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Gestalt - Aqui, agora e mais além Notas e Notícias
Enila Chagas *
Um espaço de comentários e notícias sobre publicações, palestras, seminários e acontecimentos de interesse para nossa comunidade. Contamos também com a colaboração e as opiniões dos visitantes virtuais.
Julho 2010
Neste momento o país se prepara para as eleições. Muito barulho e propaganda na mídia, o que nos convida a refletir sobre o que é melhor para nosso país. Nós, psicólogos, pertencemos a uma classe que teve acesso à educação e que diariamente convive com pessoas de todos os níveis, de acordo com as diversas áreas de atuação. Como membros da sociedade civil, é hora de muita leitura, conversa e participação. Falando de eleições, é bom lembrar que o CEGEST renova sua Diretoria e Conselho Fiscal em julho. Se você é sócio, não deixe de comparecer á Assembléia Ordinária (17/7/2010) e dar seu voto e opinião sobre os rumos de nossa instituição.
Os livros de Fritz Perls são os “clássicos” da Gestalt-terapia e nunca é demais lê-los e relê-los. A cada (re)leitura novos aspectos são levantados e nos enriquecem. É o caso de Gestalt Terapia Explicada, que reúne gravações de workshops de Perls, realizados no final dos anos sessenta, pouco antes de sua morte (1970). Esse material foi reunido no Brasil por Paulo Barros (Summus, 1977). Embora conhecido aqui já há muitos anos, a obra não obteve o mesmo respeito e admiração de Gestalt Terapia, considerada a Biblia da abordagem. Talvez por reproduzir cansativos trabalhos de sonhos que eclipsaram a consistente parte teórica. Sua releitura,entretanto, revela que podemos “ouvir” as palavras do próprio Perls sobre aspectos importantes de sua teoria: a explicitação da auto-regulação organísmica e a discussão de sua vivência hoje; “a luta” opressor-oprimido; a redefinição do célebre “aqui e agora”; e muitos outros temas que nos preocupam como base teórica da psicoterapia. Cabe lembrar que se trata de um livro da maturidade de F.Perls, uma reflexão ao final de sua jornada.
É uma figura jurídica que se comunica estreitamente com a psicologia. Caracteriza-se pela atitude de pais que, ao se separarem, usam de todos os recursos (lícitos e ilícitos) para obter a guarda legal dos filhos(as) e afastá-los física e emocionalmente daquele(a) que saiu de casa. É um tema que com freqüência chega aos tribunais e que atinge o campo da psicoterapia, convidada a dele participar. A esse respeito, recomenda-se o documentário brasileiro A Morte Inventada – Alienação Parental (Livraria Cultura), em que participantes desses dramas familiares (pais e filhos) e profissionais das áreas de saúde, família e justiça dão seus depoimentos. É um documentário que mobiliza o espectador. Pode ser também muito útil para esclarecer psicoterapeutas, familiares e outros que lidem com os dolorosos problemas descritos.
O título do livro nos surpreende: autobiografia de uma autista? Como? O “já sabido” que se transforma em preconceito nos diz que isso é impossível, pois o autismo invalida a possibilidade de entre eles surgir uma escritora. O título, entretanto, é verdadeiro e a historia, contada na primeira pessoa, é comovente. A autora, diagnosticada muito cedo com a doença, percorreu um longo e doloroso caminho para se educar, conviver em grupos e cursar a universidade. O relato nos mostra como foi difícil lidar com os sintomas que a afetavam (afetam ainda?). O mais importante, talvez, em seu caso e em muitos outros, era o desejo de ser notada, de participar de atividades infanto-juvenis, que poderiam inseri-la em grupos. Mas tudo era difícil: o incômodo com os diferentes ruídos que acompanhavam os programas dos colegas, as humilhações sofridas por parte daqueles ditos “normais”, a dificuldade em perceber “pistas” ambientais que a orientassem na relação com os outros. Quase sempre ela fracassava e manifestava crises de raiva que tinham efeito contrário a seus desejos e a levavam a um permanente estar só. Sua construção do mundo era muito pessoal: “minha mente é totalmente visual”, diz Temple Gradin. Elase afligia com a consciência de uma forte polaridade: a necessidade de ser tocada e o medo ou pânico desse toque. Temia ser engolfada nesse contato. Quando pequena, seu contato mais sereno e satisfatório era com animais, principalmente bois. Persistiu a necessidade de estar próxima deles e isso definiu caminhos em sua vida. Com o crescimento, passou por tratamentos e aulas com vários profissionais. Assim ela foi definindo suas habilidades, em que ressaltavam o raciocínio espacial, estatística e desenho técnico. Hoje dedica-se, profissionalmente, a planejar grandes instalações de aço e concreto para o manejo do gado, além de outros projetos. Ao final, Temple conclui que os cuidadores de crianças autistas não devem recorrer a apenas a um tipo de tratamento, pois entende que métodos ativos variados, usados em conjunto, têm mais probabilidade de sucesso. Ao final do livro, a autora ressalta o amor como imprescindível: “O componente fundamental do plano de tratamento é a presença de pessoas amorosas que se disponham a trabalhar com a criança. Eu me recuperei porque minha mãe, tia Ann e Bill Carlock [um professor] gostavam de mim o suficiente para trabalharem comigo”. O fundamento no amor na acolhida às crianças autistas nos remetem aos princípios do desenvolvimento infantil defendidos pela Gestalt-terapia. É sempre o amor...
* Enila Chagas (CRP 01/631-5) é psicóloga
clínica, membro da Diretoria e docente dos cursos do CEGEST, do qual é uma das
fundadoras. “Viciada” em livros, ousa assinar esta coluna.
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