CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Zélia P. Barbosa*

Revisão Enila Chagas

       

 

Dezembro/2008

 

Clariceterapia 

Review de “Clarice Lispector, essa desconhecida...”
Julio  Lerner

            Julio Lerner, através de fragmentos da história de vida de Clarice Lispector, nos abre uma fresta para conhecermos um pouco mais do universo dessa emblemática escritora.   

            São trechos e frases escolhidos para curtirmos ‘gestalticamente’ um pouco mais dessa “desconhecida”. Cabe lembrar uma citação de Deleuze (O Que É Filosofia, cap. “Do Caos ao Cérebro) que nos foi trazida pelo mestre Walter Ribeiro: “as ciências, a filosofia e as artes (a literatura incluída), nos possibilitam, através do contato com elas, sair da mesmice instituída e vislumbrar um caos criativo”.

           O texto de “Clarice, essa desconhecida...” é permeado pela emoção e pelo genuíno interesse do autor por Clarice e sua obra. Tanto que buscou e seguiu os rastros da família Lispector  até a Ucrânia, pesquisando suas origens e antepassados e as circunstâncias que acabaram trazendo a família Lispector até o nordeste brasileiro.  Já era sabido que Clarice nascera em 10 de dezembro de 1920 em Tchetchelnik, uma aldeiazinha da Ucrânia.  Filha de imigrantes judeus,  viera para o Brasil com poucas semanas, na fuga dos pais da Revolução Comunista.

            Julio Lerner recebeu o “Prêmio pela Melhor Entrevista do Ano” por uma entrevista com Clarice Lispector, realizada em 01 de fevereiro de 1977, no programa ‘Panorama’, na TV Cultura de São Paulo. Logo após a conversa dos dois, gravada por vinte e três minutos, Clarice o procurou e lhe pediu que ela só fosse divulgada após sua morte.  A entrevista foi ao ar dez meses depois: Clarice faleceu em dezembro de 1977, aos 57 anos.

            Lerner, que já era admirador de Clarice, refere-se ao dia em que a conheceu pessoalmente: “Aproximei-me e fui recebido pelo olhar mais solitário e desprotegido que até hoje me dirigiu um ser humano”.

           Jornalista, documentarista e entrevistador, Julio Lerner realizou vários programas voltados ao resgate da memória cultural brasileira. Foi à Ucrânia tentar desvendar a “memória silenciada” de Clarice, sendo o livro uma reflexão e uma homenagem à escritora e às suas origens.

           Mais tarde, ao visitar Tchetchelnik, na função de “arqueólogo da memória”, Lerner buscou descobrir o “código de pertencimento” que ligava Clarice à sua terra natal: pesquisou e tentou localizar os Lispector oriundos do local. Fez também palestras para estudantes contando sobre a obra e a vida da escritora, tornando Clarice Lispector  conhecida em sua cidadezinha.

            Com o apoio da Embaixada do Brasil na Ucrânia e da prefeitura local, organizou uma homenagem a ela.  Em dezembro de 2002, na entrada da biblioteca de Tchetchelnik, foi inaugurada uma placa comemorativa falando de sua origem e de sua brilhante trajetória no Brasil.

 

      A VOZ DE CLARICE  

“Antes dos sete anos eu já fabulava, já inventava histórias. Quando comecei a ler, comecei a escrever também”.

“Eu não sou uma profissional, só escrevo quando eu quero. Faço questão de continuar a ser amadora... de não ser uma profissional... para manter minha liberdade”.

“Eu ia com uma timidez enorme, mas uma timidez ousada. Eu sou tímida e ousada ao mesmo tempo”.

“Tenho períodos de produzir intensamente e tenho períodos-hiatos em que a vida fica intolerável. Eu acho que, quando eu não escrevo, estou morta”.

“O adulto é triste e solitário... vai se transformando a qualquer momento da vida, basta um choque um pouco inesperado e isso acontece...”.

“Tem um conto meu que não compreendo muito bem, ‘o Ovo e a Galinha’, é um mistério para mim... é sobre um criminoso que morreu com treze balas quando uma só bastava... uma bala bastava, o resto era vontade de matar. Era prepotência”.

“Em relação ao meu trabalho, ou ele toca ou não toca... suponho que não entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...”.

“Escrevo sobretudo porque a vida é mortal mesmo antes de uma pessoa realmente morrer.  Escrevo para saber porque nasci. E às vezes escrevo como quem dá de comer a mim e aos outros...”

“A gente (quando escreve) está querendo desabrochar de um modo ou de outro, não é?”

“Às vezes o fato de me considerarem escritora me isola... me põem um rótulo”.

“Escolher a própria máscara é o primeiro gesto voluntário humano”.

  

     FACETAS DE CLARICE 

- Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920 em Tchetchelnik, uma aldeiazinha na Ucrânia. Filha de imigrantes judeus, foi trazida por seus pais para o Brasil com poucas semanas de vida, fugindo da Revolução Comunista.

-Viveu uma infância de pobreza em Recife, com a mãe doente e o pai, sem falar português, tentando uma vida de ‘mascate’ pelas ruas da cidade. Logo após a viuvez, o pai e as três filhas, ainda pequenas, foram para o Rio de Janeiro.

-Mais tarde, Clarice confidenciou à sua amiga e secretária Olga Borelli que sua mãe já tinha duas filhas quando ficou doente. “Havia uma crendice em muitas regiões da Europa: dizia-se que uma mulher recuperaria a saúde se desse à luz um bebê;com o nascimento, ela ficaria curada de uma vez..”. E foi por isso que Clarice nasceu... ela já nasceu com a expectativa de cumprir uma grande missão!

-Clarice escreveu: “Fui preparada para ser dada à luz... minha mãe já estava doente... então fui deliberadamente criada,  com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje a carga dessa culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Era como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu não me perdôo”.

- Clarice viveu diversas fases depressivas e foi se tornando triste e solitária. Houve um acidente doméstico em que ela dormiu segurando um cigarro aceso: sofreu com as queimaduras causadas pelo incêndio, precisou fazer cirurgias reparadoras.  

- Na véspera de sua morte, escreveu um bilhete para sua amiga Olga Borelli: “... morro de medo de ficar sozinha...temo a solidão comigo mesma que me apavora. Você está aceitando minha pobre companhia? Responda agora, sim? Clarice”.

-A amizade das duas teve inicio com uma carta de Clarice, ao se conhecerem, lhe perguntando: “Você quer ser minha amiga? - mas você sai perdendo: sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida... não sei o que fazer comigo. Não tenho qualidades, só tenho fragilidades. Mas às vezes tenho esperança”.

“... Vi um anúncio de uma água de colônia, chamada Imprevisto. Serviu para me lembrar que o inesperado bom também acontece. E, sempre que estou desanimada, ponho em mim o Imprevisto. Me dá sorte. -Você, por exemplo, não era prevista”.

 

     A ADMIRAÇÃO E O AMOR DOS AMIGOS 

Antonio Callado: “Clarice era uma estrangeira. Não porque nasceu na Ucrânia. Clarice era estrangeira na Terra. Dava a impressão de andar no mundo como quem desembarca de noitinha numa cidade desconhecida onde há uma greve de táxis e coletivos... havia sempre, por parte dela e a despeito dela, um certo afastamento”. 

Caio Abreu/Veja: “Escrever, para ela, era um ato confundido com o próprio inventar da vida de cada dia. Escrevia como quem compõe música: escutando o ritmo do mundo...”. 

Hélio Pellegrino: “... À semelhança de Van Gogh, ela sabia... que debaixo de tudo lavra um incêndio. E dedicou-se a dizê-lo, através da linguagem. Para ela se abriam as portas da percepção, de modo a transformar-se o mundo num espetáculo de vertiginosa complexidade, profundidade - e vigor. Clarice via demais, e o sofrimento lhe brotava da crispação de suas retinas expostas... à luz que salta do coração selvagem da vida”. 

Lara Rezende: “Ela trabalhava com a sensibilidade. Ou melhor: trabalhava a própria sensibilidade. A emoção era o seu alimento e o seu motor. Por mais cedo que tenha chegado ao Brasil, será preciso considerar que há no seu berço e na sua primeira infância algo insólito. Um choque. Um encontro e um confronto de culturas”.    

 

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Referência:

LERNER, Julio. Clarice Lispector, essa desconhecida... 1ª ed. São Paulo: Via Lettera, 2007.
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é a Filosofia? 2ª ed. São Paulo:  34 (3ª reimpressão – 2004)


* Zélia Pereira Barbosa - CRP. 0658/01 – é Psicóloga licenciada pela Unb em 1979. Tem formação em Gestalt-terapia e pós- graduação em Psicologia Junguiana e em Psicossomática. Foi Conselheira/membro da Comissão de Ética do Conselho Regional de Psicologia 1ª região no triênio 2004-2007. Atualmente, atua na área clínica. É sócia do CEGEST onde, dentre outras atividades, participa do plantão de atendimento à comunidade.

 

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