CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

Junho/2006

 

O “ESQUECIMENTO” DAS ORIGENS HOLÍSTICAS NA TEORIA E PRÁTICA DA GESTALT-TERAPIA[1]

 

Venho praticando e refletindo Gestalt-terapia há mais de uma década e é a segunda vez que compareço a um congresso para falar sobre o assunto, sempre a convite de Roberto Crema. Por feliz coincidência, em maio de 1980, no Congresso de Análise Transacional realizado aqui mesmo neste Centro de Convenções, foi a primeira vez que tornei públicas as preocupações que ainda me afligem em relação à Gestalt-terapia que se está praticando.

 

Assim, é com redobrado prazer que volto a aceitar a oportunidade de compartilhar esses, agora, mais de sete anos de dúvidas, tropeços, solidão inicial aqui no Brasil e, mais ainda, como me sinto hoje: mais acompanhado e, principalmente, mais fortalecido, depois de ter voltado à Filosofia e de ter entrado em contato, aqui e no exterior, com Gestalt-terapeutas norte-americanos que estão com as mesmas dúvidas, também fazendo críticas severas ao nosso trabalho e, por vias diferentes, parecidas ou praticamente iguais, tentando resolver o impasse em que a Gestalt-terapia se meteu, impasse que, se não considerado seriamente e a tempo, comprometerá, como já está comprometendo nos E.U., a própria sobrevivência da nossa abordagem.

 

Assim, coloquei aspas em “Esquecimento” porque acredito, com firmeza crescente, que a quase totalidade das pessoas que se auto-intitulam Gestalt-terapeutas jamais tenha se inquietado profundamente nem mesmo com o próprio significado da palavra Gestalt e as implicações práticas dele decorrentes. Não atentam, pois, para colocações simples como, por exemplo, esta de Merleau-Ponty: “Parece difícil contestar que a Psicologia da Forma (Gestalt) transtorna aquilo que se poderia denominar ontologia implícita da ciência, obrigando-nos a rever nossa concepção das condições e dos limites de um saber científico” (O metafísico no homem. Textos selecionados / Maurice Merleau-Ponty. São Paulo: Abril Cultural, 1980, p. 179, grifo nosso [Os pensadores]).

 

É claro que a ênfase, antes de procurar culpados, é de nos conscientizarmos de que nossa prática sem essas adequadas revisão e compreensão teóricas – portanto sem clareza sobre a ontologia que nos fundamenta – pode tornar-se e tem se tornado uma prática superficial, ávida por técnicas e alianças esdrúxulas com outras abordagens. Abordagens que freqüentemente se fundamentam em teorias opostas sobre o que seja o ser humano e, por conseqüência, têm visões igualmente opostas sobre saúde, doença e, obviamente, sobre terapia.

 

Tentarei resumir nosso propósito em dois tópicos:

 

1º - Tentar compreender a explosão, prematura, do fenômeno GESTALT-TERAPIA e as inevitáveis distorções ocorridas por isso; e

2º - Promover a clareza crescente de nossa prática através de maior compreensão de nossas origens filosóficas e científicas.

 

1º - Nesse tópico, pretendo apenas fazer algumas considerações a respeito de eventos históricos que, acredito, contribuíram para uma muito rápida e inconsistente explosão da Gestalt-terapia.

 

Creio que um bom começo é mencionar o advento do nazismo – movimento surgido para enfrentar a crise por que passavam (e passam ainda) as ciências e a filosofia impregnadas de intelectualismo e empirismo dicotomizantes – que interrompeu a grande efervescência cultural da Alemanha dos anos 1920-1930.

 

Com a perseguição nazista, os grandes pensadores e cientistas alemães ou se espalharam pelo mundo (como a maioria dos judeus), ou foram afastados das universidades, dos meios de comunicação e ensino por suas idéias (como, por exemplo, o fenomenólogo Edmund Husserl).

 

Dessa “peregrinação” participaram os Perls – Laura e Frederick – que fugiram primeiro para a Holanda, depois para a África do Sul, os Estados Unidos e, finalmente, para o Canadá (agora só Frederick), sempre fugindo de algum tipo de autoritarismo e à procura de maior liberdade.

 

Nos Estados Unidos, inicialmente em Nova York, onde Laura permaneceu e ainda se encontra, cercaram-se de um pequeno grupo de intelectuais que os ajudaram a desenvolver o pensamento e a prática gestálticas, lenta e penosamente.

 

Esse desenvolvimento, diz Laura, teve, mais tarde, aceitação por parte de seu grande mestre comum, Kurt Goldstein, mas foi peremptoriamente rejeitado pelos mestres da Psicologia da Gestalt  (entrevista concedida a James S. Simkim. Big Sur, 1976, gravada em videocassete).

 

Mas, com ou sem a bênção dos antigos mestres do casal, a Gestalt-terapia estava fadada a uma grande explosão de popularidade, e o principal fator responsável por essa explosão – bem como pelas suas maiores distorções e desvios – ocorreria na Califórnia dos anos 1960, sedenta de coisas novas, de clima de contestação, onde tudo que parecesse contrapor-se ao excesso de intelectualismo da época era bem-vindo.

 

Nesse ambiente de contestação a tudo e a todos, a Gestalt-terapia teve aceitação e aplausos fáceis e desmedidos, por ter sido vista como a grande possibilidade de liberalização da psicoterapia frente à ortodoxia da psicanálise da época.

Nesse clima, o narciso de Fritz inflou-se e, empolgado com os aplausos, passou até a fazer demonstrações “terapêuticas” teatrais para grandes auditórios, notadamente no Esalem Institute, em Big Sur, Califórnia.

 

A conseqüência natural e lógica desse clima de euforia e descompromisso com posturas mais sérias foi a proliferação de terapeutas superficiais e avessos a qualquer tipo de aprofundamento, principalmente teórico: nos Estados Unidos, são os hoje denominados “Fritzen” (“Fritzinhos” para nós) – imitadores ferozes da superfície dessa faceta superficial do trabalho de Frederick S. Perls. Daí não ser surpreendente Gary Yontef ter escrito em 1981: “Os Gestalt-terapeutas em geral são mal treinados, pouco modestos e narcisistas” (Mediocrity or excellence: an identity crisis in Gestalt Therapy training. ERIC/CAPS, University of Michigan, ed. 214, 1981, p. 62).

 

Infelizmente, essa foi a Gestalt que ganhou terreno, espalhou-se pelo mundo (o que ainda está acontecendo) e, em grande medida, chegou até nós. Essa superficialidade dos Gestalt-terapeutas faz com que sejamos presas fáceis das armadilhas do pensamento tradicional, apriorístico, substancialista, dogmático, autoritário e, principalmente, dicotomizante e alienante, contra o qual as grandes correntes unificadoras, holísticas, vêm lutando há décadas. Somos presas fáceis porque, além de superficiais, temos esse autoritarismo, esse dogmatismo profundamente arraigados por meio de nossa educação. Praticados desde Salomão e desde o primeiro dia de nossas existências, eles ainda dominam, qual erva daninha, a quase totalidade de nossos métodos de educação domésticos e públicos.

 

A descrença básica no ser humano, suporte e corolário desse dogmatismo autoritário, transparece cristalina, por exemplo, nas menores atitudes terapêuticas. Notem bem: estou falando da prática, da postura terapêutica, e não do discurso; este parece já estar mais ou menos contaminado por idéias liberalizantes.

 

O exemplo mais comum e simples que me ocorre para demonstrar esse ranço é a tendência – quase uma compulsão – de não se permitir em terapia, principalmente em terapia de grupo, que a pessoa realmente entre em luto, sofra por suas perdas, sua “feiúra”, sua “burrice”, sua inadequação, etc. etc. Quando isso está para acontecer, logo surge um procedimento “salvador”. Por exemplo, pede-se à pessoa que olhe para as outras (abandone-se), pergunte o que elas acham etc., o que invariavelmente desemboca na desconfirmação da percepção de sofrimento ou inadequação, o que, a nível mais profundo, pode significar a desconfirmação da própria pessoa que percebe como um todo. O grupo – que freqüentemente por motivos pessoais óbvios dos seus componentes, geralmente é cúmplice nessa evitação de sofrimento, nessa fuga – passa a “convencer” o infeliz de que não é infeliz, o chato de que não é chato, e assim por diante, para grande alívio do terapeuta que não pode suportar sofrimento ou agressividade e para quem a velha atitude “pedagógica” da terapia é a grande tábua de salvação diante da ameaça de irrompimento de suas próprias neuroses.

 

A filosofia óbvia subjacente a essa atitude, coerente com a educação que sofremos, é a de que o ser humano é incapaz de gerir-se, de encontrar a melhor resposta dentre as possíveis nas circunstâncias e, por conseqüência, deve ser controlado, educado, reeducado, manipulado. Isso é atestado facilmente por alguns exemplos das fantasias catastróficas de educadores, pais e terapeutas diante de situações cotidianas, tais como:

 

“se eu não controlar essa menina ou esse menino...”

“se ela começar a chorar...”

“se ele começar a agredir...”.

 

Trata-se de fantasias onde as reticências são piores do que acusações diretas, pois deixam as pessoas com a sensação de que algo muito errado existe dentro delas: talvez mesmo uma espécie de demônio que precise ser dominado a qualquer custo.

 

Essa atitude desqualifica a percepção da pessoa (o que geralmente já aconteceu na primeira infância) e acaba desqualificando-a como um todo, uma vez que o discurso subjacente sugere:

 

         “você é incapaz”

         “você é inadequado”, etc.

 

Nunca é demais repetir que a facilidade com que caímos nessas armadilhas deve-se ao fato de elas freqüentemente repetirem velhas situações de nossa história. Ninguém se julga tão inadequado, ninguém é um juiz tão severo de si mesmo – como é tão comum entre nós e nossos clientes – por vontade própria: fomos sistematicamente “treinados” para isso. Mesmo aqueles que se apresentam como irresponsáveis e levianos num primeiro momento, mais tarde – quando sentem mais confiança, ou percebem que não serão julgados, punidos, humilhados ou coisa parecida (o que seria a repetição de suas histórias) – podem lentamente começar a desvelar um feroz inquisidor internalizado desde a mais tenra infância.

 

Ora, se concordarmos com Martin Buber de que o ser humano precisa visceralmente de confirmação, concluímos o óbvio de que tais atitudes “pedagógicas” ou “treinadoras” são, no mínimo, antiterapêuticas ou neurotizantes, na medida em que desconfirmam, em que desqualificam a pessoa na sua capacidade de existir, minando-a ainda mais em sua auto-estima, auto-imagem e autoconfiança. Conheço mesmo pelo menos dois casos de clientes que tiveram as suas características esquizóides acentuadas depois de longas terapias desse tipo. Para mim, esses casos foram mais severos porque o dogmatismo autoritário do terapeuta apresentou-se travestido de bondade e de imensa vontade de “ajudar”.

 

Acredito que essas e outras circunstâncias, todas afastadoras da visão unificada, holística, do ser humano, fizeram com que a Gestalt-terapia inchasse, em lugar de crescer lentamente e bem nutrida por suas raízes, como deve acontecer com todo organismo sadio.

 

Com respeito a nossas origens, jamais vi alguém negar que a Gestalt-terapia seja uma Fenomenologia, isto é, uma visão unificadora, holística, não-dicotomizada do ser humano e do mundo. Mas também tenho tido muitas, muitíssima dificuldade de encontrar Gestalt-terapeutas cuja postura esteja em consonância com o método fenomenológico; dissonância que, para mim, vem demonstrar total desconhecimento da essência teórica que fundamenta o seu trabalho.

 

Uma das causas dessa ignorância, além é claro do baixo nível dos treinamentos, é a quase total ausência de bases fenomenológicas na imensa maioria da literatura gestáltica, que se apresenta quase sempre de forma introdutória, repetitiva e superficial: “muito do que está escrito em  Gestalt-terapia não tem o sentido de pessoa como um todo” (YONTEF, Gary. Avanços e problemas em psicoterapia fenomenológica. Anotações de aula, São Paulo, fev. 1987).

 

Só agora, na década de 1980, começam a surgir textos que insistentemente falam em fenomenologia e, o que é mais animador ainda, já vemos na prática de alguns dos principais expoentes contemporâneos da Gestalt-terapia atitudes e posturas que resistem ao mais rigoroso crivo crítico do método fenomenológico, como pude ver pessoalmente no mês passado, em São Paulo, quando participei de um curso dado por Gary Yontef, treinador do “Gestalt Therapy Institute of Los Angeles”. Foi um curso onde a postura fenomenológica esteve presente durante todos os trabalhos e a palavra “Fenomenologia” foi uma das mais pronunciadas durante as explanações teóricas, não bastasse o próprio nome do treinamento: “Avanços e Problemas em Psicoterapia Fenomenológica”.

 

A leitura cuidadosa de nosso livro básico, o “Gestalt Therapy”[2] – (por sinal quase desconhecido até mesmo por antigos Gestalt-terapeutas) –, nos deixa clara a preocupação com a postura fenomenológica em muitos trechos, mas não menos clara fica-nos a impressão da pouca intimidade dos autores com os clássicos da Fenomenologia. Assim, nesse importante livro, que ainda é a nossa bíblia, o clima fenomenológico surge mais como uma sombra abrangedora, cujos contornos os autores não quiseram ou não puderam delinear.

 

Acredito que essa tarefa, que não pôde ser empreendida na década de 1950 e foi praticamente ignorada nas duas subseqüentes, é o nosso desafio agora, se quisermos que a Gestalt-terapia sobreviva e se desenvolva, mantendo e ampliando o seu papel de uma das principais e mais eficazes abordagens psicoterapêuticas modernas.

 

Em resumo, as raízes da Gestalt-terapia estão, principalmente, na Europa do entre guerras, mas o seu desenvolvimento prático se deu no exílio, longe das grandes correntes de pensamento que a geraram, ou seja, a planta foi cortada de suas raízes prematuramente, desenvolvendo-se em outro solo, sofrendo outras influências.

Já se escreveu na Europa que a Gestalt-terapia jamais se desenvolverá plenamente ou terá longa vida nos Estados Unidos porque é uma abordagem essencialmente européia. Trata-se de uma afirmação radical, mas que lança alguma luz sobre a imensa dificuldade que temos testemunhado a respeito do pleno entendimento dessa abordagem, mesmo por parte de alguns de seus expoentes mais famosos.

 

Por isso, alenta-nos ver, hoje, norte-americanos empenhados na reaproximação da Gestalt-terapia com suas raízes fenomenológicas, mas acredito que nós, brasileiros e latinos em geral, podemos e devemos assumir nosso papel nesse trabalho, dada a nossa maior facilidade, por circunstâncias históricas, de transitar tanto pelo modo de ser e pensar europeu quanto norte-americano.

 

É, pois, com a satisfação e o conforto de um aliado que participo deste Congresso, compartilhando com vocês minhas críticas ao modo tradicional, dicotomizante, de “fazer Gestalt”, modo esse alienado da ontologia e do método fenomenológico unificadores que, quer queiram os “fazedores de Gestalt”, quer não queiram, dão sustentação, coerência e sentido ao nosso trabalho.

 

Brasília-DF, março de 1987


[1] Trabalho apresentado no I Congresso Holístico Internacional / I Congresso Holístico Brasileiro.

[2] PERLS, F. S.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt Therapy : excitement and growth in the human personality. New York: Delta, 1951.


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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