CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

Maio/2007

 

PRONTIDÃO CARACTEROLÓGICA

Esse é o nome que parece mais adequado para a NOÇÃO (conceito?) que vem  nos ajudando a compreender as facilidades/dificuldades individuais, grupais, nacionais, internacionais e históricas (culturais) de absorção de “novidades”, ou seja, de aquisição e desenvolvimento do conhecimento.

Essa prontidão é o estado disponível aqui-e-agora de nossa “Personalidade” ou “Individualidade” ou “subjetividade” total para sermos/estarmos no mundo com  os outros, percebendo/respondendo/percebendo tanto aquilo que está ao alcance da consciência quanto a parte muito mais ampla, profunda e complexa que permanece na sombra, no inaparente. Totalidade que Freud tentou  exprimir fazendo analogia com um Iceberg, onde o aparente é menos de 20% do inaparente, do submerso. A prontidão para perceber/responder a que nos referimos abrange o iceberg como um todo. Ou seja, o organismo como um todo percebe qualquer estímulo que o afete ou que pode afetá-lo, embora tenha acesso consciente e pode racionalmente processar uma ínfima parte desse todo.  

O comportamento resulta, pois, da interação dinâmica fisiológica/racional/emocional/ espiritual/histórica de cada indivíduo e contexto. Claramente a serviço da “auto-preservação e do crescimento”, da melhor forma de sobrevivência possível, daquele indivíduo/contexto específico, naquele momento histórico específico. Ou seja, o estado atualíssimo da jornada de cada um no seu permanente fazer-se com os outros e com o mundo. Co-construção que opera, pois, com/nos seus contextos internos e externos, imediatos, históricos e cósmicos.  

Com isso, como sistema global, individualizado e único de avaliação consciente e não consciente, aparente e inaparente (verdadeira alfândega altamente precisa e complexa que é), cada ser define o que o seu sistema de contatos quer e pode detectar e, principalmente, em que nível esse contato se dará e qual o tipo de “visto” será concedido; se algo será posto em quarentena, rejeitado ou destruído; e mesmo aniquilado, riscado do mapa, como se jamais tivesse existido.

Facilidades/dificuldades que, portanto, são variáveis, dinâmicas e únicas em cada indivíduo, grupo ou contexto (um Pais que se sente ameaçado fecha ou fortifica suas fronteiras), determinando o grau de “impedimento”, “resistência” ou de “aceitabilidade” a respeito de qualquer novidade, que então é percebida/sentida como perturbadora, como possível desestabilizadora para a continuidade, para a sobrevivência daquele “organismo”, para o seu sentimento de identidade, para aquela entidade determinada já instituída.

Ambigüidade do instituído: sabe em algum nível e principalmente sente que corre o risco de fixar-se, estabilizar-se, fossilizar-se e, por outro lado, teme e combate ferozmente qualquer novidade (instituinte). Ou seja, ao mesmo tempo, secretamente ou não, desejando arejar-se, atualizar-se para melhor sobreviver, luta ferozmente contra isso.

Paradoxo apenas aparente porque tanto a mais modesta partícula como o mais sofisticado dos organismos sabe muito bem que o contexto é árido e fértil, nutritivo e tóxico,  hostil e acolhedor, amoroso e cheio de ódio.

Principais Fontes e pontos de partida:

1- a expressão de PHG: “os erros fundamentais não são de entendimento e sim caracterológicos...

2- “Tudo o que é visto, é visto por um olhar” bem como  “Só posso partir de onde estou”  (Merleau-Ponty);

3- Os achados das neurociências, da Biologia da Cognição de Maturana, das propostas epistemológicas e
ontológicas de Francisco J. Varela, da Física Quântica, da termodinâmica de Prigogine etc. etc.

PENSAMENTO

DOENÇA: É a perda ou o enfraquecimento da capacidade inata de fazer ajustes criativos

 


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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