CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Walter Ribeiro*

       

Abril/2006

 

O GESTALT TERAPEUTA E O CHACAREIRO[1]

Walter Ribeiro[2]

 

O problema da psicoterapia é arregimentar o poder de ajustamento criativo do paciente sem forçá-lo a encaixar-se no estereótipo da concepção científica (ou filosófica) do terapeuta (Perls e outros, 1951, p. 281).

 

(Tentativa de levar até onde o autor puder – é óbvio – a reflexão gestáltica sobre as profundas diferenças entre aquele que pretende ser “o terapeuta” e aquele que pretende “cuidar”, “servir”. O texto também sugere que nos deparamos com grande dificuldade quando nos propomos a superar essas diferenças, sugerindo ainda uma linha de reflexão que, acredita, nos conduza às principais fontes dessa dificuldade).

         Já há alguns anos, em torno de dez, ocorreu-me a metáfora acima, que venho repetindo e que me auxilia nos grupos em que pretendo transmitir o que entendo ser uma relação terapêutica dentro dos princípios, crenças e postura existenciais de nossa abordagem.

         Nosso propósito em Gestalt Terapia é um empreendimento simples de entender racionalmente, mas extremamente complicado de aplicar, porque pretendemos criar condições facilitadoras para o possível desenvolvimento das potencialidades humanas (quaisquer que elas sejam) no contexto da cultura repressora na qual todos estamos imersos : a variação ficando por conta do grau dessa imersão, que é maior ou menor, de acordo com as dificuldades que cada um teve ou tem que enfrentar nas suas relações, notadamente nas primordiais.

         A falta de awareness do grau de imersão em que estamos em relação aos valores culturais que nos formaram (ou deformaram?) e dos quais, na mesma medida, somos representantes e perpetuadores, torna com freqüência um labor sisifiano a criação do “clima” relacional indispensável para o crescimento mais individualizado e menos massificado.

         Essa expressão “crescimento individualizado” designa a nossa dificuldade central, sendo óbvio que mesmo o termo “terapeuta” é muito infeliz e impróprio para designar aquele que lida com pessoas a partir de abordagens como a nossa.

         Hycner se preocupa com esse termo, que reflete e induz a equívocos que, longe de serem apenas semânticos, nos dizem da extensão dos desvios de cada um em relação ao entendimento da postura e da crença gestálticas, sendo portadores, portanto, de desdobramentos e de conseqüências que negam e desfazem aquilo que se pretende estar fazendo.

         A proposta de Hycner começa sugerindo a mudança da expressão “terapeuta” para “auxiliar de terapia” para nos designar. Não satisfeita com esse “rebaixamento”, propõe-nos o termo “steward” (aquele a quem cabe cuidar) (1985 e 1989).

         É claro que não podemos concordar com esse reducionismo de nosso poder e de nossa importância, a menos que já tenhamos lidado com a grandiosidade que trouxe a maioria de nós para essa profissão/função, que acreditávamos estar mais para a pajelança do que para o “simples” apoio facilitador.

         Felizmente, entretanto, muitos profissionais de várias abordagens já vêm duvidando da eficácia terapêutica das posturas que reforçam e perpetuam a verticalidade nas relações, cuidadosamente cultivadas em nossa cultura (ou em qualquer outra?).

         Por exemplo, no primeiro capítulo intitulado “Duas Abordagens Psicanalíticas” de seu terceiro livro (1984), Alice Miller nos dá, em apenas cinco preciosas páginas, alguns parâmetros par analisar as duas posturas observáveis em uma relação (relendo o texto, percebi que omiti a palavra “terapêutica”, que normalmente se segue, e achei que a omissão não é uma impropriedade) : a relação psicanalítica, a que chama de “pedagógica”, onde o “terapeuta” tem um projeto explícito ou implícito para o seu “paciente” e tudo faz para engajá-lo em sua “verdade” preestabelecida; e, em contraposição, a atitude não-pedagógica, onde o terapeuta tenta criar condições para o desenvolvimento individualizado do “parceiro” daquela “viagem a um País desconhecido que ainda não existe.”

         O pequeno texto é precioso, e como tal, deve ser considerado como estímulo para observação dos seus postulados em nossa prática e, também, como ponto de partida para novas reflexões.

         Tenho visto o entusiasmo com que é lido nos grupos, mas, quando passamos da teoria à prática, fica visível o resíduo, o ranço pedagógico que há em todos nós; resíduo e ranço obviamente provenientes da insuficiência de crença nas potencialidades humanas, bem como na capacidade de desenvolvê-las quando e sempre que o ambiente for propício. Des-crença arraigada e endêmica, uma vez que começou a nos ser transmitida desde o primeiro momento das nossas relações.

         Alice Miller menciona ali a má pedagogia ainda muito operante e oficial.  Não se refere à pedagogia de Paulo Freire, p.ex., que é oposta àquela ali denunciada e que, no contexto milleriano, é não-pedagógica.

         Essa linha de reflexão remeteu-me ao “Gestalt Therapy” (1950), capítulo VIII, onde Perls e Goodman (e Laura, que não aparece) afirmam que o “conflito entre indivíduo e sociedade é genuíno”, uma afirmação que está na base de todas as colocações teóricas do livro, que vão comprovando a inevitabilidade da afirmação, pois ambos (indivíduo e sociedade) se regem pelo princípio de autopreservação: o indivíduo, para  autopreservar-se, necessita crescer, desenvolver as suas potencialidades, ter liberdade para ser ou não ser diferente, experimentar, ser imprevisível. A sociedade, por seu turno, precisa de indivíduos previsíveis, que obedeçam às suas normas, que desenvolvam não a sua individualidade, mas os papéis instituídos e socialmente aceitáveis, proporcionando, assim, uma liberdade “vigiada” aos seus integrantes. Sente-se, pois, ameaçada com comportamentos divergentes (ambos fazem o melhor que podem para sobreviver no contexto).

         Somos, entretanto, produto de nossas relações com o meio. Somos parte desse campo. Assim, irremediavelmente relacionais. Estamos inevitavelmente contaminados. Parece ser isso o que constatamos quando vemos terapeutas trabalhando.

         Brincando sério um pouco: o “terapeuta” seria aquele cujo comportamento reflete possuir uma quantidade maior de sociedade, uma quantidade maior de adaptação, de valores instituídos e, conseqüentemente, uma menor disposição de não ser pedagógico quando se depara com “desvios” no seu “paciente”. Para ser steward (aquele que cuida), a pessoa que está com o papel de facilitador precisa acreditar na capacidade do “outro” de escolher o seu próprio destino, reservando-se o papel de cuidador para que a viagem seja a mais amena (ou a menos dolorosa) possível.

         Além de acreditar na capacidade do outro de escolher o seu destino, acredita também que ele renunciou, ou tem renunciado, ou está renunciando neste exato momento, ao seu próprio destino e adotando o dos outros, por imposição, pressão, chantagem emocional ou outros meios persuasórios aos quais cedeu para não ser punido/abandonado, principalmente naquelas relações onde a sua dependência era (é) maior e, portanto, o exercício do seu livre-arbítrio mais ameaçador e perigoso (ver Alice Miller, 1986).

         Essas crenças o levam à postura do chacareiro que decide estabelecer condições para o seu plantio.

         O terreno (o consultório e ele próprio, com a sua teoria, o seu treinamento, etc) é seu (é ele) e lhe cabe prepará-lo (preparar-se) para uma maior possibilidade de germinação (se for o caso). Ainda, o profissional de terapia não escolhe as sementes de cuja germinação deve cuidar, e nem mesmo sabe semente do quê elas são.

O chacareiro escolhe, revolve, limpa, tira os entulhos e ervas daninhas, aduba e molha a terra, coloca as sementes de acordo com aquilo que conhece a respeito das necessidades de cada uma e...  e  s  p  e  r  a  a germinação, que pode acontecer ou não.

         Enfim, cabe a ele criar todas as condições de facilitação que estão ao seu alcance, e nada mais[3].

         Quando criança, lembro-me de ter plantado uma semente de laranja e, como ela não estava correspondendo às minha expectativas, retirei-a do solo, vi que estava “inchada” e tentei ajudá-la a nascer, retirando a parte da casca (“couraça”) que, segundo minha perspectiva, estava atrapalhando.

         É claro e óbvio que essa crença de que o outro fará o melhor possível dentro das circunstâncias não funciona na base maniqueísta do tudo ou nada. Mas, se atentos, podemos perceber, com certa facilidade, a quantidade dessa crença que cada um temos, observando cuidadosamente aos nossos parceiros de terapia (clientes? terapeutas?), aos nossos treinandos, treinadores, supervisores e supervisionados e, claro,  nós mesmos.

         E, dessa forma, o resultado preconizado pela Teoria Paradoxal da Mudança (Beisser, in Fagan e Shephard) manifesta-se proporcionalmente a essa crença, com uma clareza ... (quase escrevo surpreendente, mas, na realidade, não há surpresa, e sim, uma decorrência lógica e precisa dos principais postulados da Gestalt Terapia).

         Esse “tomar partido” entre o indivíduo e a sociedade, essa quantidade maior ou menor de crença em um ou em outro – assumida ou não – aparece no trabalho de todos os Gestalt terapeutas de que tenho conhecimento, inclusive em nosso livro básico, o “Gestalt Therapy”. O livro todo defende a tese do desenvolvimento individual, da capacidade de integração criativa de todas as pessoas, etc., taxando de “neuróticas” quase todas as adaptações. Mas, com freqüência (como no Capítulo II, ao dizer “ ... quando a awareness do cliente é ociosa ...”) revela o projeto do terapeuta em relação ao cliente. Ociosa em relação ao quê? Não leva em consideração o fato de que a awareness é um processo ativo e que o cliente, naquele momento, pode estar diligentemente bloqueando a sua awareness porque não quer – ou não pode – entrar em contato com aquilo que o projeto do terapeuta considera desejável. O que poderia sugerir a outro terapeuta menos “pedagógico” que aquela ociosidade não-colaborativa poderia ser uma “resistência” que, vista pelo prisma do contexto existencial global daquela pessoa, poderia ser o resultado de uma integração criativa num campo percebido por ela como difícil e potencialmente perigoso. Não cabe, portanto, ao terapeuta impor padrões determinados pela sua própria percepção do cliente, o que pressuporia uma superioridade perceptiva, pelo menos, muito discutível em nossa abordagem.

         A citação acima, longe de pretender minimizar o valor indiscutível de nossa obra básica, teve o propósito de dar maior valor e ênfase ao alerta a todos nós sobre as imensas dificuldades de entendermos radicalmente a filosofia gestáltica pelo conflito que traz em relação a praticamente todos os pressupostos básicos de nossa cultura oficializada, os quais estão em nós e determinam a quantidade de pedagogia que orienta nossas relações.

 

Referências Bibliográficas

BEISSER, Arnold R. A Teoria Paradoxal da Mudança, cap. 6 de Gestalt-Terapia:     teoria, técnicas e aplicações. Org. Joen Fagan e Irma Lee Shepherd, Rio, Zahar.

HYCNER, Richard A. Dialogical Gestalt Therapy: an initial proposal. Gestalt Journal, vol. VIII, nº 1, 1985, pp. 23-49.

_______. The I-Thou Relationship and Gestalt Therapy. Gestalt Journal, vol. XIII, nº 1, 1989, pp. 41-54.

MILLER, Alice. Thou Shalt not be Aware: society’s betrayal of the child. N.Y., Farrar, Strauss, Giroux, 1984.

________ O Drama da Criança Bem Dotada: como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos. Tradução e apresentação da edição brasileira de Walter F. da Rosa Ribeiro. Summus Editorial Ltda., 1986.

PERLS, Frederick S., GOODMAN, Paul, HEFFERLINE, R. Gestalt Therapy: excitement and growth in the human personality. A Delta Book, 1951


[1] Texto parcialmente utilizado nas sessões plenárias do III Encontro Nacional de Gestalt Terapia (Brasília, outubro de 1991) e publicado na Revista de Gestalt, ano 2, n° 2, 1992.

[2] Sou grato a Richard H. Hycner pelos seus esclarecimentos a respeito do conceito “steward” (Comunicação pessoal. Brasília, outubro de 1991). Agradeço também a Fádua Helou e a Francisco José de Campos Mangia por suas valiosas sugestões.

[3] Certa vez, vi duas pessoas executarem os preparativos acima e, depois, simultaneamente, irem pegando, do mesmo saquinho, sementes de ervilha e plantando-as conforme as prescrições. Uma das pessoas passava por um bom momento de vida; a outra atravessava grande crise existencial. As sementes plantadas pela primeira germinaram quase todas; as plantadas pela segunda, não!

A memória desse fato vem-me remetendo com freqüência à reflexão sobre a inevitabilidade de contaminação nas relações, a inevitabilidade de troca de informações e energia, sem controle ou consciência. A partir desta preocupação, tenho insistido sobre a necessidade de não termos projetos para o outro como a forma mais segura de não influir na criatividade de sua integração, mas . . . será o bastante?


* Pioneiro da Gestalt Terapia no Brasil, Walter Ribeiro (CRP 01/0317) trouxe a abordagem para Brasília. Autor de vários textos sobre a teoria gestáltica, publicou seu primeiro livro em 1998, Existência - Essência – Desafios Teóricos e Práticos das Psicoterapias Relacionais, que será, em breve, lançado em inglês com o título Human Interactions - can we improve them?. É membro do Conselho Diretor do CEGEST e docente dos cursos de especialização.

 

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