CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

Novembro/2006

 

O CONFLITO ENTRE O INDIVÍDUO E A SOCIEDADE É GENUÍNO

(texto originalmente apresentado no VI Congresso Internacional de Gestalt - I Congreso Nacional de Gestalt - Buenos Aires (Argentina), ocorrido entre 16 e 29 de junho de 1995, com o título “El conflito entre el individuo y la sociedad es genuino”)

A crença fundamental da Gestalt Terapia é a de que está na base da natureza humana autopreservar-se e crescer: esse é pois um dos princípios norteadores de nosso pensamento e de nossa ação. (The Gestalt Therapy, P.H.G., NY: The Gestalt Journal Press, 1994, cap. IV item 5, pg. 56).

         E parece que os seres humanos e os seus ancestrais vêm desenvolvendo a sabedoria existencial necessária para isso há milhões de anos. Daí a sua força e profundidade.

         Parece também que, para melhor preservar-se (sobreviver), começou-se a viver em núcleos familiares também desde os tempos pré-humanos. Isso porque precisamos da sociedade para nos proteger; entretanto ela (como nas couraças reicheanas), ao nos proteger, também nos tolhe, nos aprisiona. Tira o nosso espaço de movimento livre, em maior ou menor medida, conforme seja mais ou menos autocrática.

         Outro aspecto: essa sociedade, de que tanto necessitamos também para exercer a nossa essência de seres sociais, já está aí de há muito quando aqui chegamos. É velha, muito velha. Com sabedorias e pré-conceitos profundamente arraigados e freqüentemente intocáveis. E, para sermos aceitos nela, temos que nos adaptar e estar atentos a todos esses prés, inclusive àqueles que nos foram (são) transmitidos sem consciência, pois vivem nas pessoas na dimensão do esquecimento. São aqueles preconceitos que vivem em nós e nos influenciam sem que estejamos aware deles. Sendo claro que estes são os mais perigosos.

         A própria família, que deveria estar mais atenta ao indivíduo constituindo-se no seu núcleo de proteção, é a principal mantenedora dos valores e preconceitos da sociedade em que está inserida. A estrutura de poder da família prepara o indivíduo mais para a adaptação e normas pré-estabelecidas do que para o seu próprio desenvolvimento.

         É claro que a família, o grupo, a sociedade fazem isso para sua própria autopreservação e, geralmente inconscientes disso.

         Assim, a necessidade de ambos de autopreservar-se gera o conflito: o indivíduo necessitando de mais e mais liberdade para desenvolver as suas diferenças, a sua individualidade própria; e a sociedade precisando controlar essa liberdade para preservar-se; assim lutando para nos manter o mais possível semelhantes e previsíveis.

         É óbvio que há diferenças palpáveis: quanto mais democrática a sociedade menos defensiva e mais tolerante ela é. E também os indivíduos diferem entre si na quantidade de movimento livre de que necessitam.

         São dessas necessidades opostas genuínas que nasce o conflito genuíno.

         Vejamos:

         Quais as condições para o crescimento individual?

a)     ter a sua sobrevivência garantida (princípio de autopreservação). Para isso, necessita ser aceito e amado incondicionalmente (Alice Miller: “O Drama da Criança Bem Dotada”, SP, Summus).

b)     a partir daí, ter liberdade para experimentar o novo, o inusitado (como preceitua a Gestalt Terapia).

c)      mas esse novo, quando é realmente novo, é óbvio que inova. E inovando fere preceitos do contexto familiar, grupal ou da sociedade. E isso, é claro, é uma ameaça a esses grupos constituídos e geralmente defensivos.

Quais as condições de preservação da sociedade ?

a)     estabelecer normas a serem obedecidas por todos os seus integrantes.

b)     ser constituída por indivíduos mais ou menos previsíveis, estáveis. Quanto mais rígida a sociedade, menos margem de liberdade individual pode oferecer. Ex. as ditaduras. Mesmo nas autodenominadas democracias, a margem de liberdade individual é limitada e controlada.

c)      E as próprias pessoas, enquanto membros dessa sociedade, desenvolveram (desenvolvem) terríveis instrumentos de controle mútuo. P. ex., o psicoterapeuta brasileiro José Ângelo Gaiarsa diz que a fofoca é o mais poderoso instrumento de coerção social que existe (“Tratado Geral da Fofoca”, SP, Summus).

Pensemos nos terríveis controles que exercemos uns sobre os outros ou sobre nós mesmos.

Até em nossos grupos gestálticos não se vê tanta liberdade assim para sermos diferentes (p.ex. para sermos calados, não emotivos, menos participativos, etc.)

A proposta desta exposição é redenunciar essa dualidade com toda a força e radicalidade que pudermos.

P. ex.: pensemos na polaridade:

Fé absoluta no Ser Humano   X    Não Fé Absoluta

Quero ressaltar que não há nenhum pieguismo nessa fé de que estou falando: é a fé nas potencialidades e capacidades do Ser Humano que automaticamente se desenvolverão se lhe forem propiciadas condições indispensáveis, tais como ACEITAÇÃO, LIBERDADE, PODER, RESPONSABILIDADE. (Parece que elas constituem um pacote: não temos uma sem as outras).

É claro que essas posições diametralmente opostas não existem em estado puro: nem o mais nazista dos autocratas deixa de ter alguma fé nas pessoas e, do outro lado, ninguém é todo fé em si e no outro.

Essa é uma das dificuldades de entender a Gestalt Terapia nos seus fundamentos: ela é uma proposta tão democrática que nem o próprio Perls, o seu mais ilustre representante, conseguiu aplicá-la tão democraticamente. Pelo menos em suas famosas demonstrações.

Ora, se nem Perls conseguiu deixar ser, deixar fluir (ou não fluir) com plena liberdade, como estamos nós? Em que medida forçamos, dirigimos, conduzimos, não ouvindo realmente as pessoas? Que técnicas utilizamos para controlá-las? Somos mandões assumidos ou fazemos o tipo sedutor para controlá-las?

Digo isso dessa forma porque parece que, por razões culturais, não temos a opção de termos plena Fé no Ser Humano e em suas potencialidades e capacidades (o que eliminaria os nossos condicionamentos autocráticos).

O antropólogo Fernando Rosa Ribeiro (comunicação pessoal) – estudando vários racismos como o brasileiro, o sul-africanos, o francês – concluiu que a raiz comum de todos eles é um ranço nazista que existe em todas as sociedades conhecidas. Ranço esse responsável não só pelo preconceito racial, mas por todos os outros preconceitos. Parece estar ainda buscando em que cultura isso começou. Talvez tenha se iniciado com a luta pelo poder dos chefes pré-humanos há milhões de anos. Quem sabe?

Alice Miller, em seu livro “For Your Own Good – Hidden Cruelty in Child- Rearing and the Roots of Violence”,  N.Y.,  Farrar, Strauss, Girouss, estuda sistemas educacionais desde os tempos de Salomão até hoje. Conclusão: são todos formadores, tomam o partido dos pais, da sociedade; portanto autocratas, prepotentes, nazistas1 mesmo.

São do mesmo teor os achados e as conclusões do educador brasileiro Paulo Freire.

Pretendo, com essas considerações, chegar às nossas dificuldades caracterológicas1 de compreender a proposta extremamente democrática (anarquista mesmo) da Gestalt Terapia.

Obviamente, não temos culpa disso: todos fomos formados/deformados nessa cultura que está ai.

“Conheça a ti mesmo” é a proposta socrática que, acredito, não tem sido tão levada a sério na formação de terapeutas, inclusive na Gestalt Terapia, onde a lacuna é mais sentida e grave por sermos uma abordagem que tanto privilegia a relação, o contato.

Nesse sentido, notórias e exemplares são algumas “confissões” de Fritz  Perls, como por exemplo, a sua “Cronologia de Vida”, escrita para a introdução à edição de 1969 do livro “Ego, Hunger and Aggression” escamoteada pelos editores e recentemente publicada no The Gestalt Journal, vol. XVI, nº 2, 1993.

A ambição dessa exposição é compartilhar a preocupação de que estejamos, nós gestalt terapeutas, cada vez mais atentos e aware de nossos próprios processos, tendências e procedimentos autocráticos, como única forma de não fixarmos as nossas próprias gestalten e, assim, ajudarmos não só a nós mesmos e aos nossos clientes no seu processo de libertação como, principalmente, ajudarmos a levar adiante o sentido verdadeiramente revolucionário e democrática da proposta gestáltica.

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1 - "os erros teóricos fundamentais são invariavelmente caracterológicos” (e não de entendimento). Já nos diz a nossa bíblia o “The Gestalt Therapy”,de Perls e Goodman,  NY: The Gestalt Journal Press, 1994,  Cap. II, item 6, pg. 20.


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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