CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

Setembro/2007

 

 

CONVERSANDO SOBRE O PROGRESSO E A GESTALT TERAPIA

(Texto lido no II Encontro Candango para iniciar discussão/reflexão, com o objetivo de desestabilizar a inércia irrefletida com que costumamos tratar e encarar temas vitais como este.

A ambigüidade da noção de Progresso é um bom tema para discutirmos o que é Gestalt Terapia e a sua ainda confusa noção de Mentalidade Gestáltica. No I ENCONTRO DE GESTALT TERAPEUTAS, no Rio de Janeiro, l987?, a saudosa Therèze Amelie Tellegen, [a primeira pessoa a dar uma Palestra sobre Gestalt Terapia no Brasil, em Maio de 1972, no então Sociedade dos Psicólogos (era esse o nome?)] – disse emocionada diante daquela platéia de 200 pessoas – “somos tantos!...”.¹ Eram decorridos 15 anos de sua primeira palestra.Certamente, o seu mais do que legítimo entusiasmo estava vinculado a um dos aspectos a que se refere o Progresso: o quantitativo.Sob esse aspecto quantitativo, o Progresso da Gestalt Terapia no Brasil, hoje, é notório e inegável. O cuidado e a reflexão a respeito do nosso entusiasmo parece-nos de vital importância por vivermos em uma Cultura que privilegia exageradamente esse aspecto do Progresso. E, obviamente, como vivemos nela, também somos ela.Por exemplo, é impressionante o número de vezes que vemos/ouvimos personagens do cinema americano dizerem: “você é um perdedor”, como se tratasse do pior estigma que pudesse acontecer a alguém. E, claro, referindo-se quase invariavelmente a Progresso material/quantitativo, noção e conceito que povoam amplamente a sua subjetividade.  A nossa subjetividade parece menos sujeita a essa noção. Entretanto, o mercado da arte cinematográfica no Brasil é amplamente dominado pelos americanos. Não subestimemos esse fato. A essência da noção de Progresso para a Gestalt Terapia aponta em outra direção e está contida em nosso livro básico: o “GESTALT-TERAPIA”, de Perls, Hefferline e Goodman (PHG, para os íntimos).  O livro, entretanto, é profundo, nem sempre claro e freqüentemente confuso. Entretanto, no Prefácio, página 32, já nos adverte: “...o leitor é aparentemente confrontado com uma tarefa impossível: para entender o livro precisa ter uma mentalidade ‘gestaltista’ e para adquiri-la precisa entender o livro. Felizmente, a dificuldade está longe de ser insuperável, visto que os autores não inventaram tal mentalidade. Ao contrário, acreditamos que a perspectiva gestáltica é a abordagem original, não deturpada e natural da vida; isto é, do pensar, agir e sentir do homem. O indivíduo comum, tendo sido criado numa atmosfera cheia de rupturas, perdeu a sua Inteireza, a sua Integridade. Para reintegrar-se de novo, ele tem de sobrepujar o dualismo de sua pessoa, de seu pensamento e de sua linguagem”.Essa “mentalidade gestaltista”, obviamente, não nega o Progresso material. Seria insano ignorar a TV digital de plasma, o telefone celular, etc. Entretanto, essa não parece ser “a abordagem original, não deturpada e natural da vida”. O Ser Humano, em sua humanidade, não está feliz é com o que está acontecendo em São Paulo, na África ou no Iraque. Mesmo sem muita consciência, não está feliz com o seu cotidiano, com as guerrinhas (ou guerronas) de seu dia a dia. De que Progresso estamos falando? É o tema que propomos para discussão.

¹ Therèze, vitimada por câncer no ano anterior, faleceria da mesma doença, no ano seguinte.


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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