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por Walter Ribeiro*
Setembro/2006 ALCANCES E LIMITES DA GESTALT-TERAPIA [1]
A minha proposta é que aceitemos esse convite à reflexão dos valentes organizadores deste Encontro. Para isso, vou iniciar compartilhando com vocês alguns dados e as muitas dúvidas que a minha inquietação com o que vimos fazendo me levou a coletar. Em primeiro lugar, “alcances” e “limites” do que? Da Gestalt-terapia ou nossos, os Gestalt-terapeutas? “Alcances” e “limites” pertencem ao campo da ação, área em que se delineia mais ou menos precisamente a nossa competência e incompetência, denunciando, pois, se já estamos ou não firmemente estabelecidos e embasados em uma postura teórico-prática sólida e coerente. Pertenço àqueles que acham que não. Para defender o meu ponto de vista e juntos refletirmos sobre isso, vou me valer de uma série de citações de alguns dos mais proeminentes Gestalt-terapeutas, começando pela própria Laura Perls (1977, p. 1) que nos diz: “Durante uma reunião do Instituto de Gestalt-terapia de Nova York, coloquei a questão: Qual é a sua resposta quando alguém lhe pergunta: ‘O que é Gestalt-terapia?’. O nosso vice-presidente, Richard Kitzler, que gosta de bancar o advogado do diabo, falou baixinho: ‘O assento quente e a cadeira vazia.’ Obviamente, como Mefistófeles, ele falou contendo o riso. Mas o discípulo ingênuo e impaciente aceita e não questiona; ele sempre tomará a parte pelo todo” (ênfase acrescentada). Acredito, como Gary Yontef, que devido à baixa qualidade e inadequação de nossos treinamentos de um modo geral isso está muito mais generalizado do que se costuma supor. Escreve ele (PERLS et al,1981, p. 1-2): “Mais ainda, a lista de histórias de horror a respeito de pessoas chamadas Gestalt-terapeutas expandiu-se. Os sub-treinados, sub-modestos, super-impetuosos e narcisistas terapeutas e aconselhadores que usam o nome da Gestalt-terapia para justificar a sua prática expandiram-se também. Muitos fazem isso há anos e, assim, podem chamar-se ‘Gestalt-terapeutas’ experientes. Ainda sub-treinados, eles agora agem autoritariamente, fazem treinamento e fundam institutos.” Em um Simpósio sobre o futuro da Gestalt-terapia e a respeito de críticas já formuladas, Laura insiste (PERLS et al, 1981): “Você fala sobre a confusão de modelos teóricos. Eu acrescentaria que muitas pessoas que se intitulam a si mesmas Gestalt-terapeutas ignoram tanto a teoria que nem sabem o que a palavra ‘Gestalt’ significa, de onde provém, e como se desenvolveu o conceito de Gestalt-terapia. Em parte, isto é conseqüência do anti-intelectualismo dos anos sessenta e setenta. Elas simplesmente não podem ou não querem falar de maneira coerente sobre o que estão fazendo. Não sabem realmente o que estão fazendo, e ainda assim o fazem, e às vezes muito bem” (ênfase acrescentada). Aqui Laura nos coloca aquele que talvez seja o problema mais inquietante que estamos enfrentando, pelo que contém de paradoxal. Realmente parece que algumas pessoas fazem “às vezes muito bem” gestalt terapia, sem saber o que é Gestalt-terapia. É isso possível? Acredito que sim, embora, nos casos que pude testemunhar, as boas terapias fossem freqüentemente intercaladas com atitudes em que a necessidade do terapeuta era figura. O importante é nos colocarmos questões como: . Como isso é possível? . Que variáveis interferem nesses casos? . Será que se essas mesmas pessoas soubessem o que estão fazendo não o fariam melhor? Há níveis e níveis de sutileza nesse assunto, como vimos no filme “Os Filhos do Silêncio”, durante o processo de conscientização do professor de surdos-mudos. Não acredito que possamos responder a essas e a outras perguntas que nos surgem todos os dias, porque questões cruciais como o que é Gestalt-terapia? o que é terapia para nós? o que é doença? o que é saúde? o que é o ser humano? quais as possibilidades que temos de conhecê-lo e abordá-lo e, principalmente, de interferir no seu processo? – ainda estão longe de serem respondidas satisfatoriamente dentro de um referencial teórico coerente com alguns poucos, mas fundamentais princípios sobre os quais já há concordância. O primeiro deles e, de longe, o mais importante é: A GESTALT-TERAPIA É UMA ABORDAGEM FENOMENOLÓGICA. Mas o que é isso? Essa é a questão que está começando a inquietar uns pouquíssimos Gestalt-terapeutas e que, portanto, ainda é muito nebulosa em nossos meios. Antes porém de enveredarmos por aí, vamos continuar mais um pouco a tentar entender o que está acontecendo em nossa comunidade e que, a meu ver, pode estar tornando mais difícil que encaremos os nossos maiores problemas. Para isso, voltemos a Laura Perls, ou Lore Perls, como querem os alemães. Será que ela tem exagerado? As críticas que fez (1976, 1977, 1981) não seriam o resultado de uma frustração pessoal por não ter aparecido como uma das fundadoras da Gestalt-terapia, como diz e enfatiza ser? Será que a crítica de superficialidade que alguns terapeutas de outras profissões de fé nos fazem é puro despeito, como ouço dizer com certa freqüência? É claro e óbvio que há interesse de algumas pessoas menos qualificadas em suas próprias abordagens em nos denegrir, já que temos tido uma boa dose de prestígio. Mas críticas tão ou mais contundentes são igualmente feitas por outros grandes nomes de outras abordagens, como também da própria Gestalt-terapia (Gary Yontef, Miriam Polster, Joel Latner, Isadore From, entre outros). Joel Latner assim inicia um de seus textos : “Essa parece ser a década da restauração, reorganização e assimilação. A Gestalt-terapia não mais ocupa o topo na apresentação das importantes forças que se ocupam do problema da mudança, como outrora aconteceu” (1984, p. 84). Isadore From, um dos responsáveis pela elaboração teórica da Gestalt- terapia juntamente com Paul Goodman, Paul Weiz e outros – além, é claro, do casal Perls – e que se constituiu durante décadas no principal sustentáculo teórico do grupo de Nova York e da Gestalt-terapia até se aposentar em 1985, escreve em 1984: “Perls não estando mais disponível, devido à sua morte, para produzir uma técnica por ano (o que parecia animar e manter seus estudantes em funcionamento) – após alguns anos, começamos a ter essas curiosas configurações associativas : ‘Gestalt e Bioenergética’, ‘Gestalt e Rolfing’, ‘Gestalt e Análise Transacional’ e, ultimamente, ‘Gestalt e Alexander e Feldenkrais’, ‘Gestalt e Zen’ e, até mesmo, ‘Gestalt e Psicanálise’. Naturalmente não a análise clássica – esta fora declarada obsoleta – mas a pseudo-análise. A Gestalt parecia compatível com qualquer coisa. Em lugar de novas técnicas provenientes de Perls, e na ignorância dos alicerces teóricos da Gestalt-terapia, violou-se mais ainda a teoria” ( p. 7, ênfase acrescentada). Note-se aqui que ele utiliza a separação, a distinção das expressões “Gestalt-terapia” e “Gestalt” e é a postura a que ele chama de “Gestalt” que combate impiedosamente e para a qual vaticina um “réquiem”, como o título do artigo sugere, e não para a Gestalt-terapia, à qual dedicou 33 anos de sua existência. A origem dessa “Gestalt” que se mistura com tudo é por ele assim explicada no mesmo texto: “O que começou como um esforço para demonstrar a teoria e a prática da Gestalt-terapia para uma audiência de algum modo constituída por profissionais, inexplicavelmente, tornou-se um método chamado ‘Gestalt’” (p. 7). From parece referir-se aqui principalmente às demonstrações que Fritz Perls fazia no Esalem Institut na sua 2ª fase californiana. Por sinal, a aliança de Perls com Dick Price, o dono do Esalem Institut, provocou o afastamento de James S. Simkim desse movimento de divulgação da Gestalt-terapia. Simkim repetiria mais tarde, enfaticamente, em sua entrevista a Cláudio Naranjo : “Não me associo com pacientes, mas apenas com profissionais qualificados” (1977). O objetivo óbvio de tantas críticas não é denegrir os Gestalt-terapeutas que eles próprios são (e dos melhores), e muito menos a Gestalt-terapia à qual dedicaram suas vidas, mas alertar-nos de maneira enfática e mesmo agressiva quanto à preocupação que lhes causa o grave engano, que muitos de nós estão cometendo, de não levar a sério essas críticas ou de tomá-las como ofensa pessoal, assim ignorando-as e comportando-se como crianças mimadas que teimam e insistem nos próprios erros. Nem sempre quem nos joga esterco nos quer mal, diz a piada do ratinho.
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