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Gestalt - Aqui, agora e mais além Notas e Notícias
por Enila Chagas*
Agosto/2008
Hoje peço licença aos homens que freqüentam nossa coluna. Vou tratar de mulheres. Apesar que é sempre bom nos conhecer melhor....
A mulher de hoje, depois dos avanços da segunda metade do século XX, tem como certa a igualdade com os homens. Ou defenderá ela sua superioridade? Mas isso não implica em uma distribuição eqüitativa em termos profissionais, embora provavelmente este momento se aproxime rapidamente. Na psicoterapia, prevalece o número de mulheres como profissionais e como clientes. É um dado histórico que vem se mantendo. Freud dedicou sua pesquisa e escritos ao homem, mas a quase totalidade de suas clientes eram mulheres. Com certeza os homens têm se aproximado de nossos consultórios, ultrapassando o machismo que camuflava, às vezes tragicamente, suas dúvidas e dores. A questão de gênero ainda atinge outras áreas e hoje enfocamos a literatura.
Na última Feira Internacional de Literatura de Paraty - FLIP, realizada em junho último, veio à tona mais uma vez a polêmica questão: existe um literatura feminina? As escritoras presentes ao evento afirmaram enfaticamente que não, pois estaria confirmada uma discriminação em relação à mulher. Como aceitar isso no século XXI, depois de tanta luta pela igualdade? Na ocasião, ficou evidenciado o feminismo – a justa luta pelo reconhecimento de capacidade idêntica em ambos os sexos e por oportunidades iguais. È um momento que veio como resultado do trabalho de muitas mulheres que antes de formalmente serem feministas, delinearam o feminino . Elas “pintaram” em suas obras retratos em que as especificidades do gênero permitiram uma compreensão maior de quem somos hoje. Conhecer melhor nosso percurso pode iluminar quem somos nós hoje - terapeutas e clientes. Nos modestos limites da coluna, lembro algumas destas mulheres.
Em obras do final do século XVIII, Jane Austen, talentosa escritora inglesa, descreve a condição da mulher de classe media e como seu destino estava ligado ao dinheiro. No caso, ter um “dote” para conseguir um marido. Ela inicia sua obra mais conhecida, Orgulho e Preconceito, com a seguinte frase: “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro possuidor de bens deve estar precisando de uma esposa.” E a autora mostra como a heroína, uma jovem inteligente e cheia de predicados, assim como suas irmãs, se via condenada à falta de perspectiva determinada pela condição financeira: precisavam arranjar um marido. É interessante notar a forma crítica como a autora se coloca em relação às figuras masculinas, algumas de muito pouco valor. Em termos cuidadosos, ela se revolta com sua condição de mulher, dependente de achar um pretendente para ter expressão como individuo:mulher ou mãe de um homem. E o amor romântico ficava em segundo plano.... Esta obra, assim, como Sensatez e Sensibilidade, da mesma autora, resultaram em filmes de sucesso, relativamente recentes.
A escritora espanhola Rosa Moreno, ao publicar Histórias de Mulheres, em 2007, (Editora Agir), comenta as vidas de quinze mulheres, escolhidas sem critérios específicos. Aborda aspectos ditos “positivos” e “negativos” das retratadas, cabendo ao leitor (leitora) identificar-se ou não com os relatos. As escolhidas pertenceram a épocas diferentes e viveram as agruras do feminino cada uma a seu jeito. A tônica parece ter sido a necessidade de sobrevivência em seu ambiente, circunstância que, como sabemos, precede outras considerações ou desejos. Atraiu-me a história da escritora francesa George Sand, pseudônimo de Aurore Dupin. Contemporânea do romantismo do século XIX e atraída pelos ideais de liberdade sob várias formas, Aurore teve que se transformar em “homem” para vivê-los. Assim, passou a se chamar George Sand (mesmo na intimidade), vestia-se com roupas masculinas e teve relações amorosas com diversos homens, muitos deles famosos, como o compositor F, Chopin. Só assim pôde escrever livros, freqüentar os salões literários da época e amar. Enfim, foi preciso se travestir de homem para viver plenamente sua feminilidade.
Surge, em 1949, o livro considerado precursor do feminismo: O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir (tradução publicada pela Editora Nova Fronteira). A autora constata, de forma lúcida, que a mulher não aparece como protagonista ou criadora em nenhuma civilização. Seu papel sempre esteve na dependência do homem. Também sua linguagem está subordinada aos códigos de vida e comunicação estabelecidos pelo homem. E o “eterno feminino” representa as algemas em que a mulher é mantida em sua alienação. A fundamentação histórica, sociológica e “pessoal” de Simone teve a força de influenciar muitas outras autoras, que a partir dos anos sessenta se lançaram decididamente em posturas radicais sobre a posição da mulher. Aparece bem caracterizado o feminismo, sob a forma de luta para ocupar espaços na sociedade e na vida a dois.
A segunda parte do século XX, assim como o momento atual, são marcados por literatura de ótimas autoras, que escrevem obras centradas na mulher, mas não apenas “para as mulheres”. À medida que ascendemos à posição de cidadãs de primeira classe, a literatura se volta para nosso papel dentro da cultura ocidental em que estamos inseridas. Parte destes livros se enfoca questões de relacionamento, já que agora os conflitos ficaram evidenciados e podem ser discutidos. Outros para a mulher profissional e o espaço em que a cada dia ela avança mais. Vale lembrar que ainda existem mulheres em condições adversas em muitos países do mundo, principalmente no Oriente. Ao vermos uma mulher coberta por uma burca, estamos vendo um exemplo de aprisionamento decorrente do “ser mulher” e nada mais.
O tema abordado é rico demais para o alcance desta coluna.. Mas sempre é bom conhecer novas referências sobre a mulher... Principalmente, despertar a curiosidade sobre temas presentes em nosso dia a dia, pessoal e/ou profissional. A coluna está disponível, através de meu e-mail, para indicações de obras sobre o assunto. Nossa sessão do Livro do Mês retorna em setembro.
* Enila Chagas
(CRP 01/631-5) é
psicóloga clínica, membro da Diretoria e docente dos cursos do CEGEST, do qual é
uma das
fundadoras. “Viciada” em livros, ousa assinar esta coluna.
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