CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

Abril/2007

 

I  CONGRESSO HOLÍSTICO INTERNACIONAL
I  CONGRESSO HOLÍSTICO BRASILEIRO

Brasília, 1987

O “Esquecimento” das Origens Holísticas na Teoria e Prática da Gestalt Terapia

A palestra abaixo completa vinte anos neste mês de março de 2007. Acredito que tanto a Gestalt Terapia quanto eu, não ficamos parados; e tanto ela quanto eu mantivemos uma estrutura básica sobre a qual fomos acrescentando algumas coisas e burilando outras. Claro que minhas lentes cor-de-rosa vêem esse movimento com “bons olhos”. Apesar dessa postura benévola, não apreciei o gosto amargo que senti ao reler o texto: aquele gosto que nos vem à boca quando estamos “atacando”  alguém a partir de um ponto fixo que nos aprisiona em uma gestalte fixada. Fixada por acharmos que estamos certos e os outros, errados. Minhas lentes cor-de-rosa, ainda assim ou por isso mesmo, me vêem hoje muito mais próximo de compreender e viver a “mentalidade gestáltica...” mencionada e sugerida à pg. 32 de nosso texto básico:  o “Gestalt Terapia”, de Perls, Hefferline e Goodman”.

Voltemos a 1987:

Venho praticando e refletindo Gestalt Terapia há mais de uma década e é a 2ª  que compareço a um congresso para falar sobre o assunto, sempre a convite de Roberto Crema. Por feliz coincidência, em maio de 1980, no Congresso de Análise Transacional realizado aqui mesmo neste Centro de Convenções, foi a primeira vez que tornei públicas as preocupações que ainda me afligem em relação à Gestalt Terapia que se está praticando.

Assim, é com redobrado prazer que volto a aceitar a oportunidade de compartilhar esses agora mais de 7 anos de dúvidas, tropeços, solidão inicial aqui no Brasil e, mais ainda, como me sinto hoje: mais acompanhado e, principalmente, mais fortalecido, depois de voltado à Filosofia e de ter entrado em contato, aqui e no exterior, com Gestalt terapeutas norte-americanos que estão com as mesmas dúvidas, também fazendo críticas severas ao nosso trabalho e, por vias diferentes, parecidas ou praticamente iguais, tentando resolver o impasse em que a Gestalt se meteu, impasse que, se não considerado seriamente e a tempo, comprometerá, como já está comprometendo nos E.U., a própria sobrevivência da nossa abordagem.

Coloquei aspas em “esquecimento” porque acredito com firmeza crescente que a quase totalidade das pessoas que se auto intitulam Gestalt Terapeutas, jamais tenha se inquietado profundamente nem mesmo com o próprio significado da palavra Gestalt e as implicações práticas dele decorrentes. Não atentando, pois, para simples colocações como, p. ex., a de Merleau-Ponty: “Parece difícil contestar que a Psicologia da Forma (Gestalt) transtorna aquilo que se poderia denominar ontologia implícita da ciência, obrigando-nos a rever nossa concepção das condições e dos limites de um saber científico”. **

É claro que a ênfase, antes de procurar culpados, é de nos conscientizarmos de que nossa prática sem essas adequadas revisão e compreensão teóricas, portanto, sem clareza sobre a ontologia que nos fundamenta, pode tornar-se e tem se tornado uma prática superficial, ávida por técnicas e alianças esdrúxulas com outras abordagens. Abordagens que freqüentemente se fundamentam em teorias opostas sobre o que seja o ser humano e, por conseqüência, tem visão igualmente oposta sobre, saúde, doença e, obviamente, sobre terapia. 

Tentarei resumir nosso propósito em dois tópicos:

1º - Tentar compreender a explosão, prematura, do fenômeno GESTALT  TERAPIA e as inevitáveis distorções ocorridas por isso; e
2º  -   Procurar clareza crescente de nossa prática através de maior compreensão de nossas origens filosóficas e científicas.

No primeiro tópico, pretendo apenas fazer algumas considerações a respeito de eventos históricos que, acredito, contribuíram para tão rápida e inconsistente explosão da Gestalt Terapia.

Creio que um bom começo é mencionar o advento do nazismo que interrompeu a grande efervescência cultural da Alemanha dos anos 20 e 30, movimento surgido para enfrentar a crise por que passavam (e passam ainda) as ciências e a filosofia impregnadas de intelectualismo e empirismo dicotomizantes

Com a perseguição nazista, os grandes pensadores e cientistas alemães ou se espalharam pelo mundo (como a maioria dos judeus) ou foram afastados das universidades, dos meios de comunicação e ensino por suas idéias (como, p.ex., o fenomenólogo Edmund Husserl).

Dessa “peregrinação”, participaram os Perls, Laura e Frederick , que fugiram primeiro para a Holanda, depois África do Sul, Estados Unidos e, finalmente, Canadá (agora só Frederick), sempre fugindo de algum tipo de autoritarismo e à procura de maior liberdade.

Nos Estados Unidos, inicialmente em Nova York, onde Laura permaneceu até o fim, cercaram-se de um pequeno grupo de intelectuais que os ajudaram a desenvolver o pensamento e a prática gestálticas, lenta e penosamente.

Esse desenvolvimento, diz Laura em entrevista concedida a James S. Simkim, em Big Sür, 1976, teve mais tarde, aceitação por parte de seu grande mestre comum Kurt Goldstein, mas foi peremptoriamente rejeitado pelos mestres da Psicologia da Gestalt.

Mas, com e sem a benção dos antigos mestres do casal, a Gestalt Terapia estava fadada a uma grande explosão de popularidade e o principal fator dessa explosão bem como pelas suas maiores distorções e desvios, ocorreria na Califórnia dos anos 60, sedenta de coisas novas, de clima de contestação, onde tudo que parecesse contrapor-se ao excesso de intelectualismo da época era bem vindo.

Nesse ambiente de contestação a tudo e a todos, a Gestalt Terapia teve aceitação e aplausos fáceis e desmedidos, por ter sido vista como a grande possibilidade de liberalização da psicoterapia frente à ortodoxia da psicanálise da época.

Clima em que o narciso de Fritz inflou-se e, empolgado com os aplausos, passou até a fazer demonstrações “terapêuticas” teatrais para grandes auditórios, notadamente no Esalem Institut, em Big Sür, Califórnia.

A conseqüência natural e lógica desse clima de euforia e descompromisso com posturas mais sérias, foi a proliferação de terapeutas superficiais e avessos a qualquer tipo de aprofundamento, principalmente teórico: os hoje denominados, nos Estados Unidos, “Fritzen” (Fritzinhos?), imitadores ferozes da superfície dessa faceta superficial do trabalho de Frederick S. Perls. Daí não ser surpreendente Gary Yontef ter escrito em 198l: “Os Gestalt terapeutas em geral são mal treinados, pouco modestos e narcisistas” (Yontef,  Gary: Mediocridade ou Excelência: Uma Crise de Identidade no Treinamento em Gestalt Terapia, 1981. ERIC/CAPS, University of Michigan, Ed.214,062).  (Traduzido pelo CEGEST)

Infelizmente, essa foi a Gestalt que ganhou terreno, espalhou-se pelo mundo (o que ainda está acontecendo) e, em grande medida, chegou até nós.

Tal superficialidade dos Gestalt Terapeutas faz com que sejamos presas fáceis das armadilhas do pensamento tradicional, apriorístico, dicotomizante e alienante, contra o qual as grandes correntes unificadoras, holísticas, vêm lutando há décadas. Somos presas fáceis porque, além de superficiais, temos esse autoritarismo, esse dogmatismo profundamente arraigados através  de nossa educação, onde vêm sendo praticados desde Salomão e desde o primeiro dia de nossas existenciais e que ainda domina, qual erva daninha, a quase totalidade de nossos métodos de educação domésticos e públicos.

A descrença básica no ser humano, suporte e corolário desse autoritarismo dogmático, transparece cristalina, p.ex., nas menores atitudes “terapêuticas”. Notem bem, estou falando da prática, da postura terapêutica e não do discurso; este parece já estar mais ou menos contaminado por idéias liberalizantes.

O exemplo mais comum e simples que me ocorre para demonstrar esse ranço, é a tendência, quase compulsão, de não se permitir em terapia, principalmente terapia de grupo, que a pessoa realmente entre em luto, sofra por suas perdas, sua “feiúra”, sua “burrice”, sua inadequação etc. etc.

Logo surge um procedimento “salvador”. P. ex., pede-se à pessoa que olhe para as outras (abandone-se) , pergunte o que elas acham etc., o que invariavelmente desemboca na desconfirmação da percepção de sofrimento ou inadequação, o que, a nível mais profundo, pode significar a desconfirmação da própria pessoa que percebe como um todo. O grupo geralmente cúmplice nessa evitação de sofrimento, nessa fuga, freqüentemente por motivos pessoais óbvios de cada um, passa a “convencer” o infeliz de que não é infeliz, o chato de que não é chato e assim por diante, para grande alívio do terapeuta que não pode, p.ex., suportar sofrimento ou agressividade e para quem a velha atitude “pedagógica” da terapia é a grande tábua de salvação diante da ameaça de irrompimento de suas próprias neuroses.

A Filosofia óbvia subjacente a essa atitude, coerente com a educação que sofremos, é a de que o Ser Humano é incapaz de gerir-se, de encontrar a melhor resposta dentre as possíveis nas circunstâncias e, por conseqüência, deve ser controlado, educado, reeducado, manipulado. O que é atestado facilmente por alguns exemplos das fantasias catastróficas de educadores, pais e terapeutas diante de situações cotidianas:

“se eu não controlar essa menina ou esse menino...”
“se ela começar a chorar...”
“se ele começar a agredir...”

Fantasias, onde as reticências são piores do que acusações diretas, pois deixam as pessoas com a sensação de que algo muito errado existe dentro delas, talvez um a espécie de demônio que deve ser dominado a qualquer custo.

Essa atitude desqualifica a percepção da pessoa (o que geralmente já aconteceu na primeira infância) e acaba desqualificando-a como um todo, uma vez que o discurso subjacente sugere:

“você é incapaz”
“você é inadequada” etc.

Nunca é demais repetir que a facilidade com que caímos nessas armadilhas é devida ao fato de que, freqüentemente, elas repetem velhas situações de nossa história. Ninguém se julga tão inadequado, ninguém é juiz tão severo de si mesmo, como é tão comum entre nós e nossos clientes, por vontade própria: fomos sistematicamente “treinados” para isso. Mesmo aqueles que se apresentam como irresponsáveis e levianos num primeiro momento, mais tarde, quando sentem mais confiança, percebendo que não serão julgados, punidos, humilhados ou coisa parecida (o que seria a repetição de suas histórias) – podem lentamente começar a desvelar um feroz inquisidor internalizado desde a mais tenra infância.

Ora, se concordarmos com Martin Buber de que o Ser Humano precisa visceralmente de confirmação, concluímos o óbvio de que tais atitudes “pedagógicas ou “treinadoras” são no mínimo anti-terapêuticas ou neurotizantes na medida em que desconfirmam, desqualificam a pessoa na sua capacidade de existir, minando-a ainda mais na sua auto-estima, auto-imagem, auto-confiança. Conheço mesmo pelo menos dois casos de clientes que tiveram as suas características esquizóides acentuadas depois de longas terapias desse tipo. Para mim, esses casos foram mais severos porque o dogmatismo autoritário do terapeuta apresentou-se travestido de bondade e de imensa vontade de “ajudar”.

Acredito que essas e outras circunstâncias, todas afastadoras da visão unificada, holística, do Ser Humano, fizeram com que a Gestalt Terapia inchasse em lugar de crescer lenta e bem nutrida por suas raízes como deve acontecer com todo organismo sadio.

Com respeito a nossas origens, jamais vi alguém negar que a Gestalt Terapia é uma Fenomenologia, ou seja, uma visão unificadora, holística, não dicotomizada, do ser humano e do mundo. Mas também tenho tido muitas, muitíssimas, dificuldades de encontrar gestalt terapeutas cuja postura esteja em consonância com o método e a atitude fenomenológica; dissonância que, para mim, vem demonstrar total desconhecimento da essência teórica que fundamenta o seu trabalho.

Uma das causas dessa ignorância, além é claro do baixo nível dos treinamentos, é a quase total ausência de bases fenomenológicas na imensa maioria da literatura gestáltica, que se apresenta quase sempre de forma introdutória, repetitiva e superficial: “muito do que está escrito em Gestalt Terapia não tem o sentido de pessoa como um todo”. (Gary Yontef em aula proferida em São Paulo, em Fevereiro de 1987).

Só agora, na década de 80, começam a surgir textos que insistentemente falam em fenomenologia e, o que é mais animador ainda, já vemos na prática de alguns dos principais expoentes contemporâneos da Gestalt Terapia, atitudes e posturas que resistem ao mais rigoroso crivo crítico do método fenomenológico, como pude ver pessoalmente mês passado, em São Paulo, quando participei de um curso dado por Gary Yontef, treinador do “Gestalt Therapy Institute of Los Angeles”. Curso onde a postura fenomenológica esteve presente durante todos os trabalhos demonstrativos e a palavra Fenomenologia foi uma das mais pronunciadas durante as explanações teóricas, não bastasse o próprio nome do treinamento: “Avanços e Problemas em Psicoterapia Fenomenológica”.

A leitura cuidadosa de nosso livro básico “Gestalt Terapia”, de Perls e Goodman, (por sinal quase desconhecido mesmo por antigos gestalt terapeutas), deixa-nos clara a preocupação com a postura fenomenológica em muitos trechos, como não menos clara nos fica a impressão da pouca intimidade dos autores com os clássicos da Fenomenologia. Assim, nesse importante livro que ainda é a nossa “bíblia”, o clima fenomenológico surge mais como uma sombra abrangedora, cujos contornos os autores não quiseram ou não puderam delinear.

Acredito que essa tarefa que não pôde ser empreendida nos anos 50 e foi praticamente ignorada nos 60 e 70, é o nosso desafio agora, se quisermos que a Gestalt Terapia sobreviva e se desenvolva, mantendo e ampliando o seu papel de uma das principais e mais eficazes abordagens psicoterapêuticas modernas.

Em resumo, as raízes da Gestalt Terapia estão, principalmente, na Europa entre guerras, mas o seu desenvolvimento prático deu-se no exílio, longe das grandes correntes de pensamento que a geraram, ou seja, a planta foi cortada de suas raízes prematuramente desenvolvendo-se em outro solo, sofrendo outras influências.

Já se escreveu na Europa que a Gestalt Terapia jamais se desenvolverá plenamente e terá longa vida nos Estados Unidos porque é uma abordagem essencialmente européia. Afirmação radical que, entretanto, lança alguma luz sobre a imensa dificuldade que temos testemunhado a respeito do seu pleno entendimento, mesmo por parte de alguns de seus expoentes mais famosos.

Por isso, nos alenta ver, hoje, norte-americanos empenhados na reaproximação da Gestalt Terapia com suas raízes fenomenológicas, mas acredito que brasileiros e latinos em geral podemos e devemos assumir nosso papel nesse trabalho, dada a nossa maior facilidade, por circunstâncias históricas, de transitar tanto pelo modo de ser e pensar europeu quanto americano.

É pois com a satisfação e o conforto de aliado que participo deste Congresso, compartilhando com vocês minhas críticas ao modo tradicional, dicotomizante, de “fazer gestalt”, modo esse alienado da ontologia e do método fenomenológicos unificadores que, quer queiram os “fazedores de Gestalt” que não queiram, dão sustentação, coerência e sentido ao nosso trabalho.

                                                                           Brasília-DF, março de 1987

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**Merleau-Ponty, Maurice – O Metafísico no Homem, in Os Pensadores, Abril Cultural, pg.179


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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