CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

Outubro/2006

 

DA DIFICULDADE DE “CONVERSÃO” À MENTALIDADE GESTÁLTICA**

 

“tudo que é visto, é visto por um olhar” (M.Merleau-Ponty)

“O terapeuta é seu próprio instrumento” (Polster & Polster)

 

Resumo:

O contato diário com a comunidade gestáltica, seu brilho e suas limitações convenceram-me de que para compreender a ainda revolucionária proposta da Gestalt Terapia (revolucionária para os valores culturais encrostados há séculos em nossas sociedades) devemos começar a ter melhor e maior clareza a respeito do quanto esses valores ainda governam cada um de nós. Portanto, em que medida eles ainda constituem a nossa mais íntima motivação e, assim, comandam nossas atitudes, opiniões e ações diárias.  

Abstracts:

The daily contact with gestaltic community and its brilliances and numbness had convinced me that to understand the yet revolutionary Gestalt Therapy’s proposal (revolutionary to the established cultural values ingrained for centuries in our societies) – we must begin with more and better clarifications about how much these values still govern each one of us. So, in which extension they yet constitute our inner motives and command our daily attitudes, opinions and actions.        

Expressões e palavras chaves:

Auto preservação, condicionamento secular, percepção, poluição e contaminação culturais, luta de contrários, poder e dominação, competitividade, “pré conceitos”.

Expressions and key words:  

Self-preservation, secular conditioning, perception, cultural pollution and contamination, fight of contraries, power and domination, competitiveness, pre-concepts.

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Mais de trinta anos depois que iniciei minha primeira terapia com José Ângelo Gaiarsa, ainda me estou clarificando sobre meus motivos e o meu estilo de olhar ou de ser-estar-no-mundo-com-os-outros. Que novidade!

         A frase singela de Merleau-Ponty (bem como a proposta gestáltica), nos remetendo a nós mesmos, coloca-nos de frente e de cara com problemas muito amplos, delicados e complexos: por exemplo, diante da necessidade de reavaliar com constância aquilo que pensamos que sabemos e, mais ainda, se realmente sabemos quem somos e o que queremos e, com isso, ter mais clareza sobre as razões de nossas ações, de nosso modo de ser-estar-no-mundo-com-os-outros, sejam esses outros pais, filhos, cônjuges, clientes, nós mesmos ou qualquer “outro”.

         Acredito que sempre me perturbei com certa facilidade com o que os meus olhares “viam”. Quero compartilhar uma velha perturbação que insiste em povoar meus sonhos de profissional, tentando não cair na tentação de aplacá-la com alguma resposta apressada e prematuramente pacificadora, tarefa difícil em nossa cultura centrada em “problemas” e ansiosa por “resolvê-los”.

         É a partir desse limbo de incertezas e de buscas que trago alguns desencontros e achados que tenho tido com a nossa teoria e, principalmente, com a nossa prática, (obviamente nos seus e meus estágios de desenvolvimento de cada encontro), nessa minha sempre inacabada caminhada de aprendiz pretensamente “experiente” desse Universo tão amplo e abrangente a que chamamos GESTALT TERAPIA, e, principalmente, do extenso e dinâmico contexto filosófico/científico/artístico no bojo do qual ela surgiu e no qual inevitavelmente nos inserimos e podemos melhor caminhar se estivermos atentos ao seu também incessante movimento.

         Julgo essa minha preocupação não excessiva se considerarmos o quanto a proposta gestáltica ainda é perturbadora ao sugerir um modo ser e de estar no mundo com os outros diametralmente oposto ao modo patriarcal/conservador, onde estamos instalados há milênios e onde, portanto,  vimos nos co-construindo, sendo adestrados e adestrando (Stein,2003), sendo condicionados e condicionando, estilo de ser/estar exaustivamente observado na experiência clínica de qualquer profissional atento.

         A proposta gestáltica (bem como a de todas aquelas que se alinham e se colocam contra a prepotência imperante) propõe-nos, neste contexto adverso de nossas existências, uma tarefa ou missão extremamente difícil e até mesmo quase impossível. Em primeiro lugar, entender uma proposta radicalmente democrática da qual não temos vivência ou referência e, depois, o mais difícil ainda: tornarmo-nos democratas radicais e agirmos de acordo diante dos outros, do mundo e de nós mesmos. Ou seja, negar (ou transcender?) a nossa própria condição penosamente constituída de seres que mais se defendem e atacam do que confiam, o que fortemente sugere que a nossa formação deu-se e se dá em contextos pouco favoráveis ao desenvolvimento individualizado, diferenciado e livre.

         Para nos autopreservarmos nesses contextos, essa negação pode levar-nos (e nos tem levado) a modos de ser fingidos e hipócritas ou a desenvolver características como as descritas por Sartre como “Má-Fé” ou que Heidegger denominou, em suas reflexões, como “o modo de ser cotidiano”.  (Provavelmente, a partir de “representações” historicamente criadas, desenvolvidas e consolidadas através de percepções distorcidas como as que Platão descreveu na metáfora da Caverna). Comportamento claramente movido e motivado pela necessidade de instituir alguma ordem, de ter alguma opinião sobre a complexidade ou o caos do existente com o objetivo de melhor sobreviver. (Deleuze e Guattari, 1992. pg.259 e seguintes).

É óbvio, portanto, que não há culpa de ninguém nesse processo, já que desde sempre tivemos que nos autopreservar e sobreviver em contextos nutritivos e tóxicos, além de ambíguos e dissimulados.

         Como esse contatar com o contexto e consigo mesmo é permanente, absoluto, abrangente e inquestionável, é determinante na direção do posicionamento de cada um e do seu funcionar consigo mesmo, com os outros e com o mundo, ou seja, na determinação do estilo dos seus ajustes, do seu modo de existir e, claro, de entender o processo terapêutico e do seu modo de fazer terapia.

         Perceber essa dinâmica de mútua formação/deformação na qual estamos imersos (e suas conseqüências) é a tarefa que percebo como proposta central da “mentalidade gestáltica” para, então, e só então, definir o como das relações que poderíamos chamar de “terapêuticas” ou de “neurotizantes”. Ou melhor, pensar em que direção nosso “fazer” nos está levando: para a manutenção, desenvolvimento, sofisticação e perpetuamento de nossos mútuos adestramentos ou para o outro lado, o lado da busca da liberdade e do humano, que nos leva à aceitação e desenvolvimento de nossas singularidades e ambigüidades de seres únicos, irrepetíveis e... imprevisíveis.

         Michael Vincent Miller e Isadore From utilizam-se, na sua Apresentação do PHG, 1994, da metáfora de dois modos opostos de ser-estar-no-mundo-com-os-outros e do estilo de ação que prevalece em cada um deles: o “cara palidismo” - onde predomina o intelectualismo, o conceitualismo, a fala falada ou segunda (Merleau-Ponty-Amatuzzi) -  e o “pele vermelhismo”, em que a ação pronta e rápida, a la John Wayne, é suportada por pequena, intolerante, rígida e superficial base teórica.

         Paulo Freire, em “bate-papo” com um grupo nacional de gestalt terapeutas, na década de 80, sugere-nos a busca do equilíbrio entre o pensar e o fazer (fazendo referência às nossas duas pernas), quando acrescenta, no seu delicioso pernambuquês: “quem só pensa é um masturbador mental... e quem só faz é um porra-louca!...”

         A partir das concepções, ensinamentos e dúvidas desses e de outros mestres, tento sempre me esclarecer como venho percebendo a trajetória da Gestalt Terapia nesses trinta e tantos anos em que tento entendê-la e evoluir com ela.

         O tema deste “Fórum” remeteu-me de novo à nossa História e, portanto, à grande e velhíssima revolução ontoepistemológica reativada e recrudescida há 100 anos (ainda ativa e acirrada até hoje) na Filosofia, nas Ciências e nas Artes.

         O espaço e o tempo de maior ebulição dessa tentativa de reviravolta cultural, de mudança radical de paradigma, foi o início do Século XX, notadamente na Alemanha, onde se alimentava e florescia o jovem casal Perls: Lore e Frederick (Fritz).

         Não havia nenhum setor da vida cultural alemã que não estivesse contaminado por esses ares renovadores (como acentuou M. Merleau-Ponty em seu “Ciências do Homem e Fenomenologia), por esse anseio de libertação dos velhos padrões, fundo abrangente onde o casal respirava, bebia e se nutria.

         Como não poderia deixar de acontecer, esses ares de renovação e de liberdade provocaram as forças mais conservadoras e prepotentes do milenar patriarcalismo no qual ainda estamos imersos.

         A nova proposta desequilibrava em demasia (e ainda o faz) a luta de contrários (no caso, entre a Prepotência e a des-confiança no outro, no diferente, no inovador, visto como inimigo e a Proposta Liberadora de aceitação das diferenças, de solidariedade, de aceitação do outro como um legítimo outro).

         Luta de contrários inerente a tudo, como já apontou Heráclito há 2.400 anos, quando diz: “...o nascimento e a conservação dos seres devem-se a um conflito de contrários que, mutuamente, se opõem e se mantêm, ...limitando-se e se unindo, em harmonia e em discordância... Todo excesso de um contrário que ultrapasse a medida é punido pela morte e a corrupção” (in Bréhier, 1948, pg. 56). Bateson também diria, depois de 24 séculos: “nem um total conservadorismo nem uma completa ansiedade pela mudança são apropriados” ( l986, pg. 228).

         No caso da Alemanha no início do século passado, os contrários à postura, à mentalidade liberadora (gestáltica) proposta, ou seja, a elite do poder conservadora e radical, assim provocados e ameaçados, puzeram Hitler no poder, e Hitler matou, ou pôs para correr, praticamente toda aquela elite intelectual indesejável para o seu Patriarcalismo prepotente, para o seu nazismo.

         Como tantos, os agora casados Lore e Fritz fugiram para a Holanda, dali para a África do Sul e de lá para Nova Iorque.

         Fiz essa viagem com vocês para exemplificar de dentro, e a partir da nossa própria história, bem como para termos consciência cada vez mais clara, que qualquer ar de liberdade tem sido e é sentido como veneno letal para corpos e mentes poluídos por séculos do conservadorismo, do autoritarismo adestrador por nós sofrido por tanto tempo e que nos formou/deformou e do qual, portanto, somos, com consciência ou fora dela, representantes e perpetuadores. Cada um de nós, é claro, com o seu próprio grau de crença e de imersão nessa cultura anti-indivíduo, cultura que vê o nosso anseio de buscar e de desenvolver a nossa diferença, a nossa busca de individualidade e de singularização como ofensa e ameaça direta à sua segurança, à sua continuidade, à sua sobrevivência.

         Obviamente, os mais jovens dentre nós (as crianças principalmente) têm mais possibilidade de se descondicionarem (“somos seres condicionados, mas não determinados(Paulo Freire), de se libertarem desse modo de ser prepotente e centrado no “êxito” a qualquer custo, dessa eterna busca de poder e de dominação que alimenta a competitividade desenfreada e desumanizante tão solidamente instalada e que nos mantém a todos (dominadores e dominados, “top dogs” e “under dogs” ) fatalmente agrilhoados à sua guerra sem fim.

         Crescentemente, os cientistas de ponta (praticamente de todas as ciências), bem como a Filosofia, acreditam que a busca do dinâmico, instável e fugidio equilíbrio entre opostos é muito mais abrangente, complexa e difícil do que imaginávamos.

         Como velho e apaixonado aspirante a gestaltista, gosto de exemplos práticos, de experimentos ou de analogias que tragam para a vida aquilo de que falamos e teorizamos. Por isto, vou citar um experimento talvez chocante demais, mas elucidativo para a necessidade gestáltica de entender “a naturalidade” (PHG, Prefácio) e de respeitar as peculiaridades únicas de cada ser, ser que, sabemos, co-constrói-se com contextos cujas especificidades também não podem ser negadas:

         Recentemente, relendo “As Três Ecologias”, de Félix Guattari, deparei-me, à pg. 25, com o seguinte “Experimento de Alain Bombard na televisão: apresentou duas bacias de vidro, uma contendo água poluída como a que podemos recolher no porto de Marselha e na qual evoluía um polvo bem vivo, como que animado por movimentos de dança; a outra, contendo água do mar isenta de qualquer poluição. Quando ele mergulhou o polvo na água “normal”, após alguns segundos vimos o animal encarquilhar, se abater e morrer”.

         Perdoem-me a violência, mas não pude deixar de pensar na analogia desse experimento com as dificuldades facilmente observáveis em todos nós de deixar a água poluída de nossa cultura, onde prevalecem a luta pelo poder e pela dominação, o desamor, o adestramento, a competitividade desenfreada, a prepotência, a coerção e o inevitável narcisismo, como se fôssemos o polvo que “se encarquilharia, se abateria e morreria” na água limpa da solidariedade, da ética, do amor, da democracia (a verdadeira) e do sentimento de respeito para com o diferente, o novo, o inusitado, água certamente proposta pela “mentalidade gestáltica...a abordagem original, não deturpada e natural da vida (PHG, Prefácio) e pela mentalidade de todos aqueles que voltaram a insistir, no início do século passado (o que os adeptos da sua postura continuam a fazer), nessa proposta existencial que prioriza o humano como alternativa à prepotência da milenarmente instalada cultura que prioriza a hierarquização, dominação e o culto aos velhos dogmas instituídos e enrijecidos.

         Sabemos que na Alemanha hitleriana os proponentes dessa postura foram exterminados ou escorraçados. As nossas rejeições (exógenas e endógenas) hoje podem ser mais sutis e sofisticadas, disfarçadas, dissimuladas ou até hipócritas, mas não menos eficazes e poderosas como forças de coerção .

         Por outro lado, é humano, é justo, é inevitável que nos defendamos e aos nossos condicionamentos, preconceitos e mesmo deformações: eles fazem parte de nós, nós somos eles, somos o resultado de nossas co-construções com os contextos vividos (a nossa água). Desde os mais longínquos ancestrais até cada um de nós em nossa própria jornada iniciada no ato conceptivo e que continua até hoje, estamos imersos (imiscuídos) com nossos contextos.

         Não temos referência prática de outras possibilidades existenciais (exceto raríssimos exemplos), de outros modos de viver e de interagir, já que estamos imersos há séculos nessa cultura (como o polvo em sua água poluída), agrilhoados como os personagens da metáfora da caverna de Platão. É, portanto, difícil até mesmo imaginar como seriam nossas relações em sociedades que realmente priorizassem o humano, o que seria a “vida viva” (Dostoiéwsky), “a abordagem original, não deturpada e natural da vida” (PHG, pg.32). Muito provavelmente, não saberíamos sobreviver sem jogos, sem luta por dominação nas mínimas coisas, sem manhas, manipulações ou fofocas, sem a endêmica (indispensável?) “Má-Fé” etc. E, se soubéssemos, onde iríamos viver desse jeito? Não nos esqueçamos de que Sócrates optou por beber a cicuta diante da possibilidade de fuga para outro lugar, onde, pensava, haveria menos liberdade do que na sua Atenas, que o condenara à morte “por corromper a juventude”.

         Clara e conscientemente, estou-me justificando, aos meus mestres, aos meus pares e a todos vocês que me ouvem ou lêem por ainda não termos tido condições nem prontidão caracterológica” para entender a radicalidade democrática da proposta gestáltica. Mais ainda, de ainda não termos condições emocionais e nem mesmo racionais de vivê-la e, assim, de aplicá-la com a aceitação plena e amorosa das nossas desconcertantes diferenças, das singularidades, por vezes aberrantes ou até assustadoras para o nosso conservadorismo, para a nossa defensividade: nosso defensivo Narciso ferido e desconfiado ainda não pode permiti-lo. Defrontamo-nos a todo momento com essas diferenças em nosso quotidiano existencial, talvez mais ainda em nosso trabalho. É extremamente difícil ou até impossível entendê-la apenas racionalmente e a partir de paradigmas epistemológicos e de subjetividades diametralmente opostos. É muito pior do que nadar contra uma forte correnteza.

         Quero, ainda, sem paradoxo, parabenizar-nos e a toda a comunidade gestáltica pelo empenho que temos demonstrado em tentar entender a nossa abordagem a partir de “territórios” e de subjetividades tão inóspitos e avessos à sua vocação solidária e libertária.

         É com esse espírito, e acreditando em nossas forças e determinação, que estou insistindo que nos detenhamos com maior empenho na clarificação crescente dessa mais ampla luta de contrários, muito mais profunda, difícil, abrangente e complexa do que a luta entre “caras pálidas” e “peles vermelhas”, genialmente referida por Michael e From na sua Introdução ao PHG, em 1994, luta também ainda viva e atuante porque é muito difícil e ameaçador equilibrarmo-nos na ambígua e tênue linha divisória, no verdadeiro fio de navalha que divide/une os contrários, sem despencar para um lado ou para o outro, como tanto acontece em nosso cotidiano.

         Pessoalmente, tenho-me batido muito contra os “Johns Waynes” da “Gestalt” (inclusive contra o “pele vermelhismo” do próprio Fritz Perls, em Esalem).

         Mas o para mim excessivo e crescente intelectualismo (conceitualismo, representacionismo) que tenho visto, notadamente nos últimos congressos, está-me levando a ter cuidado com o fortalecimento demasiado do “cara palidismo” na Gestalt Terapia, tão grandioso, prepotente e desrespeitador quanto o seu contrário, “o pele vermelhismo”: “qualquer excesso de um contrário..., já dizia Heráclito.

         Se extinguirmos todo o nosso “pele vermelhismo”, deixaremos de ser uma Gestalt, a abordagem holística que somos e que visa a integração criativa de todos os componentes humanos: físicos, psicológicos, intelectuais e espirituais.  A nossa consciência é encarnada, é holística e não platônica ou cartesiana.

         O cruel experimento citado por Guattari serve para nos alertar e termos mais amor, cautela e cuidado com nossa atitude e ação diante de qualquer luta de contrários, onde cada lado vê a aniquilação do outro, como solução “do problema”, como apontam PHG, mostrando-nos e advertindo-nos sobre a crueldade inútil e perigosa que poderíamos cometer se tivéssemos o poder (que felizmente é ínfimo) de descontextualizar nossos semelhantes e a nós próprios. “A Verdade Liberta” é o nome de um dos últimos livros de Alice Miller. Precisamos, entretanto, acrescentar que ela pode ser extremamente dolorosa e não nos esquecermos de que, freqüentemente, a dor é tamanha que saudavelmente a evitamos com todas as nossas forças.

         É por isso que a GESTALT  TERAPIA respeita e trabalha com as “resistências” e não contra elas. Acredita que “a lei básica da vida é a auto-preservação e o crescimento (PHG, IV,5).

       Tirar-nos abruptamente, ou mesmo com sutileza e aparente amor, de nossa água mãe e nos submergir em outra previamente considerada “despoluída” é a proposta de muitos terapeutas e terapias.

         Talvez a maior dádiva que a prepotência do Patriarcalismo tenha nos legado foi propiciar o desenvolvimento dessa resistência organísmica sabiamente desenvolvida como resposta à sua tirania durante os séculos ou milênios que temos vivido sob o seu jugo.

         Negar, esconder, fazer de conta que a luta de contrários inexiste e, pior ainda, negar que uma vez imersos nela, defendendo um dos contrários em oposição, nos torna sectários fanáticos e perigosos não só para os outros, mas também para o mundo e para nós mesmos, tem sido a loucura de nossas existências!

         Felizmente, as mais recentes descobertas das ciências contemporâneas as aproximaram de nossa postura, de nossa “mentalidade” ou “subjetividade”. A descoberta e a aceitação da complexidade e da riqueza de qualquer objeto de estudo as obrigou a abandonar o Princípio da Certeza, o grande suporte teórico para qualquer prepotência e autoritarismo, e a adotar o Princípio da Incerteza que nos torna mais cautelosos, modestos e até humildes diante da sabedoria da Natureza e da Vida, tornando-nos mais próximos da “mentalidade gestáltica...abordagem original e natural da vida”.

         Perdoem-me, mais uma vez, pela insistência em compartilhar o temor que o poder desproporcionalmente crescente de um dos nossos contrários, o intelectualismo (na Gestalt Terapia, o “carapalidismo”) está assumindo.

         Mais ainda, e principalmente, perdoem-me por insistir na dolorosa necessidade de conscientização e awareness dessa muito mais ampla, profunda e complexa luta de contrários entre... a ânsia pela manutenção e desenvolvimento do poder controlador & a proposta de buscar livremente em cada um de nós o humano que todos temos em nossas mentes, corpos e espíritos, “humano” que comprovadamente somos e que está vivo em nosso mais profundo íntimo, embora subjugado pelo secular adestramento sofrido.

         O que mais nos dificulta buscar sempre e incansavelmente um equilíbrio maior de forças, e até de perceber onde estamos em cada momento desta busca, é a nossa também milenar atração pelo maniqueísmo: ou somos isso OU aquilo; jamais isso E aquilo. Postura que nos leva à tendência de negar a saúde da heracliteana luta de contrários interdependentes e de, rigidamente, tomar partido tanto em querelas insignificantes como em questões de vital importância.

         Assumidamente, pertenço ao clube dos inveterados otimistas/românticos (o ceticismo sempre desperta em mim o  pior lado, desidatrando-me, tornando-me frio e seco). Entretanto, ou por isso mesmo, tenho tentado ser um otimista de pés fincados no chão, fundamentado em observações, pesquisas e busca constante da essência da Gestalt Terapia.

        Espero ter conseguido transmitir a fé profunda que tenho na GESTALT  TERAPIA e no seu paradigma de aprender e de ensinar que tenta captar o método da mãe Natureza e da vida, o que nos reconduz à fé no humano e na sua capacidade de comunicação que habita todos nós, embora soterradas por “mais de vinte séculos de adestramento”, como disse o filósofo gaúcho, Ernildo Stein, em Gramado, no Congresso Nacional da Abordagem Gestáltica (2003), embora eu esteja convicto de que a poluição adestradora exercida pela prepotência de nossa cultura seja muito mais antiga do que Stein registrou.

         Insistindo: embora seja inegável que o paradigma gestáltico já habite em nós (por ser “natural”), não paradoxalmente o acesso a ele não é fácil, como temos testemunhado ao rever nossa História bem como nosso comportamento. Também nos repensando com ajuda de outros buscadores, vejo que sozinhos é quase impossível. Há muito entulho, condicionamentos, poluição e mesmo má fé a considerar e até a respeitar nessa jornada. Assim, a luta é mais árdua do que os românticos ingênuos ou os interessados interesseiros teimam em acreditar, embora possa ser ganha com amor, tempo, carinho, respeito, muita garra e humildade.

         Termino este trabalho com a questão crucial que ele expõe e que está no âmago da questão terapêutica: como Sartre e Heidegger exaustivamente escrutinaram, o Ser Humano faz o que pode para constituir-se (para “auto-preservar-se e crescer”) em seus contextos existenciais, não deixando espaço, portanto, para qualquer julgamento. Ambos insistem em que a “Má-Fé” (Sartre), o “Falatório”, a “Curiosidade”, a “Decadência” – modos de ser na “Cotidianidade” do Ser-aí (Heidegger) - são formas de constituição que estão aí (facticidade, concreção existencial?), portanto, além e aquém de qualquer crítica ou passíveis de serem tomadas em sentido pejorativo.

Como gestalt terapeutas, estamos de pleno acordo.

Entretanto, a pessoa concreta à nossa frente não está feliz e sofre em função dos conflitos (percebidos ou não) que vive.  Geralmente, está vivendo o lento e penoso processo de clarificação de conflitos e/ou incongruências entre a concretude de sua cotidianidade e a realização de sonhos, e até mesmo de ter entrado em contato (também percebido ou não) com alguma possibilidade de existência mais plena, mais condizente com sua humanidade. Enfim, está, como todos nós, sofrendo “o lento e penoso desabrochar do ser humano como ser pensante” (Primeira orelha do Ser e Tempo, de Heidegger).               

  Brasília, 09/2006

 

Citações e influências mais percebidas:

- Merleau-Ponty, Maurice – Ciências do Homem e Fenomenologia – Saraiva Editores, fora de impressão;

-       “          “           “        - Fenomenologia da Percepção – Martins Fontes, SP, 1994;

- Polster, Erv & Polster, Miriam – Gestalt Therapy Integrated – Countours of Theory & Practice – Vintage Books Edition, 1974; Existe tradução em português publicada pela Ed. Summus;

- Stein, Ernildo – Palestra no Congresso Nacional de Gestalt Terapia, Gramado, RS, 2003;

- Sartre, J.P. – A noção de Má Fé, em O Ser e o Nada, Ed. Vozes, 2005, pgs. 92/115. Resumida no Dicionário de Filosofia de J.Ferrater Mora, Tomo III, pg. 1825, Edições Loyola, SP, 2001;

- Heidegger, Martin – Ser e Tempo, Parte I, Ed. Vozes, 2005, pgs. 226/242;

- Platão: Obras Completas, Tomo VII, 1ª parte: A República – Livro VII – pg. 514ª e seguintes – Société D’Édition “Les Belles Lettres”, 1961;

- Delleuze, Gilles e Guattari, Félix – O que é a Filosofia?, Editora 34, 1992 (notadamente, o último capítulo);

- Amatuzzi, Mauro Martins – “O Resgate da Fala Autêntica (Filosofia da Psicoterapia e da Educação),  Papirus Editora, Campinas, sp, 1989;

 -PHG, Perls, Frederick S., Hefferline, Ralph, e Goodman, Paul – GESTALT  THERAPY – Excitement and Growth in the Human Personality, Ed. Gestalt Journal, 1994. Em português” GESTALT-TERAPIA, Ed. Summus, 1997;

- Ribeiro, Walter F.R. – Existência >>Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, Summus,98  (Agora, saindo atualizada em inglês sob o título “Human Interactions (Can We Improve Them?) – Theoretical and Practical Challenge for this Newly-born Century/Millennium”,Gestalt Journal Press, 2006.  

- Freire, Paulo – “Bate Papo” com um grupo nacional de gestalt terapeutas em Itaquaquecetuba-sp, em 1980;

- Freire, Paulo – Pedagogia da Autonomia (Saberes Necessários à Prática Educativa), Paz e Terra, 1996;

- Heráclito de Éfeso, in Bréhier, Emile – Histoire de la Philosophie, Tome Premier “L’antiquité et le Moyen Age – Presses   Universitaires de France, 1948, pg.56;

- Bateson, Gregory – Mente e Natureza – A Unidade Necessária, Ed. Francisco Alves, 1986, pg. 228;

- Guattari, Félix – As Três Ecologias – Papirus Ed. 1990, Editions Galilée, 1989;

- Miller, Alice – O Drama da Criança Bem Dotada (Como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos -, Summus, Edição revista e atualizada em 1997, traduzida do original alemão: Das Drama Des Begabten Kindes – und die Suche nach dem wahren Selbst, 94;

- Miller, Alice – The Drama of Being a Child – The Search for the True Self (trata-se do mesmo livro também revisto e atualizado de modo diferente e acrescido de um Afterword e de um Appendix, Virado Press, London);

- Miller, Alice – A Verdade Liberta – Martins Fontes, São Paulo, 2004 ;

-     “        “     -  The Body Never Lies – The Lingering Effects of Cruel Parenting, W.W. Norton & Company, NY, 2005;

- Maturana, Humberto R. and Verden-Zöller, Gerda – Amar e Brincar – Fundamentos esquecidos do humano, Palas Athena, SP, 2004.

 

** Texto originalmente apresentado no
I ENCONTRO CANDANGO DA ABORDAGEM GESTÁLTICA
Fórum I: A Relação Terapeuta-Cliente e o Processo Psicoterápico
Walter F. da R. Ribeiro  -   Brasília, 02/10/2004  (Revisto e ampliado: 09/2006)


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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