CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

Setembro/2006

 

ALCANCES E LIMITES DA GESTALT-TERAPIA [1]

  

A minha proposta é que aceitemos esse convite à reflexão dos valentes organizadores deste Encontro.

Para isso, vou iniciar compartilhando com vocês alguns dados e as muitas dúvidas que a minha inquietação com o que vimos fazendo me levou a coletar.

Em primeiro lugar, “alcances” e “limites” do que? Da Gestalt-terapia ou nossos, os Gestalt-terapeutas?

 “Alcances” e “limites” pertencem ao campo da ação, área em que se delineia mais ou menos precisamente a nossa competência e incompetência, denunciando, pois, se já estamos ou não firmemente estabelecidos e embasados em uma postura teórico-prática sólida e coerente.

Pertenço àqueles que acham que não. Para defender o meu ponto de vista e juntos refletirmos sobre isso, vou me valer de uma série de citações de alguns dos mais proeminentes  Gestalt-terapeutas, começando pela própria Laura Perls (1977, p. 1) que nos diz:

 “Durante uma reunião do Instituto de Gestalt-terapia de Nova York, coloquei a questão: Qual é a sua resposta quando alguém lhe pergunta: ‘O que é Gestalt-terapia?’. O nosso vice-presidente, Richard Kitzler, que gosta de bancar o advogado do diabo, falou baixinho: ‘O assento quente e a cadeira vazia.’ Obviamente, como Mefistófeles, ele falou contendo o riso. Mas o discípulo ingênuo e impaciente aceita e não questiona; ele sempre tomará a parte pelo todo” (ênfase acrescentada).

Acredito, como Gary Yontef, que devido à baixa qualidade e inadequação de nossos treinamentos de um modo geral isso está muito mais generalizado do que se costuma supor. Escreve ele (PERLS et al,1981, p. 1-2):

 “Mais ainda, a lista de histórias de horror a respeito de pessoas chamadas Gestalt-terapeutas expandiu-se. Os sub-treinados, sub-modestos, super-impetuosos e narcisistas terapeutas e aconselhadores que usam o nome da Gestalt-terapia para justificar a sua prática expandiram-se também. Muitos fazem isso há anos e, assim, podem chamar-se ‘Gestalt-terapeutas’ experientes. Ainda sub-treinados, eles agora agem autoritariamente, fazem treinamento e fundam institutos.”

Em um Simpósio sobre o futuro da Gestalt-terapia e a respeito de críticas já formuladas, Laura insiste (PERLS et al, 1981):

 “Você fala sobre a confusão de modelos teóricos. Eu acrescentaria que muitas pessoas que se intitulam a si mesmas Gestalt-terapeutas ignoram tanto a teoria que nem sabem o que a palavra ‘Gestalt’ significa, de onde provém, e como se desenvolveu o conceito de Gestalt-terapia. Em parte, isto é conseqüência do anti-intelectualismo dos anos sessenta e setenta. Elas simplesmente não podem ou não querem falar de maneira coerente sobre o que estão fazendo. Não sabem realmente o que estão fazendo, e ainda assim o fazem, e às vezes muito bem” (ênfase acrescentada).

Aqui Laura nos coloca aquele que talvez seja o problema mais inquietante que estamos enfrentando, pelo que contém de paradoxal. Realmente parece que algumas pessoas fazem “às vezes muito bem” gestalt terapia, sem saber o que é Gestalt-terapia. É isso possível? Acredito que sim, embora, nos casos que pude testemunhar, as boas terapias fossem freqüentemente intercaladas com atitudes em que a necessidade do terapeuta era figura.

O importante é nos colocarmos questões como:

. Como isso é possível?

. Que variáveis interferem nesses casos?

. Será que se essas mesmas pessoas soubessem o que estão fazendo não o fariam melhor?

Há níveis e níveis de sutileza nesse assunto, como vimos no filme “Os Filhos do Silêncio”, durante o processo de conscientização do professor de surdos-mudos.

Não acredito que possamos responder a essas e a outras perguntas que nos surgem todos os dias, porque questões cruciais como o que é Gestalt-terapia? o que é terapia para nós? o que é doença? o que é saúde? o que é o ser humano? quais as possibilidades que temos de conhecê-lo e abordá-lo e, principalmente, de interferir no seu processo? – ainda estão longe de serem respondidas satisfatoriamente dentro de um referencial teórico coerente com alguns poucos, mas fundamentais princípios sobre os quais já há concordância.  O primeiro deles e, de longe, o mais importante é: A GESTALT-TERAPIA É UMA ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA.

Mas o que é isso? Essa é a questão que está começando a inquietar uns pouquíssimos Gestalt-terapeutas e que, portanto, ainda é muito nebulosa em nossos meios.

Antes porém de enveredarmos por aí, vamos continuar mais um pouco a tentar entender o que está acontecendo em nossa comunidade e que, a meu ver, pode estar tornando mais difícil que encaremos os nossos maiores problemas. Para isso, voltemos a Laura Perls, ou Lore Perls, como querem os alemães. Será que ela tem exagerado? As críticas que fez (1976, 1977, 1981) não seriam o resultado de uma frustração pessoal por não ter aparecido como uma das fundadoras da Gestalt-terapia, como diz e enfatiza ser?

Será que a crítica de superficialidade que alguns terapeutas de outras profissões de fé nos fazem é puro despeito, como ouço dizer com certa freqüência?

É claro e óbvio que há interesse de algumas pessoas menos qualificadas em suas próprias abordagens em nos denegrir, já que temos tido uma boa dose de prestígio. Mas críticas tão ou mais contundentes são igualmente feitas por outros grandes nomes de outras abordagens, como também da própria Gestalt-terapia (Gary Yontef, Miriam Polster, Joel Latner, Isadore From, entre outros).

Joel Latner assim inicia um de seus textos : “Essa parece ser a década da restauração, reorganização e assimilação. A Gestalt-terapia não mais ocupa o topo na apresentação das importantes forças que se ocupam do problema da mudança, como outrora aconteceu” (1984, p. 84).

Isadore From, um dos responsáveis pela elaboração teórica da Gestalt- terapia juntamente com Paul Goodman, Paul Weiz e outros – além, é claro, do casal Perls – e que se constituiu durante décadas no principal sustentáculo teórico do grupo de Nova York e da Gestalt-terapia até se aposentar em 1985, escreve em 1984:  

“Perls não estando mais disponível, devido à sua morte, para produzir uma técnica por ano (o que parecia animar e manter seus estudantes em funcionamento) – após alguns  anos, começamos a ter essas curiosas configurações associativas : ‘Gestalt e Bioenergética’, ‘Gestalt e Rolfing’, ‘Gestalt e Análise Transacional’ e,  ultimamente, ‘Gestalt e Alexander e Feldenkrais’, ‘Gestalt e Zen’ e, até mesmo, ‘Gestalt e Psicanálise’. Naturalmente não a análise clássica – esta fora declarada obsoleta – mas a pseudo-análise. A Gestalt parecia compatível com qualquer coisa. Em lugar de novas técnicas provenientes de Perls, e na ignorância dos alicerces teóricos da Gestalt-terapia, violou-se mais ainda a teoria” ( p. 7, ênfase acrescentada).

Note-se aqui que ele utiliza a separação, a distinção das expressões “Gestalt-terapia” e “Gestalt” e é a postura a que ele chama de “Gestalt” que combate impiedosamente e para a qual vaticina um “réquiem”, como o título do artigo sugere, e não para a Gestalt-terapia, à qual dedicou 33 anos de sua existência.

A origem dessa “Gestalt” que se mistura com tudo é por ele assim explicada no mesmo texto: “O que começou como um esforço para demonstrar a teoria e a prática da Gestalt-terapia para uma audiência de algum modo constituída por profissionais, inexplicavelmente, tornou-se um método chamado ‘Gestalt’” (p. 7).

From parece referir-se aqui principalmente às demonstrações que Fritz Perls fazia no Esalem Institut na sua 2ª fase californiana. Por sinal, a aliança de Perls com Dick Price, o dono do Esalem Institut, provocou o afastamento de James S. Simkim desse movimento de divulgação da Gestalt-terapia. Simkim repetiria mais tarde, enfaticamente, em sua entrevista a Cláudio Naranjo : “Não me associo com pacientes, mas apenas com profissionais qualificados” (1977).

O objetivo óbvio de tantas críticas não é denegrir os Gestalt-terapeutas que eles próprios são (e dos melhores), e muito menos a Gestalt-terapia à qual dedicaram suas vidas, mas alertar-nos de maneira enfática e mesmo agressiva quanto à preocupação que lhes causa o grave engano, que muitos de nós estão cometendo, de não levar a sério essas críticas ou de tomá-las como ofensa pessoal, assim ignorando-as e comportando-se como crianças mimadas que teimam e insistem nos próprios erros. Nem sempre quem nos joga esterco nos quer mal, diz a piada do ratinho.

Acreditando nisso, vou apresentar mais uma crítica do Gary que considero importante:

 “Minha história de horror favorita costumava ser a da pessoa que veio para um workshop de fim-de-semana e na manhã seguinte declarou-se um Gestalt-terapeuta. Agora estou preocupado com a mesma pessoa quinze anos depois, ainda tão mal treinada, ainda se intitulando um Gestalt-terapeuta e provavelmente treinando outras pessoas para fazer a mesma coisa para a qual não fora anteriormente treinada.

Tem havido algumas tentativas, tanto implícitas como explícitas, de definir o que é Gestalt-terapia. Uma perspectiva define a Gestalt-terapia como uma técnica ou conjunto de regras. Algumas pessoas aceitam essa definição e prosseguem em seu caminho estreito e imutável. Outras aceitam essa definição limitada da Gestalt-terapia, mas se impacientam sob o seu jugo. Então, o que quer que acreditem que foi deixado de fora, simplesmente acrescentam, em lugar de fazer uma integração. Desse modo, apresentam a Gestalt-terapia com qualquer outra coisa – a longa lista : ‘Gestalt-terapia e ...’ Outro grupo do qual ouço falar e sobre o qual leio diz que a Gestalt-terapia é um conjunto de técnicas restritas, e que eles ‘costumavam ser’ Gestalt-terapeutas, mas que a Gestalt-terapia está obsoleta. Por exemplo, algumas dessas pessoas alegam que a Gestalt-terapia é o uso de seus sentidos e emoções, mas não o de sua mente. E então descobrem, vejam só, que as pessoas têm mentes. Desse modo a Gestalt-terapia torna-se obsoleta para eles” (PERLS et al., 1981).

Qual o nosso papel diante de tantas críticas? Monique Augras escreve:

 “Toda história, por mais objetivos que sejam os testemunhos, está carregada de lendas. Toda crítica histórica, por mais científica que pretenda ser, apóia-se em sistemas de valores próprios das referências míticas do grupo ao qual pertence o historiador [...] Trata-se, porém, de má-fé necessária. A distorção lendária, observável até em fatos imediatamente contemporâneos, visa em primeiro lugar a garantir a sobrevivência do grupo” (1986, p. 29, ênfase acrescentada).

Aqui talvez nos defrontemos com uma das grandes contradições que estamos vivendo : o que é preservar o grupo? o que é preservar a Gestalt-terapia? o que é preservar os Gestalt-terapeutas?

A radicalização dos grupos é o maior perigo que podemos enfrentar: os críticos tornarem-se cada vez mais ácidos e aqueles que se julgam atingidos pelas críticas, cada vez mais defensivos. Já ouvi, por exemplo, alguém dizer afoitamente diante do texto “Mediocridade ou Excelência: uma crise de identidade no treinamento em Gestalt-terapia” : “Quem é esse Gary Yontef?” Com isso, a pessoa mostrou estar ofendida e sem o menor vislumbre de intenção de examinar as críticas veiculadas no artigo; expressou, assim, não apenas a sua pouca intimidade com a evolução da Gestalt-terapia, o que poderia ser natural, já que é muito difícil acompanhar tudo (e as coisas nesta década estão acontecendo com muita rapidez), como também e principalmente, a sua má-vontade e desconforto com situações novas, o que, sabemos, é o oposto do que propõe a Gestalt-terapia. Essa atitude me fez  recordar ex-alunos universitários que se negavam a entrar em contato com qualquer ensinamento de Jung ou de Heidegger, porque “eles haviam colaborado com o nazismo”, obviamente sem examinar se o que diziam tinha ou não algum fundamento. Será que essa postura é mais defensora do grupo do que a dos críticos?

Pessoalmente considero-a cega, defensiva, perigosa e obscurantista, embora algumas vezes apresente-se carregada de boas intenções de “defender o grupo”. Ela me assusta, como me assusta também o sectarismo oposto da crítica negativista e não fundamentada. Aliás, qualquer sectarismo rígido me assusta.

Por favor, não temam a palavra “crise” que, aqui como em qualquer dos textos que utilizo, é destituída de qualquer conotação negativa ou pessimista. Pelo contrário, ela nos traz a oportunidade de refletir (re-fletirmos), voltarmo-nos com nosso olhar crítico/amoroso para nós mesmos e para aquilo que fazemos. Mesmo porque essa crise é crise de crescimento, saudável em todo organismo ou sistema. A Gestalt-terapia, apesar de quarentona, ainda está no esplendor de sua força. Acredito, ainda, que Perls se reviraria no túmulo, se não estivéssemos pelo menos tentando entender melhor o tanto que ele nos deixou, bem como, através desse entendimento, não tentássemos ir além, não tentássemos superar as incongruências e contradições que ele também nos legou.

O Conselho Federal de Psicologia nos dá notícia de uma pesquisa de campo sobre a “Formação e Atuação do Psicólogo no Brasil”, realizada pelos Conselhos Federal e Regionais de Psicologia. Chamou-me especial atenção a seguinte assertiva:

“Entre as correntes teórico-metodológicas indicadas com maior freqüência, verificamos que os psicanalistas e os analistas de comportamento tendem a indicar uma única orientação para fundamentar os seus trabalhos. Já os que se consideram existencialistas, fenomenologistas ou gestaltistas acrescentam outras mais a estas orientações, como se apontassem a necessidade de complementação teórica a estas orientações principais” (Jornal do Federal nº 7, ano 2 / maio-junho, 1987, ênfase acrescentada).

O que é isto em nosso meio, neste ano de 87, no Brasil, senão a confirmação de todas as críticas apontadas sobre a falta de fundamentação teórica da imensa maioria dos Gestalt-terapeutas? Vamos permanecer surdos e cegos a essa evidência também?

Mais uma vez e sempre: O QUE É GESTALT-TERAPIA?

 “Todas as técnicas e regras usuais poderiam ser dispensadas sem diminuir em nada a Gestalt Terapia” (PERLS et al., 1981, p. 3). Ainda se inventássemos uma técnica por dia – e não por ano – nada seria acrescentado à Gestalt-terapia; sua essência permaneceria intocada.

Diante desse persistente e inquietante ponto de interrogação sobre o que seja Gestalt-terapia, vou arrolar uma série de “acreditos”, com o intuito de alimentar nosso diálogo, que para mim é o mais importante.

Acredito, e tenho evidências para isso, que a Gestalt-terapia é a melhor, a mais efetiva e uma das ontologica e epistemologicamente mais bem fundamentadas formas de terapia.

Acredito, entretanto, que talvez essa mesma excelência tenha entusiasmado tanto os seus adeptos que os tenha apressado a espalharem os seus benefícios prematura e apressadamente, antes mesmo que alguns dos seus grandes expoentes tivessem digerido suficientemente as suas profundas e consistentes fundamentações; e que, portanto, as reais e visíveis limitações de sua prática se devem muito mais ao despreparo dos Gestalt-terapeutas do que propriamente a limitações intrínsecas da abordagem.

Acredito que essas fundamentações mal compreendidas ou mesmo ignoradas estão na Fenomenologia e nas psicologias derivadas: Psicologia da Gestalt, Teoria de Campo de Kurt Lewin e Teoria Organísmica de Kurt Goldstein.

Assim, acredito que a Gestalt-terapia limitada é aquela a que Isadore From chama de método “Gestalt”, ou seja, aquela confundida com um saco de truques e técnicas aplicados a priori, indiscriminadamente, e sem estar voltada para o emergente no contexto – postura, como vimos, ampla e duramente criticada pelos maiores expoentes atuais da Gestalt-terapia.

Repetindo mais uma vez, acredito que as primeiras questões ainda nebulosas e não respondidas satisfatoriamente são: O que é Gestalt-terapia? Qual ou quais são as suas propostas?

O problema da dificuldade dessas questões já foi colocado, pelo menos por Laura Perls, e principalmente por Gary Yontef, mas por termos nos afastado de nossas origens teóricas européias – a grande corrente de pensamento no bojo da qual a Gestalt-terapia surgiu (Petzold, 1984), Ribeiro (1987a e 1987b) –, elas continuam sem resposta.

O reconhecimento desses buracos, dessas discrepâncias e incongruências em nosso trabalho já é, acredito, o grande passo decisivo de que necessitávamos. Agora precisamos voltar às nossas fontes e, alicerçados nelas, examinar todo o edifício. Existe um certo nível de consenso em relação às críticas mencionadas, nível de consenso esse que vai decrescendo à medida que se aproximam do terreno das soluções ao nível da ação, porque a coerência indispensável para o consenso nessa área é mais dependente da assunção ou, pelo menos, de alguma clarificação da Teoria do Ser sobre a qual a Gestalt-terapia foi edificada.

 

Procedimentos técnicos

Metodologia

Teoria terapêutica

Desvios, interrupções, etc

Teoria da Personalidade e/ou do Desenvolvimento

Ontologia /Teoria do Conhecimento


Figura I
 

É no nível A – Ontologia/Teoria do Conhecimento – que é mais perceptível e flagrante a debilidade teórica da imensa maioria dos Gestalt-terapeutas. Por exemplo, hoje estamos importando teorias e aceitando modificações na postura e algumas técnicas, o que – acredito – seja absolutamente necessário, notadamente na área da psicopatologia, um dos nossos calcanhares de Aquiles. Entretanto, acredito que isso pode constituir um grande risco de descaracterização de nossa abordagem, caso façamos essas importações sem nos preocuparmos em ter a nosso serviço uma visão coerente e clara de quem somos e daquilo em que cremos, para discernirmos o que pode se encaixar harmonicamente em nosso todo, em nossa Gestalt, e o que poderia vir a funcionar em nosso organismo como verdadeiros tumores, como corpos estranhos, posto que pertencentes a outros credos, a outras filosofias, a outras abordagens sobre o ser humano e o mundo.

Talvez a “má-fé necessária para garantir a sobrevivência do grupo” tenha feito com que fôssemos vítimas de alguns enganos, nos quais nossos enganadores talvez também tenham caído: um engodo em que caímos e onde ainda caem todos aqueles que não conseguem ou não querem seguir o conselho de Perls: usar seus maxilares. Tal situação, acredito, tem sido fortemente agravada pelo grande e aguçado sentido de marketing de muitos daqueles que se intitulam Gestalt-terapeutas: um sentido de marketing aliado à era do consumismo desenfreado de enlatados, do “faça fácil”, do “faça você mesmo”, o que redundou em formas de treinamento que nos lembram a produção em série de automóveis executada por eficientíssimos robôs que, entretanto, não sabem – nem podem saber, obviamente – o que estão fazendo.

Enfim, tudo isso facilitou a venda acelerada de um produto inacabado, de uma gestalt mal fechada. Obviamente, estou me referindo à colcha de retalhos de produtos díspares que tenho visto, e não ao inacabamento consciente próprio da Gestalt-terapia, fenomenologia que é.

Sei que muita gente de peso, como todos os citados acima, vem acusando isso tudo há pelo menos dez anos, mas ainda insisto nessa tecla porque continuo a ver a mesma superficialidade sendo praticada em nome da Gestalt-terapia.

Assim, acredito que a Gestalt-terapia difundiu-se muito mais rapidamente do que se desenvolveu e que a atual crise é a nossa grande oportunidade; talvez seja essa a crise que vai nos permitir enraizarmo-nos solidamente em nossas mais do que sólidas fundamentações filosófico-científicas.

Às vezes comparo o crescimento da Gestalt-terapia com o crescimento do ensino superior no Brasil: em poucos anos proliferaram universidades por todos os cantos do país, sem que se tivesse professores qualificados para garantir um nível mínimo aceitável de ensino. Como se vê na Gestalt-terapia, ainda se vê, nas piores universidades, ex-alunos de cursos-pioneiros fraquíssimos sendo encarregados de ensinar as gerações seguintes.

Esse é um problema que está aí: é sério, é nosso e tem de ser encarado com coragem, como todo grande problema. O comodismo e a cegueira não nos levam à busca de soluções e muito menos nos tornam melhores Gestalt-terapeutas ou treinadores qualificados.

Acredito, pois, que correr o risco de uma autocrítica severa é o único caminho que temos para continuar a melhorar a nossa já privilegiada posição entre outras abordagens que também estão se autocriticando e, com isso, se desenvolvendo. Acabaram os anos sessenta, quando apenas a rebeldia contestatória satisfazia porque havia dogmatismos autoritários a derrubar. Não podemos mais ficar como os luminares da Igreja que, instados por Galileu a observar através da luneta as manchas solares, recusaram-se, ofendidos, pois Aristóteles dissera séculos antes que os astros eram entidades perfeitas.

Dessa forma, acredito que o papel daqueles que, como eu, tiveram a sorte e o privilégio de constatar – ou de conviver com quem constatou – “manchas” em nosso sistema é o de denunciá-las, é o de propor à nossa comunidade um exame acurado de todas elas, para que possamos, juntos, concluir se são mesmo manchas ou não.

Acredito – e essa crença é universal – que a Gestalt-terapia é uma Fenomenologia. Assim, devemos ter, pelo menos, uma noção do grande movimento intelectual que lhe deu origem, movimento ocorrido para enfrentar a crise que assolava a Filosofia e as Ciências, e que se desenvolveu principalmente na Alemanha pré-hitleriana.

Desse movimento holista que visou a reunificação sujeito/objeto, dicotomizados, atomizados e alienados pelas formas anteriores de pensamento[2], participaram os jovens Perls – Frederick e Laura – principalmente através de Goldstein e Gelb, de quem foram alunos, orientandos e assistentes.

Esse movimento, no entanto, foi prematuramente desmantelado pelo nazismo, por ser visceralmente contrário a tudo o que o nazismo representava : seus principais representantes ou foram perseguidos e mortos, ou afastados de atividades de ensino, ou se espalharam pelo mundo.

Assim, os judeus Laura e Frederick Perls fugiram para a Holanda e depois para a África do Sul, onde, “num vácuo cultural onde contavam apenas um com o outro para trocar idéias”, lançaram os germes da Gestalt-terapia que se desenvolveria mais tarde, principalmente com a ajuda de Paul Goodman, em Nova York, para onde o casal se mudara à procura de ares menos autoritários do que os do apartheid.

Não caberia aqui, nessa introdução ao diálogo, maior exame da história da Gestalt-terapia, mas acredito SER IMPOSSÍVEL entender a Gestalt-terapia sem exaustivas incursões por esse terreno, história que começa a ser levada a sério. Acredito que essa atitude se desenvolverá naturalmente na medida em que nos conscientizarmos de nossa crise e da necessidade premente de compreendermos na base, nos fundamentos, aquilo que estamos fazendo mais ou menos empiricamente.

Minha proposta, pois, é examinarmos com carinho e cuidado todas essas críticas – e outras que certamente surgirão – à luz do método fenomenológico, o poderoso instrumento de análise crítica e de conhecimento, desenvolvido rigorosamente a partir das mesmas idéias que geraram a Gestalt-terapia.

Um bom começo de reflexão seria nos situarmos – uma tarefa nada fácil, mas que vale a pena ser ao menos esboçada:

. Estamos na segunda metade da década de oitenta, que parece estar sendo a década decisiva para o futuro da Gestalt-terapia, como também de qualquer outra abordagem;

. Estamos em um Encontro de Gestalt-terapeutas, o primeiro realizado abertamente no Brasil, que está acontecendo por um ato de bravura dos seus organizadores;

. Especificando: estamos aqui, hoje, 10.07.87, Brasil, América Latina, Terceiro Mundo, tradicionalmente importador de quase tudo (principalmente no campo das idéias), tentando refletir sobre nós mesmos e sobre a nossa abordagem, ela também importada.

  Nos Estados Unidos há uma grande disputa para dizer quem é quem na Gestalt-terapia e, obviamente, quem pode treinar quem e conferir-lhe títulos. Essa disputa acirrou-se agora nos anos oitenta, onde se procura levantar os problemas do anti-intelectualismo dos anos sessenta e setenta, como denuncia Laura Perls. Essa luta, grosso modo, é conhecida como “disputa ‘costa leste’ x ‘costa oeste’ americanas”. Outra disputa maior e mais profunda começa a surgir: os alemães estão começando a se dar conta de que “estão reimportando suas próprias coisas e nem mesmo entendem o que reimportam”, diz Petzold numa palestra onde começara afirmando: “A Gestalt-terapia é em sua própria essência e âmago uma terapia européia e é por isso que os americanos a entenderam tão pouco. Chego mesmo a afirmar que a maioria dos Gestalt-terapeutas americanos não entenderam o que a Gestalt-terapia realmente é” (1984, p.1).

Assim, agora a disputa começa a deslocar-se para Velho x Novo Continente, o que nos remete às suas raízes, ou seja, à secular querela entre o pensamento europeu continental versus o pensamento europeu anglo-saxônico. Trata-se de uma querela da qual nós, terceiro-mundistas, podemos tirar bons dividendos na tarefa de entender a Gestalt-terapia, se a explorarmos a partir de nossa neutralidade.

E nós, de onde viemos?

Vou tentar situar a Gestalt-terapia no Brasil, a partir obviamente do veio ao qual pertenço:

Sempre inquieta, Thérèze A. Tellegen, foi à Europa em fevereiro de 1972 à procura de novidades. Em Londres, fez três grupos no Quaezitor Institut, todos eles conduzidos por norte-americanos utilizando-se da abordagem gestáltica.

Naquele tempo, trabalhávamos juntos em São Paulo com grupos de sensibilização que eu ainda aprendia com a própria Thérèze e também com outros mestres. Ela nos trouxe o livro que anos mais tarde seria traduzido com o título de “Gestalt-Terapia Explicada” (uma transcrição dos trabalhos de Fritz em Esalem, trabalhos esses criticados por Laura que, como Isadore From, notadamente, ressaltava o fato de terem sido eles feitos apenas para demonstração diante de “uma audiência de algum modo constituída por profissionais que, inexplicavelmente, tornou-se um método chamado ‘Gestalt’”) (FROM, 1984, p. 7).

Em todo caso, começamos um grupo de estudos de Gestalt-terapia a partir desse livro e de pequenas incursões no “Gestalt Therapy” – a nossa bíblia –, que já começávamos a namorar.

Em maio de 1972, Thérèze pronunciaria a primeira palestra sobre Gestalt-terapia no Brasil, na Sociedade de Psicologia de São Paulo, palestra que veio a se constituir em nosso primeiro texto.

Em 1976, Thérèze foi fazer o segundo grupo dos Polsters, aquele dedicado aos treinandos já iniciados, onde, como convidados, aparecem outros Gestalt-terapeutas. Dessa forma, lá conheceu, gostou e escolheu Robert L. Martin – o Bob –, um dos três alunos de Perls e Simkim que fundaram o Instituto de Gestalt-terapia de Los Angeles.

A convite de Thérèze, Bob esteve duas vezes em São Paulo e com ele começamos um treinamento que pretendia ser sistemático, mas não o foi, já que Bob tomou outros rumos na época.

Fizemos mais alguns grupos juntos, com outros treinadores, também “importados”, e depois me dediquei a levar a Gestalt-terapia para Brasília, onde vivo desde 1973.

Juntando o que foi dito acima com o que tenho ouvido, percebido e mesmo participado em outros veios gestálticos brasileiros, posso afirmar com tranqüilidade que a Gestalt-terapia brasileira originou-se e, em grande medida, ainda se nutre do ramo de Gestalt-terapeutas da costa-oeste americana.

Neste resumo de resumo, penso ter esboçado nossa situação no contexto da Gestalt-terapia. Agora, antes de passar a palavra a vocês, devo registrar que tem-me alentado ver o pessoal mais jovem com muito menos preconceito antiintelectualista ou de qualquer outra natureza e, ainda e principalmente, com muito menos preguiça intelectual do que nós, das primeiras gerações de Gestalt-terapeutas. Isso me alenta porque me dá muito mais confiança em relação ao futuro da Gestalt-terapia.

Desculpem-me por ter trazido mais problemas do que soluções, mas acredito que era a melhor contribuição que eu poderia oferecer nesse 1º Encontro.

Muito obrigado.

Julho/1987


 

Referências Bibliográficas

AUGRAS, Monique. O ser da compreensão: fenomenologia da situação de psicodiagnóstico. 3.ed. Petrópolis: Ed. Vozes, 1986.

FROM, Isadore. Reflections on Gestalt Therapy after thirty-two years of practice: a requiem for Gestalt. The Gestalt Journal, New York, vol. VII, n. 1, 1984. (Tradução de Luiz Fernando Ferreira da Rosa Ribeiro para Circulação Interna).

PERLS, Laura. Comentários sobre os novos rumos. In: SMITH, Edward W. L.  The Growing Edge of Gestalt Therapy. New York, Ed. Brunner/Mazel, 1976 (Tradução de Walter Ferreira da Rosa Ribeiro para Circulação Interna).

_____. Entendidos e mal-entendidos de Gestalt-terapia. Áustria, 1977. Conferência proferida no Congresso da Associação Européia de Análise Transacional. Áustria, julho de 1977. (Tradução de Thérèze A. Tellegen).

PERLS, L. et al. O futuro da Gestalt-terapia : um simpósio. The Gestalt Journal, New York, vol. IV, n. 1, 1981 (Tradução de Luiz Fernando Ferreira da Rosa Ribeiro para Circulação Interna).

PETZOLD, Hilarion. Tendências e desenvolvimento da Gestalt-terapia na Europa. Palestra proferida no Congresso Qüinqüenal - Gestalt-terapia: uma psicoterapia controvertida?, realizado em Utrecht, 29 jun. 1984.

RIBEIRO, Walter F. da R. O “esquecimento” das origens holísticas na teoria e prática da Gestalt-terapia. Palestra proferida no I Congresso Holístico Internacional – I Congresso Holístico Brasileiro. Brasília, mar. 1987a.

_____. Buscas em Gestalt-terapia. Palestra proferida no Centro de Estudos de Gestalt de São Paulo. São Paulo, jun. 1987b.

SIMKIM, James S. Entrevista concedida a Cláudio Naranjo. Big Sur, 1977. (Gravada em vídeo-cassete).

YONTEF, Gary . Mediocridade ou excelência : uma crise de identidade no treinamento em Gestalt-terapia. ERIC/CAPS, University of Michigan, ed. 214, 1981, p. 62 (Tradução de Walter Ferreira da Rosa Ribeiro para Circulação Interna).

_____. Gestalt therapy: its inheritance from Gestalt psychology. Gestalt Theory, Westdeutscher Verlag, vol. 4, n. 1 / 2, 1982 (Tradução de Luiz Fernando F. da R. Ribeiro para Circulação Interna).


[1] Trabalho apresentado no 1º Encontro de Gestalt-Terapeutas: Um convite à reflexão, realizado no Rio de Janeiro em 1987.

[2] O pensamento científico-filosófico oficial que nos foi (e é) ensinado ainda se encontra na fase pré-fenomenológica. Os maiores aliados da Fenomenologia – essa forma já não tão nova de pensar e de fazer ciência – são hoje, paradoxalmente, os físicos e os matemáticos que estão procurando novos paradigmas científicos, conscientes que estão do impasse a que levou a velha forma dicotomizada de pensar. (Ver, por exemplo, a palestra do Professor de Matemática, Ubiratan Dambrosio, proferida no I Congresso Holístico Internacional / I Congresso Holístico de Brasília, em março deste ano).

 


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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