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por Walter Ribeiro*
Abril/2008
Esboço para uma breve apresentação da Gestalt Terapia (texto elaborado para a turma de 2008 do curso de especialização promovido pelo CEGEST)
1ª Parte:
Introdução:
A Gestalt Terapia foi proposta há 60 anos como uma abordagem revolucionária para os pontos de vista da época; continua sendo revolucionária para os padrões de comportamento e para os métodos de ensino e de reaprendizado atuais, e, parece, ainda vai continuar sendo um ponto de vista pelo menos incômodo por um bom tempo.
Influenciada pelo pensamento que “explodiu” na Alemanha no início do século XX, foi concebida pelo jovem casal Fritz e Laura Perls, em contado direto com os mestres da época.
É um ponto de vista contrário a qualquer tipo de estratificações, fixações e estagnações fundamentadas no Princípio da Certeza, base para as atitudes autoritárias e desrespeitosas para com o novo, para com o diferente. Autoritarismo que se testemunha em qualquer coisa que se observa.
Esse princípio conservador, que nos leva à imobilidade, quando absoluto, foi contestado por filósofos, como Heráclito de Éfeso há 25 séculos. Heráclito pregava a convivência de contrários. Economicamente, para nosso uso ainda hoje, a convivência o mais harmônica possível entre o Conservadorismo e a aceitação do fluxo vital que está sempre propondo inovações, e indispensável à liberdade e ao desenvolvimento.
Laura nos diz, em sua entrevista de 1984 a Daniel Rosemblatt, que um de seus grandes medos era que a Gestalt Terapia se tornasse uma Gestalt Fixa ou Fixada. E que, em alguns momentos e lugares, isto já estava acontecendo.
Aqui me parece estar o âmago da questão que estamos enfrentando, que foi enfrentada por eles e que, certamente preocupará nossos sucessores: a busca da Integração Criativa entre o Revolucionário (o novo) e o Conservador (o estabelecido); entre a “vida viva” (Dostoiévski) e as normas sociais; entre o Ser Bruto/Selvagem/Pré-reflexivo e o Racional e Socializado (Merleau-Ponty); ou, ainda, entre a Diferença e a Repetição (Deleuze).
A ambiciosa pretensão do curso [1] bem como deste início de contato, não é apenas Informativa, mas Formativa, por acreditarmos que a Mentalidade Gestáltica (Perls e cols, pg.32) não pode ser adquirida apenas através da razão, por mais rica que seja a bibliografia na qual nos basearmos e por mais competentes que sejamos como “professores”.
Assim, entrar no Mundo gestáltico - em toda sua extensão física, espiritual e racional, ou seja, de corpo e alma - requer não apenas a intenção de fazer mais um curso, mas a disposição de entrar em um mundo muito mais diferente daquele que podemos imaginar à primeira vista. Ou seja, de nos pôr de cabeça para baixo como na carta XIV, do Tarot, “ingenuamente” denominada O Enforcado.
Talvez seja o momento de prestar homenagem ao gênio de Frederick (Fritz) Solomon Perls por sua coragem de tentar viver de acordo com suas próprias idéias revolucionárias e continuar batalhando, debatendo-se corajosamente não só com o meio em que vivia, mas também com as fatalidades de sua própria infância, dos seus adestramentos e da formação no hostil ambiente nazista, em que viveram até fugirem, ele e Laura, para a África do Sul. Mais hostil ainda por serem judeus. Laura, pelo menos, teve o apoio da família, o que foi negado a Fritz.
Por que prestar essa homenagem ao nosso grande mestre em um texto tão curto? Exatamente para trazer para a terra, para o aqui-e-agora que ele tanto prezava, o seu próprio exemplo. Exemplo da dificuldade da conversão plena à mentalidade gestáltica que ele próprio, seu principal criador, só conseguiu nos últimos momentos de sua existência. Ele costumava acusar-se de sua “costumeira arrogância”, arrogância não mais visível nos seus últimos filmes, notadamente nos filmes feitos em Cowichan na primavera de 1969, dez meses antes da sua morte que ocorreu em março de 1970. A sua diferença de atitude, de postura, de “jeito de ser” apresentada nesses trabalhos é notória e salta aos olhos, quando comparada com suas primeiras “demonstrações”.
É difícil ser realista sem parecer pessimista. Ele não foi. Nós também não somos. Pelo contrário, somos otimistas juramentados. Vocês verão isso com o exame cuidadoso da sua obra bem como no maior contato conosco, seus seguidores. Apenas estamos, como ele, tentando tirar (sem sangrar muito) as vendas que essa cultura autoritária e madrasta nos impôs e que hoje fazem parte de nós, de nossa carne, queremos desenvolver (recuperar) o olhar desvestido e despoluído que tivemos um dia para ver a nossa própria beleza e feiúra, aceitando-nos como um campo de conflito de contrários, como propôs Heráclito há tanto tempo, e, assim, recuperarmos aquele olhar sábio/ingênuo para vermos a nós mesmos, ao outro e ao Universo, menos contaminados pela praga do julgamento prévio.
2ª Parte:
Quem Somos? De Onde Viemos? Para Onde Vamos? O Que Queremos? Como funcionamos?
Essas são as questões cruciais que, parece, vêm ocupando a Humanidade desde sempre.
A História Geral, A História da Filosofia, das Ciências, das Artes e tantas outras histórias estão prenhes de tentativas de respostas que satisfazem alguns, enquanto outros procuram suas próprias respostas, desde os primeiros cultuadores do fogo até os pesquisadores de hoje.
Alinhamo-nos entre aqueles para quem não há respostas definitivas, mas apenas probabilidades, no campo móvel de complexidades, multiplicidades atuantes em todas as direções e aspectos, campo do qual somos parte inseparável. Portanto, co-construindo-nos com ele, afetando e sendo afetados.
Com essa postura de prudência e atitude investigativa, desvencilhamo-nos ou colocamos em suspensão a maior parte do conhecimento, das crenças e das “verdades”, que nos foram impostas através da “pedagogia negra” (MILLER, Alice) por milênios por uma minoria interessada.
Essa postura obviamente é contramão em relação ao desejo e atitude da quase totalidade das instituições, inclusive a de nós mesmos, em menor ou maior grau, estratificadas em opiniões, nos pontos de vista dominantes dos detentores do poder. Portanto, ainda é e sempre será revolucionária e não bem vinda por qualquer tipo de poder instituído/estratificado que, para manter-se, precisa combater visceralmente qualquer contestação, qualquer tentativa libertária instituinte (vide a Análise Institucional, de Georges Lapassade).
Tentemos imaginar um campo, mais ou menos assim:
Somos uma galáxia em eterno movimento. Para nosso uso e possibilidade de entender alguma coisa, bem como situar-se e sobreviver no todo, cada um faz um “mapa” dessa “realidade”, criando dessa forma sua própria opinião/ponto de vista sobre tudo e todos. Pontos de vista que, obviamente, considera e são válidos para si enquanto funcionais.
De posse desse “mapa”, tentamos comunicarmo-nos com os outros habitantes (as outras partes) da galáxia que também criaram seus próprios mapas/opinião. A complexidade/dificuldade dessa tentativa de comunicação trouxe-me o exemplo bíblico da Torre de Babel. Entretanto, nossa situação é ainda mais complexa e rica porque, além de nossas linguagens serem individuais e diferentes, a linguagem é um jogo que, criado, também adquire liberdade e independência no campo, além de, ela própria, expressada, afetar o seu criador. Nesse verdadeiro e imenso caldeirão fervente, tudo está em contato permanente, em co-dependência e contaminando e sendo contaminado por tudo. A afecção é geral. Não há o dentro e o fora, nem o isolado.
O que nos leva à grande e incômoda dificuldade, quase impossibilidade, de comunicação.
Assumir e permanecer nesse impasse, nesse “ponto zero”, causa ansiedade normal, mas incômoda. E, como diz Laura Perls, “o diabo gosta de atalhos”. Ele tem pressa.
Daí, o que tem sido feito? Os “espertos” auto outorgaram-se o papel de sábios, de autoridade, de iluminados, de especialistas, de professores, de terapeutas e outros papéis que proliferam por aí com o objetivo de exercer a função de “guia de cegos” para todos os outros. A maioria nos dizendo “É para o seu próprio bem!” (esse é o nome de um dos primeiros livros de Alice Miller).
É óbvio que para essa figura de poder não há nenhum interesse em ajudar o outro a livremente afiar os próprios instrumentos mapeadores ou produtores de significado, para que faça mapas cada vez mais parecidos com o seu próprio terreno, o que poderia tornar esse outro mais livre e independente. Portanto, fora do alcance de seu controle, de sua “palmatória”.
A essa figura, não interessa que acreditemos em nós, que desenvolvamos nossa autoconfiança e auto-estima.
Não é possível sair desse caldeirão. Não somos apenas parte dele, somos ele.
A nossa proposta, na aparência modesta, é na realidade difícil e pretensiosa, é entrarmos em um processo de desvestimento dos antolhos culturais, de limpeza das lentes através das quais percebemos e avaliamos a nós mesmos, aos outros e ao Mundo. Ou seja, de clarificação crescente do campo, o que nos levará a uma percepção e conscientização crescentes. (A Gestalt Terapia dá a esse processo o nome de “restabelecimento do fluxo de awareness”).
Já que “Tudo que é visto, é visto por um olhar” e “Só posso partir de onde estou” (Merleau-Ponty), que olhar é o meu? De onde ele parte?.
É, pois, uma proposta extremamente ambiciosa. Por isto, citei a jornada de nosso mestre maior que levou uma vida para livrar-se dos grilhões do parecer e apenas Ser, como apareceu-nos em seus últimos momentos, provando-nos que mesmo aquelas sementes que medraram em campos os mais adversos, podem libertar-se do jugo do seu processo de desenvolvimento (ver o funcionamento desse jugo nas obras de Alice Miller).
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[1] O curso, no presente ensaio, refere-se ao atual modelo de Especialização em Psicologia Clínica promovido pelo CEGEST.
Citações:
-Heráclito de Éfeso: “...o nascimento e a conservação dos seres devem-se a um conflito de contrários que, mutuamente, se opõem e se mantém. ...Esse conflito fértil que é, ao mesmo tempo, harmonia...no sentido de um ajustamento de forças atuando em direções opostas, como as que mantém esticada (bandée) a corda de um arco: dessa forma, limitando-se e se unindo, em harmonia e em discordância, o dia e a noite, o inverno e o verão, a vida e a morte.Todo excesso de um contrário, que ultrapasse a medida, é punido pela morte e a corrupção. (Condensado do primeiro tema de Heráclito, conforme BRÉHIER, Émile: Histoire de la Philosophie, Tome Premier “L’antiquité et le Moyen Age – Presses Universitaires de France, 1948, pg.56);
-PERLS, Laura Posner: Entrevista a Daniel Rosemblatt, em vídeo, editada para publicação no Gestalt Journal, 1984; - Dostoievski, Fiódor M.: Memórias do Subsolo;
-PHG, Perls, Hefferline e Goodman: Gestalt Terapia: Excitamento e Crescimento na Personalidade Humana, Ed. Summus, 1997;
-Merleau-Ponty, Maurice: [Notadamente, o póstumo] Visível e Invisível, Ed. Perspectiva, 1992;
-Deleuze, Gilles: Diferença e Repetição, Edições Graal, SP, 2006;
-Lapassade, Georges: Grupos, Organizações, Instituições, [Cap. 4: as instituições e a prática institucional (existe na Biblioteca Central da UnB sob o n. B 9615560)]. |