CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

Junho/2007

 

 

GESTALT  TERAPIA: O que é isto?

    Gestalt é uma intraduzível palavra alemã. Mais ou menos, significa configuração, todo.

    Inspirada pela Fenomenologia de Husserl, a Gestaltheorie (Psicologia da Gestalt) surgiu na Alemanha na primeira metade do século XX, em contraposição às psicologias anteriores. Propôs uma visão do todo. P.ex., automaticamente, organizamos as coisas para percebê-las: não vemos três pontos isolados. Já os percebemos organizados como um triângulo.

    Essa abordagem teve influência decisiva na reformulação das teorias da percepção e, conseqüentemente, nas da aprendizagem, desenvolvimento e na concepção de como o ser vivo, notadamente o Ser Humano, “funciona”, constrói-se (co-constrói-se), inseparavelmente do mundo em que está inevitavelmente inserido.

   Essa forma de definir o Ser Humano, como um ser interdependente e inseparável dos seus contextos, com os quais se expande (cresce), da mesma forma que o Universo do qual são partes constitutivas, revolucionou as teorias sobre o que somos (Ontologia), juntando-as, sem possibilidade de negação, com uma correspondente teoria de como conhecemos e nos desenvolvemos (Epistemologia e Desenvolvimento).

    Essa teoria, repito, afetou e perturbou todos os ramos do conhecimento (ciências, filosofia e artes) de tal forma que uma “quase guerra” se instalou por toda parte.

     Das ciências, a Física foi a primeira a abandonar verdades absolutas e estáveis.

     Hoje, nenhuma ciência cultiva a pretensão ingênua de ter certezas.

    A Gestalt Terapia, como ciência, prática e filosofia do humano, não é exceção e há cerca de sessenta anos vem crescentemente aceitando a complexidade do Mundo, principalmente do Ser Humano, e a óbvia impossibilidade de aprisioná-los em conceitos e/ou gestaltes fixadas. A aceitação dessa riqueza e complexidade a leva cada vez mais a se por em movimento rumo a uma modéstia antes inimaginada. Convicção que nos torna mais cautelosos, respeitosos e prudentes diante da dificílima e pretensiosa tarefa de tentar ajudar o outro a rever a direção do seu fluxo existencial, redimensionando a sua validade e redirecioná-lo ou não.  Fluxo existencial geralmente instalado em nossas vidas desde sempre pelos condicionamentos (adestramentos) impostos pela cultura.

    Quanto mais rígida a “educação”, mais distantes no tornamos do fluxo livre de desenvolvimento não pré-programado, da formação de nossa identidade/subjetividade/individualidade única e irrepetível. Condição comumente impensável em nossos contextos.

    Como, entretanto, felizmente, somos “seres condicionados, mas não determinados” (Paulo Freire), podemos ter a opção de retomar o poder de influir na direção de nossos caminhos, talvez aproximando-nos da “perspectiva gestáltica (que) é a abordagem original, não deturpada e natural da vida” (PHG, pg.32) sem, todavia, confrontar as pressões culturais além dos limites de nossas forças.


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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