CEGEST - Centro de Estudos da Gestalt Terapia

 

 

   por Leoni Ferreira de Melo*

       

 

Maio/2008

 

 

Ajustamento Criativo

 

“Na verdade, os conceitos designam

 tão-somente possibilidades.” (Deleuze)[1]

  

     Para comentar a expressão “ajustamento criativo” e seu significado em Gestalt Terapia, um exercício didático/semântico remete-nos à sua raiz: “ajustamento” deriva do adjetivo masculino singular “justo”; do latim “justus”, que se traduz por “conforme à eqüidade, à razão”. Comparado este verbete com “juízo”, por exemplo, nota-se que eles apresentam alguma correlação de natureza etimológica:  “juízo” deriva do latim “judicium” que quer dizer conceito, parecer, opinião, tino. Relativamento ao termo “criativo”, trata-se de adjetivo cujo verbo advém do latim “creãre”: dar existência a, formar. Tal expressão mostra-se, às vezes, equivalente quando usada pelo senso comum e por profissionais da Gestalt Terapia. Neste sentido e de forma bem simplificada, ajustamento criativo resulta ou é uma resposta do sujeito com vistas à satisfação de alguma demanda em sua fronteira de experiência.  Mas, outras vezes, ela toma significados diferentes daquele presente no livro/bíblia de (alguns) gestalt terapeutas. Neste caso, mostra-se como uma receita de resposta ideal, portanto, não “realista”, para usar um termo perlsiano; moldada de acordo com os mandados sociais vigentes e, assim, distanciada das necessidades atuais do sujeito. Mais uma vez o tema está diretamente ligado ao conceito gestáltico de contato. [2] Ao falar de ajustamento criativo, de maneira geral, logo no capítulo II, itens 9, do GT, Perls et al., traduzem-no por “livre interação das faculdades, concentrando-se numa questão atual (que) não resulta em caos ou numa imaginação demente, mas numa gestalt que resolve um problema concreto”. Nos itens 10 e 11 ainda deste capítulo, ajustamento criativo está associado à auto-regulação organísmica e à função do self, respectivamente. Os autores consideram, ao tratarem de ajustamento criativo, como inegociável, instranferível e inadiável o  contato do sujeito com a necessidade e as circunstâncias, como condição de o organismo se auto-regular, isto é, quanto mais espontaneamente nos for posssível exercer todo o poder de orientação e manipulação, de modo a se recriar a realidade.  Neste parágrafo, há dois termos muito próximos em Gestalt Terapia: “resolver um problema concreto” e “recriar a realidade”. Tais expressões falam de ajustamento criativo. Trata-se de uma linguagem específica que busca compreender o sujeito e suas atitudes numa dada e condicionada situação. Entretanto, uma leitura mais apressada pode interpretar que ajustamento criativo tenha de ser algo “ideal” e “perfeito”, segundo categorias sociais vigentes num contexto temporal. Longe disso: ajustamento criativo refere-se a uma atitude, resposta, resolução pessoal, íntima proveniente da possibilidade de cada sujeito entrar em contato com suas necessidades e circunstâncias atuais (“atuais” aqui percebido como sinônimo de imediatamente, de agora, contemporâneo, mesmo que seja resultante da pressão do “ontem” __ e certamente nossa percepção contém alguns acúmulos). Aqui, então, pode-se obter, com a ajuda da semântica acerca das palavras criar e ajustamento, um significado (sempre) provisório da expressão ajustamento criativo: ação do sujeito que dá forma, conforme à eqüidade, à razão, ao parecer, à opinião, ao tino, à sua experiência.


[1] Deleuze, Giles. Diferença e repetição. Graal. 2a. Edição, 2006, pag. 202.

[2] Em outro documento, comentarei a respeito de Contato em GT.

 


* Leoni Ferreira de Melo (CRP 01/5560-0) é psicóloga clínica, membro da Diretoria e docente dos cursos do CEGEST.

. contato: leonimelo@gmail.com

 

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