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Gestalt - Aqui, agora e mais além Notas e Notícias
Enila Chagas *
Um espaço de comentários e notícias sobre publicações, palestras, seminários e acontecimentos de interesse para nossa comunidade. Contamos também com a colaboração e as opiniões dos visitantes virtuais.
Outubro/2008
Acontecerá em São Paulo, nos dias 22 e 23 de novembro próximo, congresso de psicoterapia inspirado no tema “A Psicoterapia e Nosso Mundo Traumatizado”. Sediado na Universidade Anhembi Morumbi, o evento conta com o apoio do CFP. Propõe a abertura de debate amplo sobre importantes eixos temáticos: Mídia, Novas manifestações psicopatológicas, Psicoterapia,neurociência e filosofia, e outros. Informações e inscrições: www.congressopsicoterapia2008.com.br.
Importante mudança tem acontecido na psicoterapia atual. Seguindo tradição secular, iniciada com o trabalho de Freud, a psicoterapia se voltava, quase exclusivamente, para o indivíduo e sua problemática. Foi a longa era do “intrapsíquico”, em que o contexto do cliente era relegado a um segundo plano, tanto nas escolas de psicologia quanto no trabalho de consultório. A complexidade dos tempos modernos, a revolução nas relações familiares, o surgimento de “novas” doenças deixaram clara a importância do mundo em que a pessoa está inserida como um fator de saúde ou de adoecimento. Isto se observa no simples acompanhamento dos programas de congressos e encontros, quase todos focalizando relações de diversos tipos, mazelas sociais, a influência da cultura propagada pela mídia, a política nacional e internacional e muitos outros temas.Cabe uma reflexão: será que basta ao terapeuta a leitura de textos de psicologia? Como está ele localizado no mundo, ao menos no mundo que o cerca? Será que ele pode avaliar os impactos que o cliente sofre?
A GT fica bem posicionada nessas mudanças. Desde sua criação, Perls e Goodman afirmaram que é impensável o indivíduo separado do meio (Gestalt Terapia, ed. Summus). O conceito básico da GT, o contato, descreve um indivíduo sempre em comunicação com o ambiente que o cerca, abrangendo outros indivíduos e todas as coisas que pertencem a este contexto. A qualidade do contato aparece como fator de saúde e doença. Esses termos têm uma conotação especial: até que ponto determinadas reações podem ser classificadas como patológicas se elas defendem a sobrevivência nos ambientes em que a pessoa está inserida? O relacional do cliente passa a ser de interesse especial para o terapeuta – seu olhar abrange o outro sempre dentro de algum cenário, ainda que deslocado do tempo presente. Nesta ordem de idéias, o “intrapsíquico” e o “interpessoal” pouco se distinguem, já que ambos derivam do mundo relacional vivido por cada um. Na mesma linha se encontram a cultura, o social, o político, etc.
Ian McEwan é um dos mais festejados autores ingleses da atualidade, detentor de vários prêmios literários. Os personagens de suas obras são vistos em profundidade, já que o escritor descreve em detalhe suas emoções e conflitos. Ao mesmo tempo, ele enfoca sua “prisão” a determinados preconceitos da classe social a que pertencem. Em Na Praia, a ação, passada em 1962, é centrada na lua de mel de um casal, enquanto suas histórias pessoais são reveladas aos poucos. Ficam claros o desamor, a frieza emocional e a falta de contato físico vividos pelos dois jovens em suas famílias; e seu encantamento com o amor surgido entre eles. A primeira oportunidade de viver o amor provoca neles um medo profundo de se revelarem abertamente: ela esconde a aversão por sexo e ele não fala da pressão do desejo. Nessas condições, temendo a perda, eles marcam o desencontro. A data (1962) é importante, no caso, pois precede a revolução sexual que ocorreu naquela década, com mudanças grandes no comportamento dos jovens. Aparentemente o conflito do casal estaria superado nos dias atuais, de proclamada liberação sexual. Mas o contraste entre as duas épocas revela como a sexualidade, supostamente uma questão tão pessoal é, como outros aspectos, dominada pelas relações familiares e pelos conceitos e preconceitos sociais e culturais do tempo em que vivemos. As regras de hoje são outras, mas continuam coercitivas: são novos modelos que devem ser seguidos por todos da geração atual. Agora os jovens precisam, antes de tudo, ser figuras de atração sexual, ficando outros aspectos seus em segundo plano. Se o exercício da sexualidade correspondesse ao desejo autêntico de cada um e à sua livre escolha, grande parte dos problemas nessa área teriam deixado de existir. Entretanto, a prática clínica mostra que isto não aconteceu. Ao escolher personagens vivendo o final de uma era de repressão sexual, o autor nos leva ao questionamento do que está acontecendo conosco hoje. Será que não continuamos controlados pelas propostas da sociedade em que vivemos? Recomendo a leitura às pessoas interessadas neste questionamento.
* Enila Chagas (CRP 01/631-5) é psicóloga
clínica, membro da Diretoria e docente dos cursos do CEGEST, do qual é uma das
fundadoras. “Viciada” em livros, ousa assinar esta coluna.
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