CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

Maio/2006

 

A PRÁTICA DA ÉTICA COMO AUTO-AJUDA**

          O comportamento ético costuma ser entendido como restrito a atitudes de ajuda e em conformidade com alguma filosofia moral pré estabelecida, credenciando o seu autor perante o mundo terreno e/ou extraterreno, havendo, pois, uma terceira “pessoa” e/ou intenção envolvida na relação ou pelo menos a expectativa de algum retorno benéfico vindo de fora  para o autor da ação. O foco deste trabalho são, entretanto, os efeitos e o retorno automático recebido pelo autor da atitude ética, independentemente da interferência de outros fatores além da própria atitude, ou seja, ressaltar que o comportamento ético é em si altamente benéfico para quem o pratica independendo de possíveis recompensas externas, uma vez que ao praticá-lo desencadeamos processos internos saudáveis para a nossa saúde física, psicológica  e espiritual.

         A ação ética assim empreendida está, dessa forma, mais vinculada a uma sabedoria existencial que nos aproxima de “nosso altruísmo biológico natural...que é puramente uma força biológica comum a todos os seres sociais” (Maturana e Varela, 1995, pg.23), do que a qualquer comportamento normativamente adequado.

            É o “fazer o bem sem olhar para quem”, máxima de nosso senso comum ou de nossa sabedoria milenar (que tem inspirado o comportamento de muitos há milênios, embora esses muitos constituam minoria em nossas sociedades).

         Comportamento e atitude diametralmente opostos à desenfreada corrida individualista da maioria, onde nossas ações são impulsionadas mediata ou imediatamente para levar alguma vantagem, pelo espírito “bancário”, como diria Paulo Freire, espírito sempre atento a possíveis ganhos imediatos e visíveis sempre que nos movemos, mesmo que em pensamento.

         É o “dá lá, toma cá” que motiva e impulsiona a imensa maioria de nossas atitudes e ações. A crença nesse mercantilismo relacional é tão profunda, arraigada e não consciente que, freqüentemente, achamos que podemos até comerciar com Deus!, como, por exemplo, quando dizemos: “Quem dá aos pobres, empresta a Deus”. 

         Não sei, nem mesmo sei se é possível saber, quando e como começou a instalar-se no comportamento humano essa forma competitiva/defensiva/mercantilista e contabilista de relacionarmo-nos uns com os outros, com o mundo e conosco mesmos. O seu surgimento perde-se num passado muito distante e, por isso, costuma até ser considerado como fazendo parte da “natureza” humana, o que sempre foi negado pela minoria citada acima. Negação que vem ganhando força nos meios científicos notadamente nas últimas três décadas a partir de descobertas neurobiológicas (ver trabalhos de Humberto Maturana e Francisco Varela bem como a extensa bibliografia sobre as mais recentes pesquisas, disponível em seus livros). O facilmente observável é a intensidade e a abrangência com que desde muito cedo somos pressionados (forçados mesmo) a nos bancarizar, notadamente através de nossos entes queridos que não querem nos ver “deixados para trás” na cruel competitividade endêmica que se instalou em nossas sociedades, onde temos que ser “vencedores” não importando no quê ou se temos alguma motivação intrínseca para as disputas que somos forçados a encarar. Prática geral que deixa para uma minoria de pesquisadores e cientistas, distantes do grande público, o trabalho de avaliar os custos e possíveis seqüelas de tal modo de estar com os outros, com o mundo e até consigo mesmo.

         A mídia, mantida pelo interesse imediato de um pequeno e poderoso segmento da sociedade, tem exercido brilhantemente o seu papel de incentivadora e mantenedora desse mercantilismo imediatista.

         Apesar dos efeitos nocivos e indesejáveis dessa radicalização individualista para a saúde dos indivíduos e da sociedade serem óbvios e visíveis, a maioria de nós teima ignorá-los e/ou buscar as razões desses efeitos em outro lugar, como a pessoa que perdeu um objeto no seu quarto escuro e sai à sua procura em lugar mais claro e descompromissado, “onde é mais fácil encontrá-lo”. Encontrar o que? Certamente não exatamente o que perdemos, mas algo mais desejável por nosso Narciso.

         É o que temos feito, por exemplo, quando buscamos as raízes do crescimento do alcoolismo, da drogadição e da violência, que certamente estão nos quartos escuros e tóxicos de nossas relações, mas teimamos procurá-los em lugares distantes de nossa responsabilidade e menos comprometedores para a nossa imagem e auto-estima, lugares considerados “mais claros” por serem menos próximos e, assim, de menor envolvimento e perigo pessoal. Dito de uma forma mais contundente: não queremos ou não temos coragem de procurá-las nos becos escuros de nossa tóxica forma cotidiana de nos tratarmos uns aos outros em nossas relações e até de examinarmos com isenção como tratamos a nós mesmos.

         O custo dessa evitação/negação/cegueira tem sido altíssimo.

         E o que dói constatar é que esses altos custos que temos pago e as seqüelas que carregamos não são inevitáveis, uma vez que esses comportamentos competitivos, agressivos, defensivos e anti vida não correspondem a nenhuma natureza humana.

         A minoria que vem se comportando de forma oposta à dominante e sendo, portanto, não interesseira, não imediatista, não egoísta e não bancária, vem nos dando o testemunho do seu bem estar, de sua saúde física e mental, de sua tranqüilidade e felicidade, há milênios. Qual o segredo?

         As conseqüências desses dois modos opostos de relacionarmo-nos e existirmos tem implicações de amplitude e alcance além do entendimento atual de nossas ciências que, entretanto, nas últimas décadas, já conseguiram detectar e medir importantes diferenças reacionais fisiológicas, psicológicas e espirituais que são desencadeadas nos sistemas vivos, notadamente nos seres humanos, quando afetados por um desses modos com que nos tratamos e/ou somos tratados.

         A riqueza, complexidade e sutileza de nossas interações são muito mais abrangentes e amplas uma vez que “temos uma prontidão-para-ação adequada para cada situação específica vivida” (Varela, 1999, pg.9).

         Entretanto, para o objetivo deste trabalho e tentando tornar o assunto mais palatável, vamos nos restringir às duas reações orgânicas dos seres vivos, já amplamente estudadas e medidas (notadamente nos seres humanos) por pesquisadores ocidentais e que são a preocupação, o foco e o grande interesse de atividades oriundas do Oriente como, por exemplo, a prática da meditação.

         Falo do conjunto de reações orgânicas desencadeadas em nós quando, por exemplo, o ambiente nos é plenamente favorável e acolhedor, “de consideração positiva incondicional” (como preconiza Carl Rogers), de “confirmação” (de acordo com Martin Buber), por exemplo. Esse clima acolhedor, ameno, de amor e de aceitação nos leva (desencadeia em nós) a um conjunto de reações a que os cientistas denominam de “resposta de relaxamento e que, além de ser visível para qualquer observador, pode e tem sido medido (especialmente por cardiologistas e oncologistas)  por alterações fisiológicas acusadas, entre outras formas de medir,  no eletroencefalograma, na reação psico-galvânica (eletricidade na pele), na alteração da produção de adrenalina, noradrenalina, na alteração dos batimentos cardíacos, consumo de oxigênio e etc. Enfim, há uma melhoria do funcionamento geral do indivíduo e o organismo todo pode “entregar-se”, por sentir-se seguro como um animalzinho protegido em sua toca. Não paradoxalmente, há uma melhora geral da pessoa e suas reações passam a ser mais rápidas. Logo, a sua capacidade de sobreviver e bem é aumentada pela melhora geral na reatividade do sistema.

         A esse conjunto de reações desencadeadas quando somos e nos sentimos plenamente acolhidos e sem o mínimo sentimento de ameaça ou de controle e pressão externos (claros, embutidos, sugeridos, percebidos, sentidos ou presentidos) – opõe-se o conjunto de reações desencadeadas e opostas a que chamamos de prontidão para reações de ataque/fuga, quando nos tornamos tensos, pelos eriçados, olhos esbugalhados e exacerbação de todas as reações descritas no parágrafo anterior, além de muitos outros sintomas que ainda escapam à nossa observação imediata. Enfim, há uma intensa preparação para a defesa ou para o ataque, com a óbvia queima das energias acumuladas e grande desgaste físico e emocional.

         “A reatividade do sistema nervoso articula-se com a reatividade do sistema endócrino e do sistema imunológico (Maturana, 1999, pg.329).

         Esses dois conjuntos antagônicos de reações orgânicas foram desenvolvidos pelos seres vivos durante milhões e milhões de anos e são absolutamente necessários para lidarmos com competência com as mais variadas e diferentes situações existenciais de nosso cotidiano. Talvez seja mais fácil imaginarmos esse funcionamento de forma mais pura no instável e perigoso dia a dia de nossos mais primitivos ancestrais. No entanto, é possível (e não tão difícil) a observação desses mal estares e bem estares em nossas mais corriqueiras e “normais” relações familiares, profissionais e até lúdicas: basta desenvolvermos um pouco a nossa atenção para perceber (e registrar) as guerrinhas surdas que permeiam e instigam as, por vezes, súbitas mudanças de respostas comportamentais mesmo quando se apresentam com as máscaras da bondade e das boas intenções.

         São, enfatizemos, respostas específicas desenvolvidas pela nossa sabedoria milenar para enfrentarmos as mais variadas situações existenciais também específicas.

         Todavia, o mundo mudou, os grandes animais predadores foram extintos, as relações tornaram-se mais sutis e complexas, a sociedade também e, com isso, as situações perigosas e mesmo as amorosas, se tornaram cada vez mais difíceis de perceber com clareza, de discernir e de avaliar; a nossa própria fera de superfície foi amansada, mas o homem continuou a ser o principal inimigo do homem. Só que um inimigo cada vez menos claro, cada vez mais disfarçado, manhoso, ardiloso, hipócrita e até traidor. Claro, o nosso sábio interior desenvolveu todo um sistema de respostas a essa nova situação. Armou-se psicologicamente como nunca e vivemos com medo de tudo e de todos. O dito popular de que “em rio que tem piranha, jacaré nada de costas” expressa esse sentimento e essa atitude de insegurança geral profundamente instalada em nossas culturas.

         Estado de espírito que nos leva a comportamentos parecidos com o do “ouriço caixeiro” que, consciente de sua fragilidade, enche-se de espinhos protetores e não percebe o que esses espinhos desencadeiam no mundo que o cerca. Não sei se ele, como nós, se queixa da solidão e do isolamento conseqüentes do próprio sistema de defesas (espinhos, armaduras, couraças) e dos limitados espaços existenciais que restam para “viver nessa segurança”. Quanto a nós, desenvolvemos um dos grandes dilemas humanos: por medo de sermos feridos, isolamo-nos uns dos outros e, em seguida, nos queixamos da solidão. 

         Sabe-se hoje que a maioria de nós recebe mensagens bruxas, ambíguas, de amor contraditório ou de amor condicional (que não é amor) ou mesmo de rejeição (explícita ou não) desde o útero. (ver, entre tantas outras, a importantíssima obra de  Álice Miller: a meu

ver, a mais profunda, contundente e criteriosa pesquisa, reflexão e análise sobre as raízes de tanta defensividade e violência).

         Nesse ambíguo e obscuro clima, não podemos relaxar completamente; e cada dia os nossos estados de tensão nos incomodam mais, exaurem as nossas forças, minam o nosso bem existir.    

         Todos nós, em menor ou maior medida, também somos ambíguos e até incongruentes em nosso modo de relacionar em função da dubiedade e da incongruência do meio em que nos desenvolvemos, em que nos fizemos (fazemos). A esmagadora maioria de nós foi criada e vive com uma quantidade insuficiente de amor e de aceitação. (Somos amados e confirmados com a condição de que façamos e sejamos o que se deseja e é prescrito para nós, o que, claro, não é o amor nutritivo e incondicional de que necessitamos para o nosso desenvolvimento diferenciado e único).

         Com as crescentes complexidade e ambigüidade em nossas relações e a conseqüente dificuldade de avaliar até o que está acontecendo em torno de nós, muito mais difícil se torna desenvolver o tipo de resposta  mais adequada para cada momento. Assim, desenvolvemos um estafante modo de ser e de estar no mundo a que Perls e outros, 1997, chamam de “desequilíbrio crônico de baixa tensão” (cap. II).

Maturana registra que muitas patologias surgem na ruptura da coerência com a circunstância...e “há muitas doenças que são, na verdade, distorções do fluir harmônico do sistema imunológico” (1999, pg.330)

Não podemos, em nossas relações (mesmo as mais corriqueiras), relaxar adequadamente em virtude dessa ambigüidade contextual e, por outro lado, se ficássemos permanentemente “em prontidão”, sempre atentos e prontos para responder a todas as provocações, desqualificações, cutucadas e “alfinetadas”, com as quais estamos sempre atormentados, desencadearíamos também contra nós (além dos processos internos) mais agressões, num desgaste crescente até que nossas forças se exaurissem em pouco tempo e, assim, também poderíamos ficar à mercê dos acontecimentos e/ou de especialistas como, infelizmente, tantos de nós ficam, por exemplo, quando a síndrome do pânico nos acomete.

         Nada mais normal, justo e óbvio que fôssemos perdendo a Fé e a Confiança nos outros, no mundo e em nós próprios (“onde foi que errei?”, é uma das questões com que nos atormentamos). A nebulosidade das situações, o contexto não confiável, os interlocutores dúbios, foram desenvolvendo a nossa própria confusão e não clareza, estabelecendo-se um cruel e crescente círculo vicioso: quanto mais dúbias as situações, mais dúbios nos tornamos, nutrindo o círculo. Vamos nos tornando ou agressivos inveterados ou submissos hipócritas e o nosso comportamento cada vez se parece mais com o do “brigador de rua”. Desconfiamos de tudo e de todos, o que nos torna os prepotentes/medrosos ou os defensivos/culpados/ compulsivos que perambulamos por aí.

         Dessa forma, a circularidade viciosa, essa cruel cibernética, vem funcionando contra nós. Parar esse nocivo e angustiante processo é quase impossível e desacelerá-lo, muito difícil: seria como tentar parar bruscamente um veículo pesado em dia de chuva.

         Apesar de estar cada vez mais consciente da toxidez de nossas relações, o meu otimismo continua a crescer quando penso no futuro da humanidade; e isso não é produto de nenhum romantismo ingênuo, mas sim de sólidas convicções científicas e filosóficas.

         Esse otimismo, inspirado e alimentado há décadas por aqueles que sempre acreditaram (e refletiram teorizando, pregaram e exerceram) na possibilidade de se viver com mais paz, harmonia, amor e felicidade - continua a afirmar que esse comportamento predatório que se instalou em nossas culturas não corresponde a nenhuma natureza humana, o que vem sendo crescentemente confirmado por recentes pesquisas científicas, notadamente neurobiológicas.

        Assim, contra todas as evidências das estatísticas meramente constatatórias que generalizam para “natureza” humana o canibalismo que governa nossos atos, já podemos afirmar, agora com mais base científica, que o Ser Humano é na sua essência e sabedoria mais íntima colaborativo e que, por isso, se importa com os outros, mesmo que esse se importar seja mais visível em estado puro apenas em situações extremas como quando você, por exemplo,  “salva um bebê” (O exemplo do bebê é citado em Varela, 1999, pgs. 27 e 67). Se você já passou por alguma situação parecida, se lembrará como se sentiu (e, com os conhecimentos agora disponíveis, poderá imaginar o quanto aquele bem estar sentido foi  benéfico para a sua saúde física, psicológica e espiritual). Ou seja, a sua própria ação ética já desencadeia em você, automaticamente, incalculáveis efeitos benéficos, principalmente ajudando você e àqueles com quem convive a se desvencilharem das maléficas pré concepções e dos péssimos hábitos relacionais aos quais estamos acorrentados há milênios.

        Por conseguinte, não podemos esquecer, se pretendemos promover alguma melhoria, que esse “estado de graça” por si só desencadeia em nós uma rede de reações extremamente benéfica para a nossa saúde que, por sua vez, reforça o “estado” inicial e assim por diante, estabelecendo uma circularidade auto-nutritiva que alimentará o bem estar de todos, contaminando o nosso meio ambiente beneficamente e, assim, fazendo dele um aliado para o fortalecimento dessa cibernética positiva.           Esse comportamento, que vem de nosso mais profundo íntimo, é espontâneo, não intencional, não deliberado; é uma rede de respostas “inteira”, global e corporificada. Portanto, livre de qualquer cálculo. Já existe em nosso sistema, embora mais adormecido em alguns de nós e menos em outros. O importante é que não precisamos inventá-lo e muito menos que alguém o “instale” em nós. Para o seu desenvolvimento, basta que haja contexto favorável (ver Ribeiro, 1998, especialmente capítulos 4,5,6 e 8).

        Não é demais insistir na lembrança de que o mecanismo funciona com a mesma eficácia e rapidez, mas de modo inverso, quando estamos nos atacando ou sendo atacados de alguma forma, mesmo que o nosso ataque seja contra nós mesmos ou despercebido (não consciente) por parte de todos.

        No estado de espírito privilegiado que se segue a uma ação ética (limpa e desintencionada), nos tornamos mais do que geralmente somos e inclusive a nossa reflexão crítica se aperfeiçoa e agudiza, o que nos capacita a tirar de suas profundas trincheiras, algumas das pressuposições madrastas e anti humanas sobre nós mesmos e nossas relações, que nos foram transmitidas e que se instalaram em nós desde sempre, pressuposições às quais, por isso, estamos agrilhoados desde que temos memória.

         Portanto, por ser uma atitude natural de nosso próprio ser, de nossa própria forma de organização, não precisamos que um bebê caia em um poço para termos a oportunidade de recuperar, desenvolver e exercer essa solidariedade humana inata que nos leva a esse bem estar e a uma vida melhor. Basta permanecermos atentos e vigilantes para como estamos tratando uns aos outros e a nós mesmos, ou seja, qual o tipo de relacionamento que está preenchendo o nosso espaço existencial e constatarmos que quantidade de solidariedade humana acontece à nossa volta todos os dias ou não. Infelizmente, essa pesquisa no leva também à crescente conscientização de uma defensividade profundamente arraigada que não permite ou dificulta a percepção de qualquer ato de boa vontade que circule em nossas relações, defensividade que costuma nos levar a uma des confiança das possíveis intenções daqueles que o estão praticando, desqualificando-as e invertendo, assim, a cibernética daqueles que começaram com boa vontade. O que é cruel, desumano e suicida para todos e só acontece porque a nossa Fé e Confiança nos outros, no mundo e até em nós mesmos já estão profundamente comprometidas há muito, muito tempo.

         Essa desconfiaça é reforçada porque “essa solidariedade amorosa e a possibilidade de preocupação para com os outros, presente em todos os humanos, é usualmente misturada com o senso de ego e assim é confundida com a necessidade de satisfazer as próprias ambições por reconhecimento e auto-validação. Categorias que incluem ‘muita gente boa’ que nos circunda ” (Varela, 1999).

         Nesse caso, é claro, conseguimos apenas enganar as nossas opiniões racionais bem como àqueles que, como nós, se habituaram a viver no “como se”, no fazer de conta, no parecer e não no ser. A sabedoria de nossa organização organísmica, o nosso velho sábio interior, não registram essas operações de superfície e só desencadeiam os benéficos processos interiores e sociais quando não há realmente nenhum comércio envolvido, não importando se o autor da ação tenha ou não consciência do seu comerciar.

         Insistindo: nessa atitude ética, nessa real e limpa solidariedade humana, não há lugar para como se, para nenhuma enganação, mesmo que seja a auto-enganação penosa e sabiamente desenvolvida por nós, para melhor sobrevivermos em ambientes desfavoráveis, onde (e somente onde) elas têm sentido e funcionalidade. A milenar sabedoria organísmica não entra na engenhosidade dos ardis por ela mesma desenvolvidos para garantir a nossa sobrevivência imediata em ambientes hostis . Ela sabe as razões que a levaram a desenvolvê-los e também sabe os custos que pagou (paga) por utilizá-los. Assim, quando nos livramos de pressuposições racionais e permitimos que essa sabedoria, assim livre e desimpedida, assuma o processo decisório, ela o fará com prudência e discernimento.

         A sobrecarregada sabedoria apenas racional costuma (precisa) “esquecer-se” seletivamente de muita coisa, de muito entulho acumulado.

         Insistindo, repetindo e insistindo, não há como enganar essa sabedoria que foi desenvolvida por milhões de anos pelos seres humanos e talvez por bilhões de anos pelos sistemas nervosos mais simples que nos antecederam. Apesar disso, as nossas culturas, notadamente a nossa arrogante e prepotente civilização ocidental, teimam em achar que podem controlar, manipular e distorcer essa profunda natureza.

         Há séculos vimos tentando monitorar, “melhorar” modificar ou “curar” os outros sem sucesso. Tentativas que sempre se dão a partir de algum padrão pré estabelecido. E como esses “outros” também estão sempre tentando, a partir de outras “verdades” também pré estabelecidas, fazer o mesmo conosco, o “estado de guerra” se instalou e permanece em nossas vidas, impedindo o indispensável e saudável respeito que todos queremos e que é indispensável para o nosso desenvolvimento pessoal  e o de nossas relações (Ribeiro, 1998, cap. 3).

         Portanto, a única saída visível e possível é tentarmos aprender com e imitar os sábios que já perceberam e viveram (vivem) harmoniosamente com essa sabedoria. Eles são muitos (embora minoria em nossas culturas, notadamente na ocidental). Certamente qualquer de nós pode ter contato ou acesso ao pensamento e ao modo de existir de alguns deles e é fácil verificar como a ética de suas vidas é benéfica para eles próprios bem como para aqueles que deles se aproximam.

         Parece que, devido a mais alguma das inúmeras pré suposições [“que vivem em nós na dimensão do esquecimento, sem se saber esquecidas” (Bornheim, 1983)] ou algum vício cientifista e cultural que nos governam,  os ocidentais estávamos esperando que a ciência chegasse a essa sabedoria. Alguns cientistas de ponta chegaram. Vamos entrar em contato com os seus achados e a partir daí nos preocuparmos um pouco mais uns com os outros, conosco mesmos e com o destino de todos?

 

Bibliografia:

- Maturana, Humberto e Varela, Francisco: “A Árvore do Conhecimento”, Ed. Psi, 1995;

- Maturana, Humberto – “A Ontologia da Realidade”, Ed. UFMG, 1999, Orgs.: Cristina     Magro, Miriam Graciano e Nelson Vaz;

- Varela, Francisco : “Ethical Know-How (Action, Wisdom, and Cognition)” – Writing Science Stanford University Press, Ca., 1999;

- __________ : “Conhecer – As Ciências Cognitivas: Tendências e Perspectivas”   Instituto Piaget, Portugal (sem data);

- Varela, Francisco e Shear, Jonathan (Eds.):  “The View From Within (First-person approaches to the study of consciousness”  - Imprint Academic, UK, 2000;

- Miller, Alice – “O Drama da Criança Bem Dotada [Como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos”]  - Ed. Summus, 1997;

- _________ - “For Your Own Good(Hidden cruelty in child-rearing and the roots of violence), Farrar, Giroux – 1984  (trata-se de uma severa crítica aos sistemas pedagógicos);

- _________ - “Thou Shalt Not Be Aware(A traição da sociedade para com a criança) – Farrar – Giroux , 1984  (crítica às psicoterapias);

 - _________ -   “Breaking Down The Wall of Silence” (The Liberating Experience of Facing Painful Truth”)  A Meridien Book, 1993;

- Perls, Frederick, Hefferline, Ralph e Goodman, Paul – “Gestalt Terapia”, Summus Ed, 1997;

- Ribeiro, Walter – “Existência >> Essência – Desafios Teóricos e Práticos das psicoterapias Relacionais”, Ed. Summus, 1998;

- Bornhein, Gerd – “Introdução ao Filosofar – O Pensamento Filosófico em Bases Existenciais,  Ed. Globo, Porto Alegre, 1983;

- Laing, Ronald -  “La Politique de la Familie”, Stock + Plus, France, 1979;

- Freire, Paulo - “Pedagogia da Autonomia, (Saberes necessários à prática educativa) – Ed. Paz e Terra 1976;

- Mc Wilhams, Peter – “The TM Program: A Basic Handbook – A Fawcet Crest Book, 1976.

_________________

** Palestra proferida  na Câmara dos Deputados, no dia 25/06/2001 e transmitida pela TV Câmara, no dia 25/08/2001. Solicitação de reprise da palestra pelo telefone 0800 619619 (Câmara dos Deputados.


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

   CEGEST - DF ® - Todos os direitos reservados - www.cegest.org.br