CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

Agosto/2006

 

Quanto menos “me empurram”
ou eu “me empurro”,
mais “eu ando”.

 

CAPÍTULO VI**

 

A Não Paradoxal Teoria da Mudança:

         Um dos clássicos da Gestalt Terapia é o pequeno e excelente texto de Arnold Beisser: A Teoria Paradoxal da Mudança (1973), que trata da constatação clínica de que quanto mais nos aceitamos, mais podemos mudar.  Beisser denomina de paradoxal esse fenômeno porque ele conflita com a crença não examinada mas profundamente aceita (crença arraigada em nossa cultura e, portanto, em nossas psicoterapias) de que só mudamos, crescemos ou nos desenvolvemos, se somos espicaçados ou, de alguma forma, nos aplicam ou nos aplicamos a lei da palmatória. Enfim, paradoxal porque conflita com a descrença básica e generalizada no Ser Humano quando livre e aceito, bem como nas suas potencialidades/capacidades, descrença cultuada como um dos importantes pilares de nossa cultura dita civilizada. Talvez esse seja um dos preconceitos clássicos de mais difícil erradicação e até de identificação em nossas relações.

         Essa descrença é tão profunda que ainda impera mesmo nos meios especializados das ciências humanas, e é basicamente em oposição a ela que se insurge a essência, a proposta e a intenção de nossa visão do Ser Humano e de como lidar com ele.

         A teoria e prática (se esta for consciente, bem aplicada e coerente com a teoria) de nossas terapias desmentem radicalmente essa descrença e nos provam e nos convencem (se pudermos, ou seja, se tivermos a prontidão caracterológica necessária para deixar que o façam) de que a verdade está do outro lado: na crença de que o Ser Humano, em ambiente favorável, interrelacionando-se de forma sadia e não sofrendo sistematicamente relações pedagógicas, desenvolve o seu potencial e se modifica (cresce) sem maiores dificuldades ou traumas. Ou aparentemente não muda, se isso lhe convier; se isso for melhor para as suas relações naquele determinado momento e contexto em que vive.

         Se somos realmente aceitos por pessoas significativas para nós e nos aceitamos, paramos de nos julgar e de aceitar os eternos julgamentos alheios e, assim, desenvolvemos (recuperamos?), como conseqüência, a autoconfiança e a auto-estima indispensáveis para a aventura de experimentar o novo, para a aventura de viver. E, experimentando o novo dessa forma (diminuindo os julgamentos externos ou internos e as pressões deles decorrentes), voltamos a ser mais livres e, assim, passamos a ter opção para nos manter como somos, se isso for o melhor, ou para mudarmos, se essa mudança fizer sentido e só neste caso.

         Podemos dizer, então, que o Ser entrou na sua região de liberdade. E liberdade é liberdade; não é para fazer isso ou aquilo, não é para mudar de acordo com o meu desejo

racional e muito menos com o desejo  do meu terapeuta ou de quem quer que seja. Nem para não mudar; não é para resistir ou para se defender. Resistir a quê? Defender-se do quê?, se não há pressões?, se não há julgamentos? se há autoconfiança, auto-estima  e a conseqüente tranqüilidade?

         É óbvio que, neste caso, houve a mudança essencial, mesmo que a aparência o negue: a pessoa tomou as rédeas do seu viver em suas mãos, passou  (voltou?) a ser o sujeito agente de sua existência. Isso lhe dá o sentimento de poder, lhe dá a tranqüilidade que inevitavelmente modifica o seu estar-no-mundo, mesmo que o seu mundo específico, o seu contexto existencial, exija que desempenhe algum papel. Ela o desempenhará sabendo-se desempenhando por necessário ao seu melhor ajuste contextual ou momentâneo, sem sentimento de culpa  ou de inadequação; que desapareceram com o sentimento de menos valia e de falta de confiança em si que davam suporte para a sua insegurança.

         Portanto, a pessoa que se aceita desenvolve (reencontra?) o grau de autoconfiança e de auto-estima que a caracterizam como um ser saudável, independentemente de eventuais crises ou de papéis que possa ter necessidade de desempenhar para melhor sobreviver em ambientes desfavoráveis. E o principal: independentemente das desencontradas opiniões dos outros a seu respeito. O que não quer dizer que ela não ouve os outros. Pelo contrário, ouve a todos com a tranqüilidade e a serenidade de quem sabe o que quer e o de que necessita.           

          Este é o nosso achado mais simples, mais espetacular e mais importante na essência e o menos entendido, menos digerido e, conseqüentemente, o menos praticado na sua radicalidade.

         Enfim, é o atingimento do estado de autoconfiança e de auto-estima indispensáveis para o nosso sentimento de paz e de segurança que constitue o suporte existencial básico de que necessitamos para acompanhar o fluxo dos eventos externos e internos, que incessantemente nos desafiam e podem nos desestabilizar.

         Do outro lado, o que geralmente ocorre é permanecermos nos modos de ser estereotipados, nos comportamentos fixados, por medo de não termos capacidade de lidar com o novo, com o instável. Dessa forma, não nos aceitamos em função do profundo, velho e arraigado sentimento de inadequação por não sermos como “deveríamos ser”. Por isso, temos de nos defender de alguma forma. E, para nos defender, fechamo-nos para nós mesmos e para o mundo e, óbvio, para as novidades. Fixando-nos nos velhos padrões adquiridos,  obstruímos ou desviamos o nosso fluxo interativo. Nos tornamos crescentemente seres isolados, rígidos e imutáveis. Ou, cada vez desempenhamos mais papéis, nos alienamos desenvolvendo, sem perceber, modos de ser estereotipados que na imensa maioria das vezes nada tem a ver com aquilo que no íntimo desejávamos para nós.

         Esse processo a que fomos obrigados desenvolver é tão doloroso, pela negação que encerra, que, para minimizar a dor, em algum momento de nossas vidas decidimos esquecê--lo. Por isso, ele vive em nós na dimensão do esquecimento, influindo-nos poderosamente sem que o saibamos. Esse esquecimento, como uma droga forte, nos alivia a dor e nos tira o poder.

         Como isso se instala em nós está sobejamente documentado. Ver, por exemplo, o Capítulo IV de Perls e outros (1997), os preciosos livros de Alice Miller (1997, 1993, 1984a) e quase toda a literatura psicoterápica moderna, que cada vez mais aceita a importância e a essencialidade principalmente das primeiras relações para o nosso desenvolvimento e formação.

         A teoria de Beisser é, portanto, corretíssima e tem sido clinicamente confirmada durante todos esses anos, mas não é paradoxal.  Deixa de ser paradoxal para ser lógica, na medida em que esses estudos,  reflexões  e acuradas observações clínicas  mais  demorados esclareceram um pouco mais o processo de condições e possibilidades de mudança como um processo que decorre naturalmente da integração de conflitos em contextos favoráveis, não judicativos e, principalmente não coercitivos. Exemplo desse tipo de contexto é aquele cuja pesquisa e descrição constituem o nosso principal objetivo e ao qual damos o nome de contexto psicoterápico.

Referências:

Beisser, Arnold, (1973). Teoria Paradoxal da Mudança, in Gestalt Terapia: Teoria Técnicas e Aplicações. (Fagan, J. & Shepherd, I. orgs.) - Zahar Editores, Rio de Janeiro.

Ribeiro, Walter, (1993) Em que Acreditamos? II Encontro Nacional de Gestalt Terapia.

Verni, Thomas (1989) A Vida Secreta da Criança Antes de Nascer. Ed.C.J.Salmi, São Paulo.

Lippi, José Raimundo (1993) Sua Majestade o Feto. “O Estado de Minas”, 19 de setembro.

From, Isadore (1984 e 1994) Reflexões sobre a Gestalt Terapia depois de 32 anos de Prática: Um Réquien para a Gestalt. Gestalt Journal.

Rosemblatt, Daniel (1991). Uma Entrevista com Laura Perls. The Gestalt Journal.

Miller, Alice (1997) O Drama da Criança Bem Dotada: Como os Pais Podem Formar (e deformar) a Vida Emocional dos Filhos. Ed. Summus, São Paulo.

Perls, Frederick S.; Hefferline, Ralph; e Goodman, Paul (1997) Gestalt Terapia: excitamento e crescimento na personalidade humana. Ed. Summus, São Paulo.

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** O texto acima é o capítulo 6 do livro de Walter Ribeiro, Existência - Essência: Desafios teóricos e práticos das psicoterapias relacionais (1998, São Paulo: Summus Editorial) e em 2005 foi publicado em inglês no International Gestalt Journal, volume 28, número 2.


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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