Assim, a despeito de nosso linguajar dicotômico, tentemos, para maior clareza, pensar em todos indiscerníveis de suas partes e vice-versa. Partes que, por sua vez, constituem também todos que só existem e fazem sentido em seus contextos.

Essa parece ser, pois, a forma inevitável, já que pertence ao âmbito da facticidade, de ser-estar-no-mundo-com-os-outros. Forma que, por sermos irrepetíveis e únicos, é inacessível a qualquer processo judicativo.

Enfatize-se que estamos falando de contato total, que inclui aquilo que se pode saber que se está percebendo e contatando (portanto, ao alcance da consciência), bem como a parte inaparente, muito mais ampla, múltipla e complexa, de acessibilidade ambígua e incerta, que permanece na sombra, no fundo, e que é determinante para a formação da “figura”.

Portanto, a Prontidão Caracteriológica para perceber/responder a que nos referimos abrange o iceberg freudiano como um todo. Ou seja, o organismo como um todo percebe, em um nível ou em outro, qualquer estímulo que lhe tenha concemência e que, assim, pode afetá-lo. Embora apenas tenha acesso consciente e possa racionalmente processar uma ínfima parte desse todo.

O comportamento emana, pois, da interação dinâmica fisiológica/mental/racional/emocional/espiritual/histórica de cada indivíduo e contexto, ou seja, do campo total. Claramente a serviço da “auto-preservação e do crescimento”, da melhor forma de sobrevivência possível, daquele indivíduo/contexto específico, naquelas condições e momento histórico específicos. Ou seja, é a expressão do estado atualíssimo da jornada de cada um no seu permanente co-fazer-se com os outros e com o mundo.

Com isso, como sistema holístico, individualizado e único de avaliação consciente e não consciente, aparente e inaparente (verdadeira alfândega altamente precisa e complexa que é), cada ser define, “sabendo disso ou não”, o que o seu sistema está detectando e, principalmente, em que nível esse contato está acontecendo e qual o tipo de “visto” será concedido àquela percepção: se algo será assimilado e incorporado sem mais delongas ou posto em quarentena, ou rejeitado, ou destruído (desestruturado, desconstruído); ou até mesmo aniquilado, riscado do mapa, como se jamais tivesse existido ou passado por qualquer nível do crivo alfandegário.

Facilidades/dificuldades que são, portanto, variáveis, dinâmicas e únicas em cada indivíduo, grupo ou contexto (um país que se sente ameaçado fecha ou fortifica suas fronteiras), determinando o grau de “impedimento”, “resistência”, ou de “aceitabilidade” a respeito de qualquer novidade ou indivíduo, que seja percebido/sentido como perturbador,  como possível desestabilizador para a sua continuidade, para a sua conservação, para o sentimento de sobrevivência daquele “organismo”, para o sentimento de identidade daquela entidade determinada já instituída e “em funcionamento”. Obviamente, a avaliação desse funcionamento por qualquer entidade externa, além de precária e parcial dada a complexidade do todo, é ainda sentida/percebida como invasão e tratada como tal. O como desse tratamento, dessa reação aqui-e-agora, está diretamente relacionado com o histórico de cada indivíduo ou coletividade.

Ambigüidade do instituído, sabe em algum nível e principalmente sente que corre o risco e o perigo de fixar-se, de estabilizar-se, de estratificar-se, e, por outro lado, teme e combate ferozmente qualquer novidade. Ou seja, ao mesmo tempo, secretamente ou não, desejando arejar-se, atualizar-se para ter mais condições de melhor sobreviver, luta ferozmente contra isso.

Ambigüidade que é paradoxal apenas na aparência, porque tanto a mais modesta partícula como o mais sofisticado dos organismos sabe muito bem que os contextos têm sido e são áridos e férteis, nutritivos e tóxicos, hostis e acolhedores, amorosos e cheios de ódio.

 

Principais fontes, pontos de partida e complementações do texto:

 

1. PERLS, HEFFERLINE E GOODMAN: Cap. II, 6: “Erros teóricos fundamentais são invariavelmente caracteriológicos”, o resultado de uma deficiência neurótica de percepção, sentimento ou ação. (Isto é óbvio, pois em toda questão básica, as indicações estão, por assim dizer, “por toda parte” e serão percebidas, a não ser que não queiramos ou não possamos percebê-las. Hoje eu diria: “As avaliações fundamentais são invariavelmente caracteriológicas, o resultado de um longo aprendizado co-vivido/construído filo e ontogeneticamente com os contextos”).

 

2. HAWKING, Stephen W.: O Físico. Ele escreve: “A descoberta de que o universo está em expansão foi uma das grandes revoluções intelectuais do século XX. Depois dela torna-se fácil perguntar por que ninguém pensou nisso antes...”. Esse comportamento do universo poderia ter sido previsto pela teoria da gravidade de Newton, em qualquer momento do século XIX, XVIII, ou até mesmo do XVII. “Mas era tão forte a crença (e.a.) no universo estático, que persistiu até os primórdios do século XX.” (p. 67 de Uma Breve História do Tempo).

                Parece que a necessidade da crença em um “universo estático”, estável, previsível e seguro que retardou tanto uma das descobertas mais importantes da física, ainda está obstruindo, principalmente, o desenvolvimento das ciências humanas.

                Recentemente, em uma aula sobre percepção, revendo o filme Quem Somos Nós, interrompemos a projeção no momento em que os ameríndios não podiam ver a frota de Cabral. Neste caso, não nos pareceu haver uma obstrução psicológica provocada por alguma crença, opinião ou “verdade”. Apenas a tão comum negação de algo quando ainda inexistente no “território” de cada um.

 

3. O empenho com que as ciências contemporâneas estão se preocupando em como estudar a Primeira Pessoa (o cientista, o observador, o professor, o psicoterapeuta etc.) – como variável crucial no processo de interação e de busca de conhecimento.

 

4. Os experimentos dos psicólogos da Gestalt sobre percepção, hoje confirmados principalmente pelas neurociências.

 

5. A Teoria da Percepção como processo ativo de Maurice Merleau-Ponty (notadamente, inspirado nos psicólogos da Gestalt, em Kurt Goldstein e na fenomenologia do Husserl tardio).

 

6. Os achados das neurociências, da biologia da cognição de Maturana, das propostas epistemológicas e ontológicas de Francisco J. Varela, da física quântica, da termodinâmica de Prigogine etc.

 

7. SARTRE, Jean Paul: O Ser e o Nada, cap. 2. Notadamente, com o seu conceito de “má fé” (mauvesse foi).

 

8. HEIDEGGER, Martin: Ser e Tempo, Parte I, Cap. 5. O conceito heideggeriano modo de ser na cotidianeidade.

 

9. A pedagogia de Joge Larossa, a pedagogia de Paulo Freire, a liberdade para aprender de Carl Rogers.

 

10. A impressionante obra de Alice Miller. À frente do seu livro O drama da criança bem dotada (por mim introduzido no Brasil). Hoje best seller internacional, re-atualizado e publicado com o título: O drama de ser uma criança (The drama of being a child – the search for the true self, Virago Press, London, 2005.).

 

11. LAPASSADE, Georges: Grupos, organizações, instituições, cap. 4 (existe na Biblioteca Central da UnB, sob o n.9615560): “as instituições e a prática institucional”.

 

 


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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