CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

Março/2006

 

Novos paradigmas de pensamento e sua incidência na teoria e prática gestálticas.

 

Uma das grandes “novidades’ paradigmáticas que as ciências contemporâneas estão propondo é a inclusão do conhecedor no processo de conhecimento.

Contudo, essa re-inclusão foi feita há cem anos por Edmond Husserl. É uma re-inclusão porque a separação entre aquele que conhece e o processo de conhecimento foi artificialmente criada pela metodologia clássica. Husserl apenas sistematizou a re-inclusão através de um rigoroso método de pensamento: O Método Fenomenológico, onde, para minimizar (portanto já aceitando) sua própria influência no processo de conhecer, incluiu nele o esforço para colocar o seu conhecimento prévio e ele próprio entre parêntesis (épochéé).

Este paradigma considera a impossibilidade ontológica de neutralidade objetiva, o que afetou a arrogância e prepotência daquele que está no papel de conhecedor.

A metodologia científica clássica e uma grande quantidade do trabalho acadêmico negam este paradigma exatamente porque ele confronta autoritarismos.

Hoje, contudo, a impressionante evolução das pesquisas e achados de algumas ciências contemporâneas chegaram a um ponto onde não é mais possível manter essa negação.

Assim, estão retornando à fenomenologia em busca de suporte teórico para desenvolver novo paradigma que conflite menos com as suas descobertas.

O problema que estamos enfrentando é que esses recém-chegados estão se comportando como veteranos em nosso paradigma e ingenuamente tentando “modernizá-lo”  mesmo antes de haver compreendido a sua essência e intenção. 

Esse problema não é novo: Perls, Hefferline e Goodman  já disseram na introdução do seu livro: “...para compreender o livro ele deve ter a mentalidade “Gestáltica” e para adquiri-la, ele deve compreender o livro”. Afirmação quase igual a de Husserl: “A Fenomenologia só é acessível ao seu próprio método”.

A Fenomenologia sempre reconheceu a interdependência da pesquisa científica e da Filosofia ( vide a atitude e o trabalho de Merleau-Ponty ).

Como entusiasta desses achados empírico/científicos e da Fenomenologia, estou muito animado e otimista com as possibilidades que ambos podem se oferecer. E muito preocupado com a pressa com que alguns cientistas estão tentando “resolver o problema”. Para mim, por enquanto, é mais do que suficiente registrar a confirmação empírica que as descobertas científicas trouxeram para o nosso paradigma bem como utilizar as novas instigações e estímulos trazidos para nutrir nossas reflexões e ajudar o sempre continuado desenvolvimento de nossa teoria e prática.

Estou certo de que com tempo, respeito mútuo e colaboração, as ciências contemporâneas e a fenomenologia superarão o impasse criado por seu próprio desenvolvimento.

Voltando ao nosso tema: Heidegger e alguns dos seus seguidores (Critelli, 1996) reduziram os paradigmas a duas grandes correntes: A Fenomenológica e a Representacionista ou Metafísica.

Esta divisão pode nos ajudar neste momento confuso e cheio de pretensas novidades.

Usando o paradigma representacionista, olho para você e digo ou penso: “Você é isto ou aquilo”.

Neste exato momento, abandono você e sua riqueza, suas complexidades e o seu mistério. Você que é a sua fisiologia, o seu aprendizado herdado (filogenético) e o seu aprendizado pessoal (ontogenético) em constante interação e desenvolvimento. Enfim, toda a riqueza e complexidade, esse todo que está se transformando continuamente em um processo sem fim de evolução, mesmo neste exato momento de interação comigo e com todos nós. Certamente, nós também estamos vivendo agora idêntico processo.

Isto é demais para a minha insegurança. Para a minha necessidade de controlar. Assim, transformo você em uma representação, criando uma palavra, um conceito, um símbolo para você.

Mas, insisto, somos o resultado, o produto, do equilíbrio criativo entre duas necessidades aparentemente contrárias: auto-preservação e crescimento. E o contato apenas pode acontecer na fronteira em equilíbrio móvel dessas duas necessidades vitais, nesta tênue e instável linha.

O tipo de interação desenvolvido nessa luta de contrários é o nosso processo vital sempre em andamento e caracteriza e distingue o estilo próprio de cada um. A auto-preservação pode, por exemplo, para preservar-nos, nos tornar (nos construir) mais tímidos e fechados. Quando nos sentimos seguros, ousamos tentar um processo de abertura, de desvelamento, que será proporcional ao nosso sentimento de segurança.

Se ficarmos com isso por um momento, lembrando-nos de que nesta simples interação, tudo o que somos (all our background), toda a nossa experiência prévia estão trabalhando, poderemos ter uma idéia da complexidade e riqueza de que estamos falando: o Ser Humano vivendo, protegendo-se e crescendo tanto quanto pode nas circunstâncias. Essa complexidade, essa incrível riqueza que somos, está sempre e continuamente se expressando através de meios não menos ricos e complexos. É uma pretensão ingênua pensar em certezas perceptivas aqui.

Esse fluxo vital que busca a liberdade como o ar, não pode ser apreendido pela razão lógica.

Diante dessas dificuldades e complexidades, e a serviço de minha própria necessidade de conhecer e de minha segurança, substituo o difícil, instável e concreto ser vivo que você é pela minha idéia sobre você (sobreismo de Frederick Perls), que é uma representação, um símbolo, um diagnóstico de você.

Agora, posso encontrar uma “verdade” estável, uma certeza e desenvolver o meu conhecimento a respeito desse ser “congelado” que criei para representar você.

Agora, então, eu tenho o PODER, eu sei, eu tenho a verdade, eu tenho a certeza. Assim, posso impô-la a você.

Há conseqüências óbvias: na política, essas certezas, assim obtidas, levaram e ainda estão levando o mundo para o desastre; estão devastando a natureza, mantendo e aumentando as desigualdades. Todos os contendores, os beligerantes de todas as concepções e credos estão do lado da razão, estão com Deus, com a humanidade e a serviço do bem estar do mundo. Ambos ou todos os antagonistas não têm dúvidas a respeito de suas verdades.  

Assim, cheios de verdades e de razão, eles podem, eles DEVEM modificar ou mesmo esmagar o outro, aquele outro que, naturalmente, representa o mal, o lado errado, o próprio Diabo.(Preste atenção ao noticiário do dia).

Em nosso dia a dia, na família, na igreja, ou em nossos consultórios a essência e as raízes da violência são as mesmas, mesmo que sua ocorrência raramente seja tão dramática. Se nossos sensores estiverem bem ajustados, poderemos ver os perversos efeitos das verdades definitivas (certezas, crenças, preconceitos, dogmas) em um vasto número de nossas interações diárias. Veja com esses olhos filmes como: Beleza Americana, La Pianiste, O Corpo, A Última Ceia, Matrix, Abril Despedaçado e tantos outros.

É muito difícil observar os paradigmas fenomenológico (absolutamente democrático) ou representacionista ou metafísico em estado puro.

Estas duas correntes de pensamento estão misturadas em nossa cultura e, portanto, em nós mesmos. Parece que precisamos de ambas. P. Ex., sem a representatividade das palavras, não poderíamos estar agora tentando nos comunicar. O problema tem sido o mau uso que temos feito das um dia necessárias representações, permitindo que elas se fixassem e se transformassem em dogmas intocáveis, nos tirando a liberdade e o poder de criadores de sentido. Paciência, compreensão e amor, bem como pensamento e treinamento rigorosos são necessários para desmisturá-las

Estou certo de que, se tivermos claro em nossas mentes estas duas principais correntes de pensamento em nós incrustadas, teremos um poderoso instrumento para reduzir as nossas dificuldades ao analisar qualquer coisa, qualquer “novidade” que nos seja apresentada.

 

Texto traduzido do original em inglês – New paradigms of thought and their incidence in Gestalt theory and practice – proferido em mesa redonda durante a Conferência Inaugural da Associação Internacional de Gestalt Terapia, realizada em Montreal, Canadá, em 2002

 

Referências e Bibliografia

(1)- Perls, Frederick S., Hefferline, Ralph and Goodman, Paul – Gestalt Therapia – Excitamento e Crescimento na Personalidade Humana - Ed. Summus em 1997;

(2)- Maturana, Humberto R. and Varela, Francisco – A Àrvore do Conhecimento  – As bases biológicas do entendimento humano ; Editorial Psy, 1995;

(3)- Naturalizing Phenomenology – issues in contemporary phenomenology and cognitive science – Edited by Jean Petitot, Francisco J. Varela, Bernard Pachoud, Jean-Michel Roy – Writing Science, Stanford, 1999;

(4)- Ribeiro, Walter – “Existência >>Essência – desafios teóricos e práticos das psicoterapias relacionais, Ed. Summus, SP, 1998. (Esse livro, atualizado, está em processo de publicação, sob o título: Human Interactions – can we improve them? Ed. Gestalt Journal Press, N.Y.);

(5)- ---“Buscas em Gestalt Terapia, Palestra no “Centro de Estudos de Gestalt de S.Paulo, 1987;

(6)- ---“Em que Acreditamos?” – Segundo Encontro Nacional de Gestalt Terapia, S.Paulo, 1989;

(7)- Critelli, Dulce Mára – Analítica do Sentido – uma aproximação e interpretação do real de orientação fenomenológica – educ editora brasiliense, 1996;

(8)- Merleau-Ponty, Maurice – Le Visible et L’Invisible – Gallimard,, 64 e Perspectiva, Brasil, 92;

(9)- --- A Natureza, Ed. Martins Fontes, S.Paulo,2000;

(10)- Santin, Silvino – Pensamento Caminho ou Pensador Caminhante – Um Perfil de Maurice Merleau-Ponty,  pgs. 489/512 da Revista do Centro de Ciências Sociais e Humanas da UFSM – Universidade Federal de Santa Maria, 1980;

(11)- Bornheim, Gerd – Introdução ao Filosofar – o pensamento filosófico em bases existenciais -Ed. Globo, Brasil;

(12)- Gusdorf, Georges – Mythe et Methaphysique – Introduction à la Philosophie, Flamarion, 1953.

(13) Varela, Francisco and Shear, Jonathan (orgs) – The View From Within – The First Person Approaches to the study of consciousness – Imprint Academic, 2000;

(14) Varela, Francisco J. –  Conhecer – As Ciências Cognitivas: Tendências e Perspectivas, Instituto Piaget, Portugal, sem data;

(15) “  “  - Ethical Know How: Action, Wisdom and Cognition – Writing Science, Stanford University Press, 1999;

(16) Geertz, Clifford – Available Light: Anthropological Reflections on Philosophical Topics – Princeton University Press, 2000;

(17) Maturana, Umberto R. – A Ontologia da Realidade – (Orgs.: Cristina Magro, Miriam Graciano e Nelson Vaz – Editora UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais, 1999.

 


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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