CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

Dezembro/2007

 

Buscas em Gestalt Terapia

 

 

OS PRINCÍPIOS DA GESTALT TERAPIA ESTÃO CADA DIA MAIS ENRIQUECIDOS E FUNDAMENTADOS PELO DESENVOLVIMENTO DAS CIÊNCIAS DE HOJE E DA FILOSOFIA DE BASE FENOMENOLÓGICA

 

         Inspirada pelo movimento Fenomenológico bem como pelas descobertas dos psicólogos da Gestalt, da Psicologia de Kurt Lewin e da Teoria Organísmica de Kurt Goldstein (também influenciados pela Fenomenologia de Edmond Husserl) e, mais tarde, pelo Holismo de Jan Smuts – a Gestalt Terapia propôs uma nova postura baseada em Princípios radicalmente revolucionários em relação ao pensamento e às psicologias de seu tempo.

 

         As psicologias do início do século passado faziam parte do contexto científico que acreditava na possibilidade de se ter certezas absolutas e, por isso, as buscavam com todas as suas forças.

 

         Essa crença científica iniciada por grandes pensadores como Leibniz, Descartes, Newton, Darwin – teve necessidade de utilizar-se do processo de dicotomização do real que, assim fragmentado e dividido em partes cada vez menores, (quanto maior fosse a especialização da ciência e do cientista), maior seriam (e foram) as suas chances de se aproximar mais e mais da verdade buscada. Essa dicotomização e a conseqüente obsessão de fazer uma perfeita assepsia no objeto de estudos livrando-o de “todas” as variáveis intervenientes indesejáveis levou as ciências da época (assim, cada vez mais divididas e numerosas) a um desenvolvimento espetacular, especialmente no que se refere à tecnologia.

 

         O desenvolvimento foi tão significativo que as trouxe ao impasse do qual estão começando a sair hoje.

 

         O aparente paradoxo é que o primeiro passo das então denominadas “ciências exatas” foi substituir a busca da certeza pelo Princípio da Incerteza nos seus trabalhos. Inicialmente, apenas a Física deu esse passo decisivo (há cerca de setenta anos). Hoje, quase todos os cientistas de ponta, aceitando a complexidade do real, abandonaram o sonho do conhecimento absoluto e proclamam que as teorias são apenas “pontos de vista” que nos possibilitam pôr alguma ordem no caos da complexidade e, assim, conseguir lidar melhor com ele. Aceitando, com isso, a impossibilidade de domá-lo através de suas concepções. O sonho do domínio absoluto da Natureza e de tudo que a contém, acabou.

 

         As denominadas ciências humanas não conseguiram aproximar-se tanto da “exatidão” e, por isso, historicamente não ocuparam lugar de destaque no concerto científico. Talvez esteja por aí a razão de almejarem tanto serem “científicas”, insistindo na missão impossível de eliminar do seu trabalho qualquer variável humana (afeto, emoções, etc), inclusive as do próprio cientista.

 

          Entretanto, as outras, as hoje denominadas “duras”, é que se tinham retirado do Mundo e dos Seres para conhecê-los. Insisto, essa negação traria benefícios e custos.

 

          Felizmente para todos, paralela e marginalmente, uma grande dúvida metódica (que talvez sempre tenha existido) começou a tomar vulto há cerca de cem anos com o matemático e filósofo, Edmond Husserl, que iniciou a sistematização do método fenomenológico. A tentativa de Husserl de re-unir sujeito e objeto de conhecimento, acabando com a dicotomização reinante, foi o grande passo metodológico que ocupou (e ocupa) uma legião de seguidores mais ou menos fiéis. Não importa. Outro caminho abria-se para a Filosofia, para as Ciências e para as Artes. Um caminho tão rigoroso que aceita e, assim, considera e lida melhor com as limitações das possibilidades de conhecimento bem como daqueles que o perseguem.  Husserl não chegou ao fim do seu sonho.

 

          É difícil saber em que medida a dificuldade da realização do sonho husserliano de re-unir sujeito/objeto de conhecimento é uma dificuldade intrínseca do próprio projeto ou da nossa própria dificuldade de aceitarmos a perda da ilusão de poder que a ontologia clássica nos confere: se nos “misturamos” com nosso objeto, perdemos o controle, a possibilidade de interferência sobre ele. “O adestramento a que fomos submetidos pela nossa “educação” durante os últimos vinte séculos” (Ernildo Stein) exige a separação, a dicotomização, de adestrador e adestrado.

 

          Stein pareceu modesto ao estimar em vinte séculos o tempo de adestramento por nós sofrido porque se referiu apenas ao período em que o “Humanismo esforçou-se para melhorar o Ser Humano e fracassou”. Sabemos que o adestramento é muito mais velho. Adestramento fundamentado na crença segundo a qual precisamos ser “endireitados” pela educação ou “salvos” por outras perspectivas.  

 

          A demora e a dificuldade de fundamentar essa re-união aliadas ao inegável êxito prático das hoje chamadas ciências duras, foi (e ainda é) um dos obstáculos quase intransponíveis que a nova metodologia enfrentou e enfrenta.

 

          Nunca é demais insistir que o outro obstáculo de envergadura foi (é) a resistência dos cientistas de se colocarem eles próprios como protagonistas do espetáculo. Ainda resistimos ferozmente a nos considerarmos variáveis intervenientes em qualquer processo interativo (O sonho do homem invisível?). A coragem de dar este passo juntamente com a aceitação da complexidade e a conseqüente impossibilidade de se ter certezas, é o que distingue os cientistas modernos mais eminentes do velho empirismo que ainda resiste em tantos setores, notadamente naqueles setores em que aqueles que detêm o poder se sentem ameaçados.

 

          Para nós, cultores/defensores e formandos/formadores de uma “mentalidade”, que chamamos “gestáltica” (PHG, Apresentação), a chegada dos prestigiosos/prestigiados cientistas das ex-ciências exatas é a ajuda que desejávamos, esperávamos e necessitávamos para transpor as poderosas muralhas erigidas, durante tantos séculos, pelos princípios da certeza e do teimoso hábito dos cientistas de se considerarem variáveis inoperantes ou mesmo invisíveis na relação.    

 

          Parece-me também que a irreversibilidade do tempo (Prigogine) colocou-nos a todos no mesmo barco e que agora, por nossa vontade ou à nossa revelia, teremos que substituir a estagnante e agrilhoadora competividade isoladora pela solidariedade e colaboração unificadoras, se almejarmos sair do atoleiro epistemológico, político, econômico e, principalmente existencial, em que nos metemos.

 

          Os trabalhos de cientistas como Prigogine (Químico), Morin (iniciou como sociólogo), Maturana (Biólogo), Varela (Biólogo/Epistemólogo), Milton Santos (Geógrafo), para citar apenas aqueles que conhecemos um pouco, encontram-se harmoniosamente com o pensamento de filósofos, educadores e terapeutas como Merleau-Ponty e seguidores, Nietzsche, Félix Guattari, Gilles Deleuze (filósofos), Isabelle Stengers (Filosofia das Ciências)  Paulo Freire e Jorge Larossa (Educadores), Carl Rogers e Alice Miller (terapeutas) e tantos outros que estão nos fornecendo achados empíricos e teóricos para fundamentar cada vez mais solidamente os princípios propostos pela nossa obra básica, hoje carinhosamente por nós referida como PHG. Infelizmente no próprio livro, nosso riquíssimo garimpo, as pepitas preciosas de nossa teoria ainda estão misturadas ao poderoso e aprisionante cascalho cultural. O que é inevitável já que tanto os seus autores, nossos queridos mestres, estavam (como nós ainda estamos) imersos na água milenarmente poluída de nossas culturas.

 

          A revolução epistemológica (e conseqüentemente ontológica) das ciências da contemporâneidade (chamada de novo Renascimento, por Francisco J. Varela) vem na direção de nossos mais básicos princípios.

 

          Esses princípios, inspirados pelo movimento filosófico/científico/artístico do início do século XX, foram propostos a partir do gênio intuitivo e inquieto de Fritz Perls, da humanidade e sensibilidade de Laura Perls e do pensador também inquieto e revolucionário Paul Goodman. Dois judeus alemães expatriados por Hitler e um norte americano anarquista e rejeitado em sua própria terra natal. (Ele seria reconhecido como um dos “maiores pensadores que os Estados Unidos já produziram” apenas depois de sua morte).

 

          Fritz Perls corajosamente expôs as suas limitações culturais, históricas e caracterológicas (“os erros fundamentais não são de entendimento e sim caracterológicos”, PHG, II,6) em dois escritos fundamentais “Uma cronologia de vida” , The Gestalt Journal, Vol.XVI, Nº2,1993 ; e “Escarafunchando Fritz - Dentro e Fora da Lata de Lixo”, Ed. Summus, data?.

 

          Enquanto carecemos (eu careço) de biografia mais detalhada e “científica” deles, posso apenas inferir que foram pessoas realmente especiais que, por isso mesmo, viveram e se ressentiram de uma certa marginalidade nos contextos existenciais que para eles faziam diferença: a arrogante e pretensiosa comunidade científica que os cercava, em Nova York.

 

          Os propósitos deste trabalho pedem apenas que ressaltemos a questão da inevitável necessidade de prontidão histórica e caracterológica para “obter o visto de entrada” na prudente alfândega de nossos sistemas de informações percebidas/sentidas como perturbadoras/revolucionárias demais para a nossa “auto preservação” (Gestalt Terapia) ou “nosso sentimento de continuidade” (Maturana e Varela).

 

          O jogo interativo da “auto preservação e do crescimento” (PHG, cap. II, ), a serviço da própria sobrevivência, lembra-nos a luta de contrários de Heráclito: “...o nascimento e a conservação dos seres devem-se a um conflito de contrários que, mutuamente, se opõem e se mantém. ...Esse conflito fértil que é, ao mesmo tempo, harmonia...no sentido de um ajustamento de forças atuando em direções opostas, como as que mantém esticada (bandée) a corda de um arco: dessa forma, limitando-se e se unindo, em harmonia e discordância, o dia e a noite, o inverno e o verão, a vida e a morte. Todo excesso de um contrário, que ultrapasse a medida, é punido pela morte e a corrupção”; (ênfase acrescentada). (Condensado do primeiro tema de Heráclito, conforme Émile Bréhier: Histoire de la Philosophie, Tome Premier “L’antiquité et le Moyen Age” – Presses Universitaires de France, 1948, pg.56).

 

          Acredito, pois, que o momento histórico é mais do que propício para esmiuçarmos o mais que pudermos os princípios básicos da Gestalt Terapia e mergulharmos (se possível sem muitos escafandros caracterológicos) nos mais recentes estágios do pensamento científico, filosófico e artístico, com o objetivo de transformar os nossos preciosos princípios em fundamentos cada vez mais defensáveis perante quem quer que seja. Do contrário, de mãos dadas com a parte estagnada da Psicologia, iremos, de caneca na mão, pedir um pouco de água da nossa própria fonte para os cultores das “ciências duras”, que, crescentemente e para o bem geral do entendimento humano, estão cuidando com muita competência dessa preciosa fonte de onde sempre temos bebido sem a indispensável preocupação ou consciência de que ela também precisa de cuidados para manter-se e desenvolver-se. Sinto necessidade de insistir que, em sua própria medida, cada um de nós ainda cultua a ontoepistemologia que estamos substituindo.   

 

          Essa é uma das razões pelas quais a Gestalt Terapia ainda “perambula pelas estradas laterais da psicologia e da psicoterapia contemporâneas”  (Michael Vincent Miller/Isadore Fromm, pg.17, de Perls e outros, 1997). Miller e Fromm mencionam outras razões entre as quais ela própria: “Mas não se pode negar que, quase desde o início, a Gestalt Terapia foi conivente com o enfraquecimento de sua própria voz”.

 

         A “conivência” que desejo expor neste trabalho é a pouca energia que temos colocado em continuar a fundamentar os brilhantes princípios da Gestalt Terapia e manter a relação de interdependência com as outras ciências e com a filosofia que lhe dá suporte.

 

         Assim isolada, vem-se desenvolvendo quase à margem da evolução impressionante do pensamento contemporâneo.

 

         Nascida, portanto, em uma era em que as ciências não humanas buscavam certezas absolutas que justificassem o nome de exatas que portavam, era na qual as humanas também perseguiam o mesmo ideal, foi e ainda é muito difícil para a Gestalt Terapia livrar-se dessa atitude cientifisante e de colocar-se diante do outro e da vida como aquele que “sabe”. 

 

         A dicotomia sempre esteve presente na maioria dos escritos de Gestalt Terapia e na quase totalidade dos trabalhos gestálticos, onde sempre se cultivou e ainda se cultiva os “deves” e os “tem que” tanto denunciados por ela própria, mas que, insidiosa e sorrateiramente, infiltram-se em nossos trabalhos.

 

          O modelo ainda incrustado em nós e que nos subverte é o ideal da pureza cientificista que foi dividindo, dividindo o real em secções cada vez menores até nossa quase anulação e desqualificação de nosso ser como um todo...

 


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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