CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

 

Julho/2008

 

 

ALICE MILLER

 

 

          Em Outubro de 2006, foi iniciado em São Luiz, o processo contra o “monstro” que, em pouco mais de 10 anos, seqüestrou, torturou, seviciou e matou mais de quarenta meninos nos Estados do Maranhão e do Pará. Esse “monstro” também foi violentado aos seis anos de idade.

 

          Temos aqui mais um exemplo no Brasil da grande tese de Alice Miller, ou seja, a tese de que toda a dor sofrida fica armazenada em nosso corpo em uma espécie de “memória” celular. Dor que, se não expressada e compreendida, inevitavelmente se manifestará de alguma forma. Será descarregada contra alguém ou alguma coisa.

 

          Em sua vasta obra (mais de uma dezena de livros, centenas de artigos, conferências e entrevistas), ela prova, citando exemplos tirados da História como Herman Hesse, Nietzsche, Hitler, Ceausescu, Ingmar Bergman e tantos outros, bem como de centenas de cartas recebidas de seus leitores (ela já foi publicada em 17 línguas) – que a dor negada, não expressada e armazenada em nós, necessita sair de alguma forma e inevitavelmente o faz, seja através de meios violentos como no do exemplo citado ou das maneiras mais sutis e disfarçadas que se possa imaginar. Somos inteligentes, hábeis e criativos.

 

          Álice Miller tem dedicado grande energia para denunciar a violência doméstica, geralmente perpetrada em nome da boa educação. Violência que, com a mesma desculpa, continua em todos os níveis escolares e relacionais. Tese que se encontra e harmoniza-se com a Pedagogia de Paulo Freire, com as idéias do filósofo brasileiro, Ernildo Stein,: (somos o produto de séculos de “adestramento”), com as teses de Carl Rogers, de Barry Stevens, de Humberto Maturana e de praticamente  todas as ciências contemporâneas, a partir do momento em que abandonaram o “Princípio da Certeza”, ponto de apoio teórico para o autoritarismo, a arrogância e a prepotência.

 

          Mais perto de nós, harmoniza-se com a essência de nossa obra básica, o “Gestalt Terapia”, de Perls, Hefferline e Goodman, notadamente com o que é expresso nos capítulos XIII e IX, respectivamente “O Anti-social e a Agressão” e “Conflito e Autoconquista”.

 

          No Brasil, foram publicadas pela Summus as versões do seu primeiro livro, “O Drama da Criança Bem Dotada”, de 1979, reescrito completamente (“para livrá-lo da meta-linguagem profissional), em 1994. Na Inglaterra, a partir de 1997, a versão da editora Virago saiu “completamente revista e atualizada, com novo Post Scriptum e um Apêndice” e, ainda e principalmente, com o nome modificado para “O DRAMA DE SER UMA CRIANÇA”.

 

          Esse pequeno livro, best seller internacional e nacional, parece ser a obra na qual a autora mais investe. Incansavelmente revendo, instrumentando e atualizando a sua TESE BÁSICA: Podemos negar, fingir, desenvolver a “Má-Fé” sartreana (os chamados “erros” de Maturana) para sobrevivermos da melhor maneira possível em ambientes poucos favoráveis para o nosso livre desenvolvimento, mas é impossível livrarmo-nos das velhas dores armazenadas em nossos subsolos e dos velhos hábitos e aproximarmo-nos de nós mesmos sem que algo nos chacoalhe de algum modo e assim nos ajude a “sair dos velhos e viciados trilhos existenciais”.

 

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ALICE MILLER e o seu ETERNO "DRAMA"

 

“O Drama da Criança Bem Dotada” (na última edição inglesa: “O Drama de Ser Uma Criança”) – Como os Pais Podem Formar (e Deformar) a Vida Emocional dos Filhos.

 

 

 

            A autora se focaliza, neste e em seus outros trabalhos, no grau despercebido por nós, adultos, da tragicidade de nossas infâncias, mesmo naqueles lares tidos e havidos como “normais”, onde a manipulação, a coerção e o controle por meios violentos ou sutis das emoções infantis são a tônica. Tônica que nos marca, indelevelmente, e nos acompanha por toda a vida.

 

            Enfatiza que, a menos que cuidemos do assunto, por exemplo, parando de negar nossos sofrimentos infantis despistados sob o rótulo protetor/enganador de “uma infância paradisíaca” – seremos inevitavelmente reféns inconscientes dessas emoções reprimidas, desenvolvendo a série infindável de sintomas com que geralmente nos apresentamos.

 

            Os seus achados de clareza e comprovação crescentes mostram contundentemente a correlação das histórias particulares com os problemas (também históricos) da sociedade: de que forma o ódio reprimido nas histórias individuais se expressam como a violência registrada quotidianamente (todo violentado é um violentador em potencial). A energia assim negada não tem como simplesmente desaparecer como fumaça de acordo com nosso desejo. Ela permanece em algum lugar de nosso Ser e ressurge de alguma forma: ou contra nós mesmos (p.ex., nos reprimindo, desenvolvendo doenças ou adquirindo vícios); ou contra tudo e contra todos (como os assassinos de massa, o violentadores, estupradores) ou simplesmente através de nossa prepotência autocrática de todos os dias. Esta perpetuada principalmente por não ser posta em questão através da negação de sua existência.

 

            Constata, portanto, que o grande problema de nossas sociedades é a insuficiente quantidade de amor com que fomos criados. O amor que recebemos é condicional, é “amor” pelo nosso “bom comportamento”, pela nossa adequação aos princípios pré-estabelecidos e, por isso, não é o amor verdadeiro de que todas as coisas e todos nós precisamos para existir de acordo com nossas necessidades.

 


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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